Ameaçados, agricultores familiares, trabalhadores rurais e povos indígenas enfrentam o alinhamento do poder público à expansão da monocultura canavieira

UF: MS

Município Atingido: Dourados (MS)

Outros Municípios: Caarapó (MS), Maracaju (MS), Nova Alvorada do Sul (MS), Ponta Porã (MS), Rio Brilhante (MS), Sidrolândia (MS)

População: Agricultores familiares, Povos indígenas, Trabalhadores em atividades insalubres, Trabalhadores rurais assalariados

Atividades Geradoras do Conflito: Agroindústria, Agrotóxicos, Monoculturas

Impactos Socioambientais: Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas, Desmatamento e/ou queimada, Poluição atmosférica, Poluição de recurso hídrico, Poluição do solo, Precarização/riscos no ambiente de trabalho

Danos à Saúde: Contaminação por agrotóxico, Doenças não transmissíveis ou crônicas, Doenças respiratórias, Piora na qualidade de vida, Suicídio

Síntese

No contexto do Brasil República (1889 – atual), considera-se que a produção de cana-de-açúcar e seus derivados vem se fortalecendo desde a década de 1930, a partir da criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que regulamentou as atividades em canaviais. A partir daí, no estado do Mato Grosso do Sul três marcos são considerados: (1) a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, integrando a produção de cana com a indústria automobilística; (2) a flexibilização da regulamentação do setor, provocando o aumento de usinas em território sul-matogrossense, na década de 1990; e (3) o incentivo do governo federal, nos anos 2000, à produção de biocombustíveis, somado à ascensão da tecnologia flex aplicada ao setor automobilístico (Britts; Silva; Abrita, 2016).

Nesse sentido, a expansão da cana-de-açúcar levou ao crescimento populacional acelerado em municípios sul-matogrossenses integrados à cadeia sucroalcooleira, aumentando a demanda por empregos e a precarização das relações trabalhistas. Junto a isso, intensificaram-se os impactos socioambientais da monocultura, causados por atividades como a queima da palha da cana e o uso intensivo de agrotóxicos, amparados por incentivos fiscais ao aumento de produção (Britts; Silva; Abrita, 2016; Sant’Anna et al., 2016; Faccin; Merêncio, 2019).

No âmbito legislativo, o Decreto Federal nº 6.961, de 2009, que instituiu o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar (ZAE Cana), excluiu a Amazônia, a Bacia do Rio Paraguai (BAP) e o Pantanal das áreas de plantio. Mesmo assim, estudos posteriores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicaram a contaminação da BAP por agrotóxicos utilizados em plantações de cana, milho, soja e algodão (Calheiros; Ferracini; Queiroz, 2010).

Como apoiadores dos agricultores familiares, trabalhadores rurais e povos indígenas ameaçados pela lógica monocultora, destacamos a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a Central Única de Trabalhadores (CUT) e a Via Campesina. Insistuições de pesquisa como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Embrapa também acumulam trabalhos relevantes sobre a questão.

Na década de 2020, com o avanço do agronegócio de maneira concomitante à questão climática, o discurso pró cana-de-açúcar ganha uma nova roupagem, ampliando sua fronteira sob a justificativa da transição energética e a produção de biocombustíveis. Em Mato Grosso do Sul, ações do governo estadual, como o Programa Estadual de Incentivo ao Desenvolvimento das Fontes Renováveis de Produção de Energia do Governo do Estado (MS Renovável), mostram o alinhamento do poder público à expansão da monocultura canavieira.

 

Contexto Ampliado

O Mato Grosso do Sul foi oficialmente criado em 1977, dois anos após a criação do Proálcool, e já ‘nasceu’ representando a expansão do agronegócio canavieiro sobre a região (Britts; Silva; Abrita, 2016). Deste modo, o estado passou a compor a “fronteira do etanol” do bioma Cerrado, formada também por Minas Gerais e Goiás (Sant’Anna et al., 2016).

Em março de 1985, foi publicada a Resolução Conama nº1, suspendendo a concessão de licenças para novos complexos sucroalcooleiros em bacias hidrográficas do Pantanal mato-grossense (Scheuer; Neves; Neves, 2017). Mesmo assim, com o aumento das usinas na década de 1990, novas lavouras instalaram-se no entorno das plantas produtivas.

Afinal, a cana-de-açúcar é caracterizada por sua rápida degradação e, dessa forma, para a correta separação de seus derivados (açúcar, etanol e agrocombustíveis), é preciso que a colheita ocorra próxima às usinas (Faccin; Merêncio, 2019). O movimento de incentivos fiscais se perpetuou nos anos 2000, sobretudo a nível federal, por parte do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que criou, em 2008, o Programa de Apoio ao Setor Sucroalcooleiro (PASS) (Sant’Anna et al., 2016).

É importante frisar que, nesse contexto, a região de Dourados (MS) foi uma das principais localidades que marcaram o avanço da fronteira agrícola sobre o centro-oeste brasileiro (Dubos-Raoul, 2023). A concentração produtiva nos municípios de Dourados (MS), Maracaju (MS) e Sidrolândia (MS), que compõem a microrregião de Dourados, implica em constantes conflitos fundiários.

Esses conflitos atingem sobretudo trabalhadores dos canaviais, devido à precarização do regime trabalhista adotado no setor, e povos indígenas (Faccin; Merêncio, 2019), com registros de lavouras industriais de cana sobrepostas a Terras Indígenas (TIs) cuja demarcação não foi concluída, geralmente por manobras judiciais favoráveis a interesses hegemônicos (Dubos-Raoul, 2023).

 

Mapa da relação entre lavouras de cana-de-açúcar, TIs homologadas, TIs em vias de demarcação e municípios. Elaboração: Marine Dubos-Raoul. Fonte: Dubos-Raoul, 2023. Disponível em: https://shre.ink/7gaP. Acesso em: 10 jun. 2026.

 

Em relação ao conflito envolvendo a expropriação de TIs pela indústria canavieira, destacamos a luta dos povos Guarani-Kaiowá contra o genocídio promovido por atores do agronegócio em Dourados (MS), registrada neste Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil. A íntegra do conflito pode ser acessada aqui (Fiocruz, 2025).

A instalação de usinas também leva à vulnerabilização de outras populações locais e descaracterização de seus modos de vida, pois casos de arrendamento de terras são constantemente utilizados por setores do agronegócio, em geral. Na microrregião de Dourados (MS), destaca-se a prática por parte das empresas Raízen, em Caarapó (MS), e Bunge, em Ponta Porã (MS) (Faccin; Merêncio, 2019).

Além disso, o aumento de lavouras provoca crescimento populacional acelerado, levando a uma demanda por empregos nos canaviais que não acompanha este ritmo, resultando na precarização das relações de trabalho. Entre 2000 e 2014, por exemplo, a população de Rio Brilhante (MS) foi de 20 mil para 34 mil habitantes, indicando um crescimento de 70% (Britts; Silva; Abrita, 2016). Segundo a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025 a população do município seria de 40.419 pessoas, 18,8% a mais do que em 2014 (IBGE, 2026).

Sendo assim, conforme anunciado por autores como Fonseca (2009), é preciso enfatizar as contradições do discurso favorável à produção de agrocombustíveis – em especial a constante expansão das lavouras de cana-de-açúcar para a produção de etanol –, que traz consigo grande potencial de degradação da sociobiodiversidade. Além disso, estudos indicam a ocorrência de doenças respiratórias relacionadas à queima da palha da cana-de-açúcar no Brasil, prática comum para ‘limpar’ a cana, retirando folhas secas (Britts; Silva; Abrita, 2016).

A contaminação ocorre devido à liberação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), material particulado, monóxido e dióxido de carbono, que podem causar sintomas agudos ou crônicos nos indivíduos expostos (Diniz et al., 2025). Entre os efeitos observados em cinco diferentes estudos, sistematizados por Diniz et al. (2025), estão sintomas asmáticos, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), infecções do trato respiratório, pneumonia e rinites.

Além disso, a literatura utilizada pelos autores posiciona crianças, idosos e pessoas asmáticas no grupo de risco, e relaciona os efeitos da exposição à fumaça ao aumento da demanda por atendimentos de urgência na rede de saúde (Ribeiro, 2008; Diniz et al., 2025).

Nesse sentido, em 17 de junho 2008, a prefeitura de Rio Brilhante (MS), então gerida por Donato Lopes (PSDB), sancionou a Lei N° 1.532, determinando: (1) a diminuição gradativa da prática da queima no município; (2) a proibição da utilização de fogo a menos de 50 metros de distância ao redor de “estações ecológicas, reservas biológicas, reservas legais, áreas de preservação permanente, parques e demais unidades de conservação (UCs)”; (3) a permissão de queimadas apenas no período noturno. Sobre a última determinação, vale reforçar que a queima da palha de cana é prejudicial em qualquer período do dia (Britts; Silva; Abrita, 2016).

Em 17 de setembro de 2009 foi assinado o Decreto Federal nº 6.961, que aprovava o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar (ZAE Cana). A principal medida contida no ZAE Cana foi a exclusão da Amazônia, da Bacia do Rio Paraguai e do Pantanal da listagem de áreas indicadas para plantio de cana. Além disso, foram excluídas áreas com cobertura vegetal nativa, Áreas de Proteção Ambiental (APAs), TIs e outras formações geomorfológicas (Brasil, 2009).

No cultivo canavieiro, os agrotóxicos utilizados são outro fator de risco para a sociobiodiversidade das localidades impactadas. Estes químicos provocam a degradação e contaminação tanto do solo quanto de recursos hídricos, além da emissão de gases como dióxido de carbono, monóxido de carbono e ozônio (Scheuer; Neves; Neves, 2017). Em 2009, 8,2% das compras de agrotóxicos no Brasil foi destinada a culturas de cana-de-açúcar, enquanto o Mato Grosso do Sul foi comprador de 5,2% dos agrotóxicos utilizados no País (Bombardi, 2012).

Estudo publicado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em 2010 analisou a contaminação por agrotóxicos na Bacia do Alto Paraguai (BAP), que engloba a porção mato-grossense do Pantanal. Segundo as autoras, os principais impactos observados na BAP estão ligados às monoculturas de algodão, cana-de-açúcar, milho e soja (Calheiros; Ferracini; Queiroz, 2010).

Como resultados, a pesquisa revelou que a concentração de substâncias observada nas amostras foi indetectável pelo equipamento utilizado, com exceção da atrazina, agrotóxico usado principalmente nas lavouras de cana-de-açúcar e milho (Calheiros; Ferracini; Queiroz, 2010). Em outro trabalho, realizado por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Veiga de Almeida (UVA), dados indicam que a atrazina pode causar danos ligados aos sistemas endócrino, neurológico e reprodutivo; a atividade endócrina, nesse caso, indica probabilidade carcinogênica (Carmo et al., 2013).

Sobre o resultado ‘negativo’ para outros agentes, as autoras sinalizam que, idealmente, estudos de contaminação hídrica devem ser feitos junto a amostras sedimentares, devido à alta solubilidade e dinâmica dos corpos d’água (Calheiros; Ferracini; Queiroz, 2010). Posteriormente, em 2025, a atrazina foi considerada cancerígena pela International Agency for Research on Cancer (IARC) (Jornal da Unicamp, 2025).

Em abril de 2011, foi lançada a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, composta por movimentos sociais, organizações sindicais e estudantis, entidades científicas, conselhos profissionais e organizações não-governamentais (ONGs). A Campanha busca ampliar a discussão sobre os perigos do uso indiscriminado de agrotóxicos e o modelo monocultor empregado por agentes do agronegócio.

Mesmo com o avanço das denúncias contra o agronegócio, levantamentos da Companhia Nacional de Alimentos (Conab) referentes às safras de 2010/11 e 2011/12 registraram aumento de 21,4% na área de lavouras de cana-de-açúcar em Mato Grosso do Sul, passando de 396 mil para 480 mil hectares (Conab, 2011). A produção no estado, por sua vez, passou de 33,4 milhões para 41,5 milhões de toneladas, indicando aumento de 24% (Conab, 2011).

Nesse mesmo ano, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) registrou 5.519 casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil. Dos 825 registros contabilizados no Centro-Oeste, 116 ocorreram em Mato Grosso do Sul (2,1% do total nacional).

O Sinitox é organizado pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e foi criado em 1980 com a finalidade de compilar dados de intoxicação de diversas ordens. A última atualização disponível sobre intoxicação por agrotóxicos no Sinitox é de 2015, quando 56 casos em Mato Grosso do Sul representaram 1,68% do total nacional, de 3.337 casos (Fiocruz, 2026).

Em canaviais, a exposição de trabalhadores a agrotóxicos costuma se dar via inalação, ingestão ou absorção dérmica. A inalação – e alguns casos de absorção dérmica – se relaciona com a falta de uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), enquanto a ingestão e boa parte dos casos de absorção dérmica estão ligadas, muitas vezes, à contaminação da água (Domingues et al., 2024). Os agrotóxicos mais utilizados nas lavouras de cana, segundo depoimentos de trabalhadores em Pernambuco, são os herbicidas glifosato e 2,4-D, além do cupinicida fipronil (Domingues et. al, 2024)

Entre intoxicações agudas, crônicas e que levam à morte, há relatos de náuseas, desmaios, dor de cabeça, infecções gastrointestinais (dor no estômago e/ou diarreia), problemas hepáticos e câncer (Domingues et al., 2024). Ainda, estudos como o de Domingues et al. (2024) também destacam o fato de a ingestão de agrotóxicos ser considerada como via de tentativa ou efetivação de suicídios em localidades onde a exposição a esses produtos, não raramente chamados de “veneno”, faz parte da realidade diária.

Em março de 2013, em meio à Jornada de Luta das Mulheres da Via Campesina, camponesas e membras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) promoveram o bloqueio da rodovia federal BR-264 na altura de Nova Alvorada do Sul (MS). O ato ocorreu em tom de denúncia contra a concentração de terras em favor do monocultivo de cana-de-açúcar, além da contaminação do aquífero Guarani por agrotóxicos utilizados em usinas de processamento (Articulação Nacional de Agroecologia, 2013).

A Jornada teve como lema “Mulheres Sem Terra na luta contra o capital e pela soberania dos povos” e promoveu ações em 15 estados, para além do Mato Grosso do Sul (Articulação Nacional de Agroecologia, 2013).

 

Cartaz da Jornada de Luta das Mulheres da Via Campesina 2013. Fonte: Via Campesina. Disponível em: https://shre.ink/7glT. Acesso em: 10 jun. 2026.

 

Em 05 de novembro de 2019, a Presidência da República, então ocupada por Jair Messias Bolsonaro (PL), revogou o decreto que instituiu, em 2009, o ZAE Cana. A ação se deu por meio da assinatura do Decreto Federal nº 10.084.

Em 2020, com o avanço da agenda climática, o setor sucroenergético passou por uma nova rodada de expansão, pois a cana-de-açúcar é considerada uma fonte renovável de energia, vista como o novo “petróleo verde” (Semadesc, 2025; UOL 2025). Entretanto, a tal forma de abordar a temática da “energia limpa” escapa a uma reflexão integral sobre as cadeias produtivas.

No caso do etanol, por exemplo, há de se considerar a remoção de vegetação nativa para o plantio da cana; o uso contínuo de agrotóxicos; a queima da palha para “limpar” a cana; a concentração fundiária e, claro, as condições precárias de trabalho nos canaviais, que tornam o modelo produtivo social e ambientalmente insustentável (Fonseca, 2009).

Mesmo assim, em Mato Grosso do Sul, órgãos como a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado (Semadesc-MS) insistem no discurso da descarbonização por meio dos agrocombustíveis derivados do etanol como solução para as questões ambientais, climáticas e sociais. No estado, há o lançamento concomitante de programas ligados à sustentabilidade e/ou incentivos ao setor sucroalcooleiro, em uma tentativa de fortalecer o discurso de que as duas pautas caminham juntas (Silva, 2026).

Em dezembro de 2021, por meio da Lei Estadual n° 5807/2021, foi instituído o Programa Estadual de Incentivo ao Desenvolvimento das Fontes Renováveis de Produção de Energia do Governo do Estado (MS Renovável), que prevê isenções fiscais para projetos de geração de energia renovável, incluindo (e priorizando) as usinas de produção de biogás, biomassa e biometano a partir da cana-de-açúcar (Semadesc, 2021; 2023).

Já em abril de 2023, a Semadesc divulgou que o setor sucroenergético do estado atingiu a quarta posição na produção nacional de cana-de-açúcar. No ano seguinte, o estado registrou uma produção recorde de 50 milhões de toneladas de cana, 17% acima da safra anterior. Tais resultados foram atribuídos pelo órgão a iniciativas do então governador Eduardo Riedel (PP), como os incentivos fiscais para novas empresas do setor e a instauração do projeto MS Renovável (Semadesc, 2023).

Em julho de 2025, no município de Nova Alvorada do Sul (MS), foi realizada a Expocanas, feira organizada pela Associação Sul-mato-grossense de Cana (Sulcanas), voltada para o encontro de produtores de diversos setores do agronegócio, apesar do foco na cana-de-açúcar (Semadesc, 2025).

No ano seguinte, em 26 de janeiro de 2026, por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), foi aprovado o novo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para os canaviais de 21 Unidades da Federação, incluindo o Mato Grosso do Sul. Após sete anos da revogação do ZAE Cana, a pesquisa para instauração da medida ficou a cargo da Embrapa (Campo Grande News, 2026; Mapa, 2026)

A principal diferença entre o ZAE e o Zarc está na liberação de cultivo em municípios localizados na Amazônia e no Pantanal. Em entrevista ao Ministério, Santiago Quadra, pesquisador da Embrapa, enfatizou que a inserção de novas localidades – que se deu sobretudo na transição entre Cerrado e Amazônia – não avançou completamente no bioma amazônico somente “em razão do excesso de chuvas” (Ministério da Agricultura e Pecuária, 2026).

Sobre o “Risco Climático” do Zarc, o Ministério da Agricultura e Pecuária considera três critérios para sua definição, segundo o portal Campo Grande News (2026):

“(1) Probabilidade de obtenção de produtividade superior a 65 toneladas por hectare, com referência de 135 kg de Açúcar Total Recuperado por tonelada de colmo; (2) Risco de ocorrência de geada forte (-2°C) inferior a 20% durante todo o ciclo; (3) Probabilidade de condições desfavoráveis de regime pluviométrico e de excesso hídrico no período de colheita.”

Entendemos, então, que o risco climático do Zarc se refere ao risco de perdas (Ministério da Agricultura e Pecuária, 2026) que o produtor pode ter, caso plante em determinadas regiões, devido a condições climáticas desfavoráveis às lavouras de cana. Afinal, apesar do setor sucroenergético se colocar entre as atividades essenciais à descarbonização, dados demonstram que, no Brasil, unindo a mudança de uso da terra e florestas e a agropecuária, temos 74% das emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) (Silva, 2026). O dado refere-se ao levantamento de 2024 do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Em um artigo que traça a ligação entre a questão agrária, as mudanças climáticas e a transição energética, o pesquisador John Wolter Oliveira da Silva adiciona esses pontos ao debate dos agrocombustíveis. Por meio de revisão de literatura e realização de pesquisas empíricas, o autor reforça a ideia do agronegócio como fruto de um projeto de poder, que prevê a homogeneização dos plantios e a supressão da sociobiodiversidade no espaço agrário brasileiro (Silva, 2026).

Dessa forma, a luta camponesa frente à expansão da cana-de-açúcar em Mato Grosso do Sul soma-se a tantas outras resistências contra a concentração de terras, a grilagem, o uso de agrotóxicos e as diferentes formas de coação, intimidação e ameaça por parte de grandes empresas latifundiárias.

 

Atualizada em: maio de 2026.

 

Cronologia

1º de junho de 1933 – É criado, por meio do Decreto nº 22.789, de 01 de junho de 1933, o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), regulamentando as atividades em canaviais.

1975 – É criado, por meio do Decreto nº 76.593, de 14 de novembro de 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), integrando a produção de cana-de-açúcar com a indústria automobilistica brasileira.

1977 – É criado oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.

05 de março de 1985 – É publicada a Resolução Conama nº1 suspendendo a concessão de novas licenças para empreendimentos do setor sucroalcoleiro no Pantanal Mato-grossense, sob responsabilidade de órgãos ambientais do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

2008 – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dá início ao Programa de Apoio ao Setor Sucroalcooleiro (PASS).

17 de junho de 2008 – Prefeito de Rio Brilhante (MS), Donato Lopes (PSDB), sanciona a Lei nº 1.532, que dispõe de diretrizes para a queima da palha de cana-de-açúcar no município.

17 de setembro de 2009 – É publicado o Decreto Federal nº 6.961, aprovando o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar (ZAE Cana) e excluindo a Amazônia, a Bacia do Alto Paraguai (BAP) e o Pantanal, áreas com cobertura vegetal nativa, Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e Terras Indígenas (TIs) das áreas indicadas para plantio de cana.

2010 – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) publica estudo sobre a contaminação por agrotóxicos na BAP.

2011 – Lançamento da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Março de 2013 – Como parte da Jornada de Luta das Mulheres da Via Campesina, mulheres camponesas e membras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) se mobilizam e fecham a rodovia federal BR-264 em protesto contra a concentração de terras e o uso intensivo de agrotóxicos pelo setor canavieiro.

05 de novembro de 2019 – Então presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (PL) revoga o decreto que instituiu, em 2009, o ZAE Cana.

Dezembro de 2021 – É sancionada pelo governador do Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), a Lei Estadual n° 5807/2021, que institui o Programa Estadual de Incentivo ao Desenvolvimento das Fontes Renováveis de Produção de Energia do Governo do Estado (MS Renovável).

2025 – Herbicida atrazina é considerado cancerígeno pela International Agency for Research on Cancer (IARC).

26 de janeiro de 2026 – Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) aprova o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para as lavouras de cana-de-açúcar, liberando o cultivo em municípios compreendidos na Amazônia e no Pantanal.

 

Fontes

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BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária – Mapa. Zoneamento de Risco Climático da cana-de-açúcar é revisado e atualizado. Brasília: Mapa, 26 jan. 2026. Disponível em: https://shre.ink/7gUE. Acesso em: 11 maio. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde – MS. Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz. Povos indígenas Guarani e Kaiowá lutam contra genocídio por parte de latifundiários, fazendeiros, usineiros e empresários do agronegócio. Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, jan. 2025. Disponível em: https://shre.ink/7gtj. Acesso em: 11 maio. 2026.

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BRASIL. Ministério do Planejamento e Orçamento – MPO Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Cidades e Estados: Rio Brilhante (MS). IBGE, 2026. Disponível em: https://shre.ink/3ScN. Acesso em: 10 jun. 2026.

BRITTS, Thiago Henrique Conde; SILVA, Walter Guedes; ABRITA, Mateus Boldrine. O crescimento canavieiro no município de Rio Brilhante-MS e os impactos ambientais causados pela queima da palha da cana-de-açúcar (2001 a 2010). Revista Cerrados (Unimontes), v. 14, n. 1, pp. 58-76, 2016. Disponível em: https://shre.ink/7gnC. Acesso em: 11 maio. 2026.

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