Instalação de terminais químicos no bairro de Paul, em Vila Velha, ES, causa conflito socioambiental cujos riscos à saúde preocupam moradores

UF: ES

Município Atingido: Vila Velha (ES)

População: Comunidades urbanas

Atividades Geradoras do Conflito: Atuação de entidades governamentais, Hidrovias, rodovias, ferrovias, complexos/terminais portuários e aeroportos

Impactos Socioambientais: Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas, Falta / irregularidade na autorização ou licenciamento ambiental

Danos à Saúde: Contaminação química, Doenças respiratórias, Piora na qualidade de vida

Síntese

O caso analisado evidencia um prolongado conflito ambiental na comunidade de Paul, em Vila Velha (ES), marcado pela instalação e tentativa de expansão de terminais de armazenamento de substâncias químicas e combustíveis em área residencial.

Desde meados dos anos 2000, com a atuação da Nascon Logística Ltda., em parceria com a então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), os moradores denunciam a ausência de participação social no processo de licenciamento ambiental, conduzido pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (Iema-ES), bem como a insuficiência de estudos de impacto e de planos de contingência.

As primeiras intervenções da Nascon já produziram impactos diretos na região, como desmatamento, detonações e danos estruturais em residências, desencadeando mobilização comunitária e judicialização do caso (Século Diário, s.d.; Século Diário, 2013).

Ao longo dos anos, o conflito se intensificou com a entrada de novos atores, como a LiquiPort (do Grupo Odebrecht, na época) e o Terminal Portuário do Espírito Santo S.A. (TPES), além do envolvimento institucional do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) e da Câmara Municipal de Vila Velha, com apoio de parlamentares e lideranças locais.

Audiências públicas, protestos, abaixo-assinados e ações civis públicas demonstram a articulação social contrária à instalação dos tanques, frequentemente baseada na crítica à priorização de interesses econômicos em detrimento da segurança da população (Cardoso, 2013; Lacerda, 2013; Século Diário, 2013; Ribeiro, 2014; Araújo, 2015).

Os riscos à saúde e ao meio ambiente constituem o eixo central desse embate, sendo associados à proximidade entre estruturas de armazenamento de substâncias perigosas (como combustíveis, fertilizantes e soda cáustica) e áreas densamente habitadas, incluindo escolas, igrejas e espaços de convivência. Moradores relatam temores relacionados a vazamentos, emissões gasosas, incêndios e explosões, reforçados por ocorrências locais, como odores intensos registrados em 2026 na região do Morro do Atalaia (ES360 Portal, 2026).

Apesar de medidas institucionais, como notificações, embargos e exigências de estudos complementares, o processo permanece marcado por controvérsias, lacunas regulatórias e insegurança quanto à efetiva proteção socioambiental, mantendo o clima de apreensão entre os moradores ao longo das décadas (Dias, 2019; Perozini, 2019; Abdo, 2023).

 

Contexto Ampliado

O presente caso traz à tona o histórico de embates envolvendo o risco de contaminação química em um bairro residencial no Espírito Santo e as lutas da população local para evitá-lo. Nesse contexto, observa-se que essa problemática não se limita à Baía de Vila Velha, evidenciando que os terminais industriais também representam uma ameaça significativa ao meio ambiente em outras regiões.

Em Salvador, na Baía de Todos os Santos; e no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, por exemplo, terminais das indústrias químicas e petroquímicas também representam riscos ao meio ambiente local e à saúde da população do entorno. Não são raros os acidentes ambientais, vazamentos e contaminações decorrentes dessas atividades. Por todo o País, diversas comunidades têm se mobilizado contra a continuidade dessa situação e contra a irresponsabilidade das grandes indústrias do setor.

A Baía de Todos os Santos enfrentou contaminação crônica por hidrocarbonetos e metais pesados oriundos das indústrias petroquímicas do Polo de Camaçari e Candeias, impactando pescadores, marisqueiras e a cadeia alimentar com peixes e caranguejos contaminados. A Baía de Guanabara registrou poluição persistente de óleo, como o vazamento de 1,3 milhão de litros pela Petróleo Brasileiro S.A (Petrobras) em 2000, que devastou 40 km² de mangues e ainda deixa resíduos visíveis no fundo marinho (Ortiz, 2014; Pacheco, 2018).

O conflito entre a Nascon Logística Ltda. (ou Nascon Participações Ltda.) e a comunidade de Paul, em Vila Velha (ES), começou por volta de meados dos anos 2000 com o projeto de instalação de um terminal de recebimento e estocagem de soda cáustica na Baía de Vila Velha, próximo aos morros Atalaia e Pela Macacos. A Nascon, em parceria com a então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), planejou construir cinco tanques com mais de 30m de diâmetro e 12m de altura, com capacidade para armazenar até 360 mil litros do produto químico altamente corrosivo.

Esse planejamento foi feito sem realizar audiências públicas ou consultas prévias com os moradores locais, violando princípios de participação social no licenciamento ambiental. As obras começaram com desmatamento nos morros e detonações que causaram rachaduras em residências, gerando os primeiros protestos da comunidade por falta de transparência e riscos à segurança coletiva.

Apesar das objeções, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema-ES) concedeu licença de instalação; e, em abril de 2008, licença de operação à Nascon, sem planos de contingência adequados contra vazamentos ou acidentes. A Associação de Moradores de Paul ajuizou ação civil pública (ACP) para embargar a obra, mas em novembro de 2007 a juíza da 5ª Vara Cível Federal negou liminar. O mérito permaneceu pendente, evidenciando o descaso com o direito comunitário à consulta prévia, livre e informada (Século Diário, s.d.).

A comunidade de Paul, localizada no município de Vila Velha, no Espírito Santo, é um dos bairros mais antigos e tradicionais da região, com forte vínculo histórico ao desenvolvimento ferroviário e portuário. Seu nome, de origem tupi-guarani, remete a áreas pantanosas, característica original do território antes dos processos de aterramento.

Situado próximo a bairros como Argolas, Ilha das Flores, Sagrada Família e Vila Batista, Paul foi fundamental na urbanização local, especialmente a partir da instalação da estação da Leopoldina (anteriormente conhecida como Estação Vitória do ramal do Litoral da antiga Estrada de Ferro Leopoldina), que no século XIX conectava o Sul capixaba ao Rio de Janeiro (RJ).

Do ponto de vista econômico, destaca-se pela presença do porto de Paul, importante gerador de empregos e renda, além de um comércio que, embora atualmente mais voltado às demandas locais, já foi bastante dinâmico nas décadas de 1940 e 1950 (Gazeta Meio-Dia, s.d.; Borgo, 2020).

A comunidade de perfil majoritariamente trabalhador é historicamente formada por ferroviários e, posteriormente, por trabalhadores portuários. Socialmente, caracteriza-se por um forte sentimento de pertencimento e identidade comunitária, com famílias tradicionais e iniciativas culturais, como projetos sociais voltados à música e à capoeira.

No que diz respeito à infraestrutura, o bairro apresenta construções antigas e marcos como o viaduto de Paul, além de propostas de revitalização de patrimônios históricos, como a estação Leopoldina, ainda enfrentando entraves burocráticos. Apesar das transformações na paisagem, como a substituição da antiga vista da baía por estruturas portuárias, os moradores mantêm vivas a memória e a identidade cultural do lugar (Gazeta Meio-Dia, s.d.; Borgo, 2020).

Em 2012, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) notificou a empresa LiquiPort (na época, do Grupo Odebrecht) para a retirada dos tanques, e determinou o embargo da obra, destacando a necessidade de solução para o impasse entre o MPES e a empresa, bem como a importância do planejamento e da responsabilidade social no processo de licenciamento ambiental (Araújo, 2015).

Em 9 de setembro de 2013, foi realizada uma audiência pública na comunidade de Paul para debater a implantação de tanques de armazenamento de combustíveis e soda cáustica pela empresa na região, pois o projeto gerava apreensão na população local (Século Diário, 2013).

Em reportagem do jornal on-line Século Diário, de 23 de agosto de 2013, moradores denunciaram que a Liquiport havia iniciado as obras para a instalação dos tanques, mesmo com manifestação contrária das comunidades de Argolas, Morro do Atalaia, Paul e outras vizinhas. Na área, já havia outros tanques de armazenamento de soda cáustica, construídos pela Nascon Logística Ltda. por volta de 2008, alguns localizados a menos de 15 metros das residências (Século Diário, 2013; Século Diário, s.d.).

De acordo com o depoimento do líder comunitário Paulo César Froes na tribuna da Câmara de Vereadores de Vila Velha, o temor dos moradores estava relacionado ao risco de uma tragédia de grandes proporções no local, a exemplo das explosões registradas em Duque de Caxias (RJ) e em Cubatão, no litoral sul de São Paulo (Século Diário, 2013).

Segundo Froes, os depósitos da LiquiPort, em Paul, ainda não estavam em funcionamento naquele momento, mas cinco tanques de combustíveis, de um total previsto de 30, já estavam sendo instalados (Século Diário, 2013).

Diante desse cenário, a comunidade havia encaminhado uma solicitação ao Ministério Público Estadual (MPES) requerendo a paralisação das obras. Os moradores também exigiam que a empresa buscasse um local mais adequado para a instalação dos reservatórios (Século Diário, 2013).

O vereador Anadelso Pereira (PTN) convocou audiência para debater o problema, e a maioria dos vereadores, segundo fontes ligadas à Câmara naquela legislatura (2013-2016), posicionava-se contrária à instalação de tanques de estocagem na região (Século Diário, 2013).

Durante as discussões, alguns parlamentares ressaltaram que o município, um dos mais populosos e importantes do estado, não poderia admitir que grandes empresas, como a LiquiPort, operassem com produtos tóxicos, poluentes e inflamáveis em áreas residenciais (Século Diário, 2013). Além do apoio da Câmara de Vereadores, os moradores cobravam maior empenho do prefeito Rodney Miranda (DEM) diante da situação (Século Diário, 2013).

Em 16 de setembro de 2013, durante sessão ordinária na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), os deputados estaduais Euclério Sampaio (PDT), José Esmeraldo (PMDB) e Roberto Carlos (PT) utilizaram a tribuna para denunciar a situação que afetava os moradores da comunidade (Cardoso, 2013).

Na referida sessão, o deputado Euclério Sampaio (PDT) classificou a instalação dos tanques como absurda, questionando a concessão das licenças e destacando que o interesse econômico não podia se sobrepor à segurança da população, especialmente diante da proximidade com residências e até de uma creche. José Esmeraldo (PMDB) também criticou a situação, considerando inaceitável a implantação de uma estrutura de alto risco em uma área habitada (Cardoso, 2013).

Roberto Carlos (PT), nascido e criado na comunidade, já havia denunciado o caso anteriormente e relatou participação na audiência pública sobre o tema, alertando para o risco de uma tragédia. Ele também apresentou trechos de uma ação popular que apontava falhas no processo de licenciamento, baseado em premissas equivocadas quanto às características do empreendimento e ao local.

A ação popular também denunciou que os estudos essenciais não foram realizados, como o de impacto ambiental e de vizinhança, o que comprometeria a validade do licenciamento. A atividade, de acordo com a ação, foi considerada altamente poluidora e de grande potencial degradador (Cardoso, 2013).

Outra audiência pública, realizada em 02 de outubro 2013, discutiu a instalação dos tanques de armazenamento. Promovida pelas comissões de Meio Ambiente (CMA) e de Infraestrutura (CIE) da Assembleia Legislativa (Ales), foi realizada no Salão de Festas do Paulinho, na Avenida Jerônimo Monteiro (Lacerda, 2013).

Moradores da comunidade manifestaram mais uma vez preocupação com o projeto apresentado pela empresa, apontando riscos elevados, especialmente relacionados à possibilidade de incêndios, fato que gerava insegurança na população. Como parte das ações de acompanhamento, o deputado estadual Roberto Carlos (PT), representando a Frente Parlamentar Ambientalista do Espírito Santo (FPA-ES), visitou a comunidade em 19 de setembro para dialogar com os moradores sobre os impactos e riscos do empreendimento (Lacerda, 2013).

O tema também repercutiu no plenário da Ales, onde, além de Roberto Carlos, os deputados Euclério Sampaio (PDT) e José Esmeraldo (PMDB) criticaram a instalação de estruturas desse tipo na área residencial (Lacerda, 2013).

Diante dessas manifestações e do debate político em torno dos riscos do empreendimento, o tema ganhou continuidade nas discussões institucionais, sendo novamente abordado em reunião da Comissão de Meio Ambiente da Ales em 15 de abril de 2014. O destaque, então, foi o relatório produzido pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema-ES) sobre o incêndio que atingiu o Parque Estadual Paulo Cesar Vinha, em Setiba, Guarapari, em março de 2014, mas também foi debatido o caso dos tanques na comunidade de Paul (Lacerda, 2014).

Nesse contexto, foi discutido o plano de desmontagem das estruturas instaladas na região, ocasião em que, além do diretor-presidente do Iema-ES, os deputados presentes ouviram o representante da Associação de Moradores do bairro Paulo Cesar Froes, bem como representantes da empresa LiquiPort, responsável pelos tanques de combustível e soda cáustica na localidade (Lacerda, 2014).

Na ocasião, foi informado que a desmontagem estava prevista para começar em até 90 dias. O diretor-presidente do Iema-ES explicou que a empresa deveria apresentar um cronograma executivo detalhando as etapas do processo, incluindo o local de armazenamento das partes desmontadas dentro do próprio empreendimento, além das medidas de controle ambiental a serem adotadas durante e após a desmontagem (Lacerda, 2014).

O deputado Gildevan Fernandes (PV) destacou a importância de tratar o tema com responsabilidade e relembrou a mobilização da comunidade de Paul, que contribuiu para dar visibilidade à questão e garantir a atenção do poder público e da empresa. Ele ressaltou que houve abertura ao diálogo entre as partes envolvidas e manifestou confiança nas ações do Iema-ES, colocando a comissão à disposição para continuar acompanhando o caso (Lacerda, 2014).

Em fevereiro de 2014, o Iema-ES notificou a empresa para promover a desmobilização dos tanques. No entanto, embora o prazo para a desmontagem tivesse terminado em julho do mesmo ano, o processo não foi totalmente concluído no período. Assim, permaneceram no local cinco estruturas, que passaram a ser destinadas, conforme o novo projeto apresentado, ao armazenamento de água, soda cáustica e ureia (Século Diário, 2016).

A polêmica em torno dos tanques instalados no alto do Morro do Atalaia voltou à pauta quando o Terminal Portuário do Espírito Santo S.A. (TPES), proprietário do complexo, apresentou ao Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema-ES) um novo projeto para utilização da área. A proposta foi discutida em reunião, em dezembro de 2016, entre representantes da empresa e da comunidade, mediada pelo Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MP-ES) (Século Diário, 2016).

Durante o encontro, moradores apresentaram documentos e estudos técnicos apontando possíveis impactos das novas substâncias, destacando que dois tanques de soda cáustica liberavam gases que afetavam a população. Também foram relatadas queixas sobre a desvalorização imobiliária provocada pelo empreendimento.

Na ocasião, a TPES informou que o Iema-ES havia orientado a abertura de um novo processo de licenciamento para o projeto. O MPES, por sua vez, propôs que esse processo fosse acompanhado da realização de um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), abrangendo a área do empreendimento e todo o entorno, a fim de identificar danos potenciais e reais (Século Diário, 2016).

A proposta do EIV buscava trazer maior ordenamento e ampliar o debate sobre um processo que, até então, havia ocorrido de forma acelerada e sem a devida participação da comunidade desde a sua implantação, conforme relatado. Nesse contexto, o então presidente do Movimento Comunitário de Paul (MCP), Geremias Wyatt, afirmou que a prioridade passou a ser a escuta dos moradores, que continuavam a demonstrar receio diante da situação. Wyatt indicou a intenção de organizar uma assembleia para aprofundar a discussão junto à comunidade (Século Diário, 2016).

Ainda assim, o clima de apreensão entre os moradores se manteve nos anos seguintes. Após sete anos convivendo com o temor de acidentes relacionados à proposta de instalação de novos tanques de armazenamento de combustíveis, moradores e fiéis da igreja católica da região da Grande Paul mobilizaram-se para impedir a aprovação de um novo projeto apresentado em reunião de janeiro de 2014 com o Ministério Público e a empresa LiquiPort.

A proposta previa a transferência de dez tanques do Morro do Atalaia para uma área situada a apenas dois metros da Paróquia Nossa Senhora Terezinha do Menino Jesus, o que, na percepção da comunidade, ampliaria os riscos ambientais e contribuiria para a desvalorização imobiliária local (Ribeiro, 2014).

Segundo lideranças comunitárias, a área afetada não se limitava ao espaço religioso, alcançando também equipamentos essenciais, como escola, creche e áreas de lazer frequentadas diariamente por crianças e moradores. A mobilização foi interpretada pela mídia local como um reflexo da indignação de uma população de aproximadamente 73 mil pessoas, distribuídas entre os bairros de Atalaia, Ferrinho, Ilha das Flores, Paul, Pedra dos Búzios, Sagrada Família, São Torquato e Vila Garrido (Ribeiro, 2014).

Ao todo, 14 paróquias iniciaram a coleta de assinaturas durante as celebrações, a partir do domingo subsequente, com o objetivo de impedir a aprovação do novo projeto. A mobilização buscou ampliar o alcance do abaixo-assinado para além da comunidade católica, envolvendo também fiéis de outras religiões (Ribeiro, 2014).

A última reunião com os moradores havia ocorrido em 22 de janeiro de 2014, quando ficou acordado que a empresa teria o prazo de 15 dias para reavaliar a proposta apresentada. Diante desse cenário, a comunidade intensificou os esforços para reunir o maior número possível de assinaturas dentro do período estabelecido (Ribeiro, 2014).

Desde setembro de 2013, a empresa LiquiPort encontrava-se com a licença ambiental suspensa para a instalação dos tanques no local, conforme informado pelo então diretor técnico do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema-ES), Elias Morgan. Durante a análise técnica conduzida pelo órgão, o projeto não havia conseguido esclarecer plenamente aspectos considerados essenciais, especialmente no que se referia aos riscos associados ao armazenamento de combustíveis em área urbana (Ribeiro, 2014).

No âmbito do MPES, a Promotoria de Justiça de Meio Ambiente de Vila Velha decidiu pela realização de audiência pública com o objetivo de ouvir os moradores e ampliar o debate sobre o empreendimento. Paralelamente, técnicos do Ministério Público Estadual reuniam informações adicionais para subsidiar a definição de possíveis alternativas (Ribeiro, 2014).

Em nota, na época, a empresa informou que buscava uma solução que contemplasse os interesses envolvidos, afirmando atuar sob a coordenação do MPES em diálogo com lideranças comunitárias, a Prefeitura de Vila Velha e o Iema-ES, além de ressaltar que seus projetos atendiam às exigências da legislação ambiental vigente (Ribeiro, 2014).

 

Vereadores alertaram para acidentes em tanques Foto: Everton Nunes (Araújo, 2015). Disponível em: https://shre.ink/LeRy. Acesso em: 30 mar. 2026.

 

Em 6 de abril de 2014, a Câmara Municipal de Vila Velha voltou a discutir a presença dos tanques de combustíveis da Liquiport na comunidade de Paul, com manifestações contrárias dos vereadores à permanência das estruturas instaladas no Morro do Atalaia. Durante o debate, foi lembrado o incêndio de tanques no bairro da Alemoa, em Santos (SP), em 07 de abril de 2015, reforçando o alerta sobre o perigo da proximidade das instalações com áreas urbanas (Araújo, 2015).

O vereador Wedson Boneli, à época filiado ao PTN (Partido Trabalhista Nacional), morador da região, avaliou que a localização dos tanques representava risco iminente, destacando que o licenciamento não teria considerado adequadamente o perímetro urbano. Ele também recordou que o MPES havia notificado a empresa a LiquiPort para retirar os tanques e embargado a obra.

Posteriormente, em julho de 2014, a LiquiPort informou ter negociado sua participação no projeto com o Terminal Portuário do Espírito Santo S.A. (TPES), que assumiu a área. A empresa declarou ainda que permaneceram na cidade, onde operava desde 2012, dois tanques destinados ao armazenamento de soda cáustica (Araújo, 2015).

Cinco anos depois, em 2019, mesmo após quase duas décadas de mobilizações, moradores protestaram novamente contra o uso de reservatórios na região. Eles argumentaram que qualquer vazamento poderia passar despercebido e intoxicar a população (Perozini, 2019).

Segundo Paulo César , membro do conselho comunitário, em notícia no periódico on-line ES Hoje (2019), as discussões sobre a implantação do empreendimento remontavam a 2011, quando a empresa TPES já havia manifestado interesse em utilizar os reservatórios para armazenamento de gasolina, sendo à época impedida pela mobilização popular. Os moradores apontavam como principal problema a classificação da área como bairro industrial nos documentos oficiais e no Plano Diretor Municipal (PDM), desconsiderando a existência de mais de 500 residentes (Perozini, 2019).

Antônio Wanzeler relatou que a comunidade realizou diversas tentativas de alteração do PDM junto à prefeitura, sem sucesso. Em reunião em junho de 2019, representantes do MPES e do Iema-ES afirmaram que as substâncias a serem armazenadas não ofereceriam riscos à saúde, posicionamento contestado pelos moradores.

Além disso, foram apontadas inconsistências quanto às características do terreno, pois, embora os documentos o descrevessem como plano e situado próximo ao morro do Atalaia, o reservatório estaria, na realidade, localizado sobre o morro, cuja inclinação contrariava o disposto na Lei Federal nº 6.766/1979, que restringe o parcelamento do solo em áreas com tais condições (Perozini, 2019).

As irregularidades documentais, somadas aos riscos associados às substâncias previstas para armazenamento, geravam preocupação entre os moradores, especialmente devido à proximidade de equipamentos sociais como escolas, creches, praças e igrejas, ampliando o potencial de impactos em caso de acidentes, estabelecendo riscos apontados desde os primeiros questionamentos (Perozini, 2019).

Em resposta, a Prefeitura Municipal de Vila Velha informou que o empreendimento possuía licenciamento ambiental conduzido pelo governo do estado, por meio do Iema-ES, com Licença Prévia (LP) nº 114/2018 e Licença de Instalação (LI) nº 106/2018, ambas válidas até novembro de 2022, indicando que eventuais questionamentos deveriam ser direcionados ao órgão ambiental. O Iema-ES, por sua vez, afirmou que a Licença de Instalação permanecia válida e autorizava a continuidade das obras, ressaltando que a competência sobre o uso e a ocupação do solo cabia ao município, responsável pela anuência prévia exigida no processo de licenciamento (Perozini, 2019).

O órgão ambiental também destacou a existência de acordo judicial firmado com o Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que estabelecia etapas e prazos para o licenciamento, além de medidas como a proibição da operação dos tanques até o cumprimento das exigências. Quanto aos riscos de vazamento, informou-se que seriam exigidas estruturas de controle ambiental, como bacias de contenção, entre outras condicionantes necessárias à futura obtenção da Licença de Operação (LO) (Perozini, 2019).

Além das preocupações já existentes na região, a instalação de novos tanques no bairro, em 2019, intensificou ainda mais o receio da população. Nesse contexto, uma área de aproximadamente 74 mil metros quadrados da poligonal portuária foi arrendada para a implantação de um Terminal de Granéis Líquidos (TGL), destinado ao armazenamento de combustíveis como álcool, biodiesel, diesel e gasolina.

O leilão da área ocorreu em março daquele ano, com arremate no valor da época de R$ 165 milhõesconcessão prevista por 25 anos, e início das operações estimado para o ano de 2020. A Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), responsável pela gestão do Porto de Vitória, informou que caberia ao consórcio vencedor, em articulação com o Ministério da Infraestrutura (MInfra), adotar as medidas necessárias para o início das operações.

O projeto também foi incluído como prioridade no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), com expectativa alegada de investimento de cerca de R$ 120 milhões, capacidade de armazenagem de 60 mil m³ e potencial de ampliar a movimentação de cargas em aproximadamente 700 mil toneladas por ano (Dias, 2019). O vencedor do leilão do TGL foi o Consórcio Navegantes Logística, formado pelas empresas BR Distribuidora (atual Vibra Energia), Ipiranga e Raízen (Sopesp, 2019).

Em março de 2019, dias antes do leilão, moradores mais uma vez realizaram protestos contra a instalação desses empreendimentos, expressando preocupação com os riscos associados ao armazenamento de combustíveis na região (Dias, 2019).

Mesmo após anos de protestos em relação aos tanques de armazenamento de produtos químicos da LiquiPort, em 2023, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) fechou a maior operação de crédito da história do banco estadual de fomento, no valor de R$ 70 milhões, para que a companhia ampliasse sua capacidade de operação de cargas (Abdo, 2023).

Conforme notícia de A Gazeta, o investimento permitiria a ampliação em 70% da capacidade de armazenamento da LiquiPort. Com esse aporte seriam instalados oito silos verticais, cada um com 3.850 toneladas de capacidade, ou seja, 30.800 toneladas a mais de capacidade. Na época, em 2023, havia seis silos com capacidade para 18 mil toneladas em Paul. Dessa vez, o financiamento tinha o objetivo de atender a um contrato com a Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), com vigência até 2031, para armazenamento de malte a granel (Abdo, 2023).

Conforme noticiado, o vice-governador e secretário de Estado de Desenvolvimento, Ricardo Ferraço, avaliava como positiva a concessão feita à iniciativa privada para atuação portuária local, sem ponderar a atuação da LiquiPort por anos na região ou a resistência dos moradores locais. Considerou-se apenas ser uma vantagem para o estado a nova formatação competitiva com os novos contratos (Abdo, 2023).

Em janeiro de 2026, os moradores do bairro foram surpreendidos por forte odor oriundo da região do Morro de Atalaia. Conforme relatos em redes sociais (Instagram), o cheiro tomou conta da região por cerca de 15 dias, provocando preocupação e desconforto, sobretudo à noite e em períodos marcados por ventos mais fortes (ES360 Portal, 2026).

A Vports alegou tratar-se de uma operação específica de fertilizante, realizada no Cais de Capuaba, que atendia a todos os requisitos ambientais, exigências dos órgãos fiscalizadores e de segurança aplicáveis à referida carga (ES360 Portal, 2026).

 

Última atualização em: maio de 2026.

 

Cronologia

Abril de 2008 – Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (Iema-ES) concede licença de instalação (LI) e licença de operação (LO) à Nascon para construção de tanques de armazenamento de soda cáustica.

09 de setembro de 2013 – Audiência pública convocada pelo vereador Anadelso Pereira (Partido Trabalhista Nacional – PTN, no período) na comunidade de Paul, Vila Velha, debate implantação de tanques de armazenamento de combustíveis e soda cáustica pela empresa LiquiPort na região.

16 de setembro de 2013 – Sessão ordinária na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) é utilizada pelos deputados estaduais Euclério Sampaio (PDT), José Esmeraldo (PMDB) e Roberto Carlos (PT) para denunciar a situação dos moradores da comunidade de Paul.

19 de setembro de 2013 – Deputado estadual Roberto Carlos (PT), representando a Frente Parlamentar Ambientalista, visita a comunidade para dialogar com os moradores sobre os impactos e riscos do empreendimento.

02 de outubro 2013 – Audiência pública promovida pelas comissões de Meio Ambiente (CMA) e de Infraestrutura (CIE) da Assembleia Legislativa (Ales) discute instalação dos tanques de armazenamento.

Fevereiro de 2014 – Iema-ES notifica a LiquiPort para promover a desmobilização dos tanques.

6 de abril de 2014 – Câmara Municipal de Vila Velha volta a discutir a presença dos tanques de combustíveis da LiquiPort na comunidade de Paul, com manifestações contrárias de parte dos vereadores à permanência das estruturas instaladas no Morro do Atalaia.

15 de abril de 2014 – Reunião da Comissão de Meio Ambiente da Ales discute o caso dos tanques na comunidade de Paul.

2014 – Moradores e fiéis da igreja católica local da região da Grande Paul mobilizam-se para impedir a aprovação de novo projeto apresentado em reunião com o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) e a empresa LiquiPort para construção de novos tanques de armazenamento de combustíveis.

2014 – 14 paróquias da região da Grande Paul iniciam coleta de assinaturas para abaixo-assinado com o objetivo de impedir a aprovação do novo projeto de construção de tanques.

Julho de 2014 – LiquiPort informa ter negociado sua participação no projeto com o consórcio responsável pelo Terminal Portuário do Espírito Santo (TPES), que assume a área.

2019 – Moradores do Bairro de Paul protestam contra o uso de reservatórios na região.

Março de 2019 – Área de aproximadamente 74 mil metros quadrados da poligonal portuária é arrendada para implantação de um Terminal de Granéis Líquidos (TGL), destinado ao armazenamento de combustíveis como álcool e biodiesel, diesel e gasolina.

2023 – Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) fecha a maior operação de crédito de sua história ao emprestar R$ 70 milhões para que a companhia LiquiPort amplise sua capacidade de operação de cargas.

Janeiro de 2026 – Moradores do bairro de Paul são surpreendidos por forte odor oriundo da região do Morro de Atalaia.

 

Fontes

ABDO FILHO. Bandes fecha com a LiquiPort a maior operação de crédito de sua história. A Gazeta, 22 set. 2023. Disponível em: https://shre.ink/LeEE. Acesso em: 3 abr. 2026.

ARAÚJO, Suellen. VV poderá ter comissão para avaliar situação de tanques de combustíveis em Paul. Folha Vitória, 07 abr. 2015. Disponível em: https://shre.ink/LeRy. Acesso em: 30 mar. 2026.

BORGO, Arnaldinho. Paul é um dos bairros mais tradicionais de Vila Velha, que tem o viaduto como o seu ícone. Sua história é marcada pela arquitetura preservada. Facebook: Arnaldinho Borgo, 17 jul. 2020, 59s. Disponível em: https://shre.ink/LezW. Acesso em: 6 abr. 2026.

CARDOSO, Titina. Deputados denunciam tanques de combustíveis. Assembleia Legislativa do Espírito Santo – Ales, 16 set. 2013. Disponível em: https://shre.ink/LeRO. Acesso em: 30 mar. 2026.

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