MA – Povos indígenas da TI Alto Turiaçu cansam de ameaças à sua segurança e a seu território e desistem de esperar a atuação do poder público

UF: MA

Município Atingido: Maranhãozinho (MA)

Outros Municípios: Buriticupu (MA), Centro do Guilherme (MA)

População: Povos indígenas

Atividades Geradoras do Conflito: Atuação de entidades governamentais, Madeireiras

Impactos Socioambientais: Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Assoreamento de recurso hídrico, Desmatamento e/ou queimada, Erosão do solo, Falta / irregularidade na autorização ou licenciamento ambiental, Invasão / dano a área protegida ou unidade de conservação, Pesca ou caça predatória

Danos à Saúde: Acidentes, Desnutrição, Falta de atendimento médico, Insegurança alimentar, Piora na qualidade de vida, Violência – ameaça, Violência – assassinato, Violência – coação física, Violência – lesão corporal

Síntese

A Terra Indígena Alto Turiaçu está localizada na Amazônia Legal, no noroeste do Estado do Maranhão. É a maior área contígua de floresta do Estado, aliada à Reserva Biológica (Rebio) Gurupi e à Terra Indígena Awa. São três os povos indígenas que compartilham a área desta TI: os Awa-Guajá, , os Ka`apor e os Tembé.

Depois do aumento da fiscalização do desmatamento no Pará, em 2008, a pressão sobre as áreas de floresta no Maranhão tem aumentado. Apesar de a maior parte da mata nativa ter sido destruída, a extração de madeira segue expressiva e ilegal.

Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e Silvicultura do IBGE mostra que, em 2011, o Maranhão produziu 174.073 metros cúbicos, dos quais 26% saíram justamente dos 13 municípios vizinhos às terras indígenas.

A cobiça pela madeira tem destruído o território dos povos indígenas do Maranhão e ameaçado a vida dos Ka`apor, Awa-Guajá, Tembé e dos Guajajara, que habitam terras vizinhas. A inexpressiva atuação do poder público – e, muitas vezes, sua conivência com os madeireiros e ruralistas – colabora para aumentar a gravidade da situação, que já conta com pelo menos três assassinatos de indígenas da TI Alto Turiaçu, e inúmeros casos de violência, intimidação e ameaças de morte.

Contexto Ampliado

A Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu é a maior do Maranhão e está localizada no noroeste do Estado, integrando a área da Amazônia Legal. Encontra-se regularizada e homologada pelo Decreto n. 88.002 de 1982. Ela faz fronteira com a Rebio Gurupi e com a Terra Indígena (TI) Alto Rio Guamá (PA), ao norte, e com a TI Awa, ao sul.

Segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA), a TI possui área de cerca de 530.500 hectares, com população de aproximadamente 1.350 indivíduos, de três povos indígenas diferentes que compartilham a área: Guajá, Ka’apor e Tembé. Dentre eles existem, inclusive, índios em isolamento voluntário.

“O território é recortado por caminhos, muitos deles invisíveis para quem chega de fora. Um galhinho virado, uma marca de uma árvore já é uma trilha para eles. Daí acarreta todo o conhecimento botânico, zoológico e toponímico, até os conhecimentos mais xamânicos, já que vários animais da floresta têm correspondentes celestes”, afirma o antropólogo Uirá Garcia.

Os Guajá, autotenominados Awa, são um povo principalmente caçador e coletor. A caça é mantida como base de sua vida social e determina o padrão de ocupação tradicional do território, de grande dispersão. Os Awa precisam, portanto, de florestas vastas e ambientalmente íntegras, sem as quais não poderão manter sua reprodução física e cultural. Além dos Awa, que vivem hoje em terras demarcadas, um número indeterminado de Awa-Guajá vive na floresta, sem contato permanente com a sociedade nacional.

Os Ka´apor surgiram como povo distinto há cerca de 300 anos, provavelmente na região entre os rios Tocantins e Xingu. Talvez por causa de conflitos com colonizadores luso-brasileiros e outros povos nativos, iniciaram uma longa e lenta migração que os levou, nos idos de 1870, do Pará, através do rio Gurupi, ao Maranhão. Quando as autoridades brasileiras tentaram “pacificá-los” (eufemismo da época para a política de integração forçada) pela primeira vez, em 1911, os Ka’apor foram considerados um dos povos nativos mais hostis no País. Tal processo de “pacificação” se iniciou em 1928 e durou quase 70 anos.

Já os Tembé têm sido obrigados a conviver com centenas de famílias de posseiros em suas terras e sofrem os efeitos da atuação irregular de madeireiros, fazendeiros e empresários. Entretanto, longe de conformar-se com essa situação, esse povo tem lutado pela desocupação de seu território e reivindicado seus direitos junto aos órgãos públicos e poderes locais.

Os três povos que compartilham a TI Alto Turiaçu sofrem ameaças há anos com a extração ilegal de madeira e desmatamento para implantação de monoculturas e criação de gado.

Em 1961, o governo Jânio Quadros criou a Reserva Florestal Gurupi, reclassificada como Reserva Biológica a partir da criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), incidindo sobre os territórios dos Guajajara, Urubu Ka`apor, Tembé e Guajá. O Decreto 51.026 de 25 de julho de 1961 explicitava que:

“Dentro do polígono constitutivo da Reserva Florestal serão respeitadas as terras do índio, de forma a preservar as populações aborígenes, de acordo com o preceito constitucional e a legislação específica em vigor, bem como os princípios de proteção e assistência aos silvícolas, adotados pelo Serviço de Proteção aos índios”.

Já no final da década de 1970, a situação mudou quando a Reserva Florestal Gurupi foi desmembrada em Terras Indígenas. A demarcação da TI Alto Turiaçu, ao norte da reserva, e da TI Caru, ao sul, deixa um corredor de terra desprotegida entre as duas áreas, justamente o território dos grupos Guajá isolados, de acordo com o repórter Rafael Nakamura.

Segundo relatório da antropóloga Maria Auxiliadora Cruz de Sá Leão, a demarcação da TI Awa foi proposta em 1975 pelo antropólogo Mércio Pereira Gomes e, em 1977, pelo antropólogo Alceu Cotia Mariz e pelo Major Saul Carvalho. Maria Auxiliadora cita que, já nesse tempo, Mércio Gomes apontava as graves consequências da falta de proteção no território Guajá.

“Em relatório à Funai em 1979, o Dr. Mércio Gomes coloca: ‘Os Guajá estão se dispersando pelo fato da Reserva Turiaçu ter sido demarcada separadamente da Caru, criando um verdadeiro corredor de passagem de não indígenas e de formação de fazendas e roças particulares, quando até 1977 era uma única Reserva constituída pelo Presidente Jânio Quadros. A divisão levou a que cerca de 80 Guajá da Caru perdessem contato com os da Turiaçu e ainda por causa dessa medida 50 índios perderam a vida’”, diz o relatório posterior ao de Mércio Gomes, já em 1992.

Além das rodovias que alteraram a configuração populacional no Maranhão, afetando territórios indígenas, após anos de estudos, o projeto de exploração das reservas minerais da Serra dos Carajás, no sudeste do Pará, avançava, trazendo para a região a Estrada de Ferro Carajás (EFC), que tinha sua construção sob responsabilidade da então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), até então estatal (hoje Vale S.A).

As obras foram iniciadas em 1982 e os trilhos chegaram ao noroeste maranhense em 1984. A construção da ferrovia e a consequente valorização das terras aumentaram o interesse de latifundiários que se instalaram na região e procuraram por todos os meios regularizar a situação das terras por eles adquiridas ou griladas (para mais informações sobre os impactos da EFC nas comunidades da região, ver a ficha correspondente aqui).

A ferrovia liga a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, em Carajás, sudeste do Pará, ao Porto de Ponta da Madeira, em São Luís (MA). Os gigantescos trens de carga podem ser ouvidos a quilômetros de distância dentro da terra indígena, afetando diretamente a vida dos indígenas por espantar os animais de caça, principal alimento dos Awa-Guajá isolados.

“Eles falam que a caça ali na borda é paranoica, são como animais de zoológico. Qualquer barulho o animal já está alerta. Eles chamam esses animais de ‘caça brava’, é mais difícil de pegar porque ela está mais acostumada com a presença humana e, sobretudo, com barulho. Para caçar de maneira sossegada, eles estão tendo que se deslocar para muito longe das aldeias”, relata o antropólogo Uirá Garcia.

As primeiras informações sobre invasões da área, no entanto, são de 1999. Segundo matéria disponível no blog Combate Racismo Ambiental, em 2013, as matas da aldeia Xiepihurená começaram a ser sistematicamente invadidas por peões de sete serrarias instaladas no entorno, situação que se prolongou até 2001. O texto denuncia que pistoleiros chegaram a manter 60 índios prisioneiros por vários dias, o que resultou em uma ação conjunta do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF), que mantiveram uma base na região por dois anos para conter os infratores.

Apesar desta base, a violência na região persistiu; os grileiros e fazendeiros, segundo a reportagem, parecem imunes às leis que garantem a integridade das terras indígenas. Dentre eles, o fazendeiro Antônio Chaves, dono da Fazenda Mercantil, que ocupou parte das Terras Indígenas Alto Turiaçu e Awa que, mesmo sob processo judicial do MPF, insistia em devastar a área.

Não tendo sido resolvida a situação, em fevereiro de 2008, uma nova denúncia foi encaminhada ao MPF registrando a entrada de madeireiros pelas fronteiras com os municípios de Maracaçumé, Centro do Guilherme, Santa Luzia do Paruá e Zé Doca; neste caso, tendo como bases os povoados ilegais Ebenezer e Vitória da Conquista, incrustados dentro da área da Terra Indígena Awa, homologada em 2005.

Ainda segundo a mesma fonte, os protagonistas das invasões comercializavam à luz do dia, sem nenhum impedimento, madeiras nobres com as serrarias e fábricas de compensados vizinhas, como a Rio Concrem Industrial Ltda., com sede no município de Dom Eliseu (PA). Os índios citam os nomes dos envolvidos: Nelson, de Paragominas (PA); Luiz, de Capanema (PA); Geovane, de Buriticupu (MA); Alano, Conceição e Riba, do Centro do Guilherme; Ronaldo e seu irmão Lucivaldo, da localidade Limão; Raimundo Jafin, Maria Valê, Zé Riba e Valdir, da localidade Ebenezer, no município de Zé Doca (MA).

Para os indígenas que habitam a TI Alto Turiaçu, o grande número de posseiros em suas terras era mais um drama. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Maranhão (Fetaema) foi acusada por eles de apoiar a devastação. Segundo a Irmã Ana Amélia Miranda, do Conselho Indígena Missionário – Regional do Maranhão (CIMI/MA), os prefeitos também estariam do lado dos madeireiros, incentivando a expropriação e exploração territorial na região. Com isso, é possível observar que a atuação do poder público local não favorecia a garantia do direito ao território por parte da população indígena do Maranhão.

As informações disponíveis no blog Combate Racismo Ambiental indicam ainda mais políticos locais envolvidos nos esquemas de desmatamento. Segundo reportagem de Cesar Teixeira, os índios Ka`apor acusaram Josimar Cunha Rodrigues, prefeito do município de Maranhãozinho, de praticar crimes ambientais (derrubando árvores e ocupando espaços públicos), incentivando a invasão da TI com o propósito de cobrar pedágio dos madeireiros e ameaçando denunciá-los ao Ibama e à Polícia Federal caso não pagassem.

No rastro deixado pelos madeireiros, uma série de outros invasores foram atraídos para a TI; dentre eles, cipoeiros, plantadores de maconha e caçadores. Valdemar Ka’apor , liderança indígena, mencionou ainda o tráfico de plantas medicinais e animais silvestres, sem nenhum critério por parte dos caçadores. A falta de fiscalização e a ausência de atuação permanente da Fundação Nacional do Índio (Funai) na região persistiram, agravando a devastação das terras.

Em 2009, jovens lideranças Ka`apor passaram a questionar uma prática que, segundo os indígenas, nasceu com o incentivo de funcionários da Funai, ainda nos anos 1980: a venda de madeira. “A Funai falou que não tinha recurso também, e que nós [tinhamos muita] madeira (…) apreendida. ‘Vamos vender essa madeira pra conseguir um dinheiro pra doar pra vocês.’ Então assim começou. Muitos indígenas não queriam, só os caciques queriam negociar a venda de madeira”, conta Osmar Ka`apor, do Conselho de Gestão Ka`apor, em entrevista à Agência Pública.

Em 16 de maio de 2010, Rubinet Ka’apor , de 38 anos, da aldeia Axiguirenda, na TI Alto Turiaçu, foi assassinado a pauladas por vários moradores da cidade de Centro do Guilherme. Segundo matéria do blog Combate Racismo Ambiental, o assassinato devia ser entendido dentro do clima de tensão e conflito existente na área. Um número sempre maior de madeireiros e plantadores de maconha da cidade de Centro de Guilherme queria usufruir sistematicamente da terra indígena para seus fins.

O CIMI/MA promoveu, entre os dias 18 e 20 de maio de 2010, sua XXXII Assembleia Regional, expondo sua preocupação com o descaso do poder público local com relação às populações tradicionais existentes no Estado. Segundo a carta disponibilizada no final do encontro, o governo federal não estava cumprindo com suas obrigações para com os povos indígenas do Estado. Pode-se dizer que existe, na região, um verdadeiro conluio entre os poderes legislativo, executivo e judiciário e as forças econômicas para impedir que os povos indígenas, quilombolas e camponeses permaneçam na posse de seus territórios, usando contra estes estratégias de criminalização e violência. De acordo com a reportagem do CIMI/MA, a falta de fiscalização por parte do governo – e a justificativa da expansão do agronegócio, das monoculturas e da exploração de riquezas naturais – deixava um enorme rastro de destruição e violência para as populações indígenas do Estado.

Um grupo de indígenas Ka`apor esteve em São Luiz no dia 27 daquele mês e, apoiado pelo CIMI/MA, fez uma denúncia na Procuradoria Geral da República e também na Polícia Federal quanto ao aumento de invasões na TI Alto Turiaçu e da violência dos madeireiros contra as comunidades das várias aldeias da TI, incluindo o assassinato de lideranças. Nessa ocasião, a liderança Valdemar afirmou que, alguns dias antes do assassinato de Rubinet Ka’apor , houve uma discussão entre moradores da aldeia e o madeireiro conhecido por Zé Camburão, residente no povoado Cedral, que os ameaçou de morte. Antes disso, no mês de abril, por duas vezes os índios haviam tomado armas e motosserras das mãos de empregados do madeireiro, que retiravam ilegalmente madeira da reserva.

Diante dos fatos, o Ministério Público Federal no Maranhão (MPF/MA) recomendou à Funai, em outubro de 2010, que fosse reforçada a fiscalização de diversas TIs no Estado, incluindo a TI Alto Turiaçu. De acordo com nota divulgada pela Procuradoria Federal do Maranhão, foi realizado um relatório de fiscalização em conjunto com Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Polícia Federal e Funai, no qual se afirmava a existência de madeireiras instaladas ilegalmente nas TI, resultando em conflitos com as comunidades indígenas.

As denúncias e notícias sobre a ação das madeireiras na TI Alto Turiaçu voltaram a aparecer em setembro de 2011, sem, no entanto, indicar que as invasões e os conflitos tenham tido qualquer tipo de interrupção. Com intuito de desmontar serrarias que atuavam no Maranhão extraindo madeira ilegalmente da Reserva Biológica do Gurupi e das TIs Awa, Carú, Araribóia e Alto Turiaçu, o Ibama realizou uma operação no dia 01 de setembro de 2011. Segundo reportagem de Lana Lourenço, da Agência Brasil, a serraria RN Santos Moraes já havia sido embargada em 2010, mas seguia em operação, posto que na ocasião da operação denominada “Mauritânia” o pátio da serraria foi encontrado com lacre rompido e repleto de madeira nativa já serrada.

Outras seis madeireiras estavam entre os alvos da operação, realizada na região do município de Buriticupu e que contou com o apoio da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP). Nos três primeiros dias de operação, o Ibama aplicou R$ 687,5 mil em multas.

Na mesma semana, a operação se entendeu para a Reserva Biológica (Rebio) Gurupi, vizinha à TI Alto Turiaçu, onde, além das madeiras, foram apreendidos veículos e máquinas. Também foram encontrados cerca de 20 trabalhadores em condições análogas à escravidão. Mantidos em condições subumanas, os trabalhadores que operavam o maquinário estavam alojados no meio da mata, sob tendas de lona, sem registro na carteira de trabalho. Muitos não sabiam nem o valor do salário que receberiam ao final do mês.

Segundo a agência de notícias Vias de Fato, no dia 15 de setembro de 2011, mais de 500 lideranças indígenas de diferentes povos estiveram reunidas na Aldeia de Lagoa Grande, TI Araribóia, município de Amarante, para debater a insatisfação com a falta de atuação da Funai na região. No documento final produzido neste encontro, os índios pediram a saída imediata do coordenador da Funai no Maranhão “devido à sua incompetência”.

O Povo Ka`apor da Aldeia Axiguirenda da TI Alto Turiaçu, altura do município de Centro do Guilherme, era dos mais afetados pelas ações dos madeireiros e suas ameaças à vida dos povos indígenas, bem como pelo descaso do poder público. As famílias, ameaçadas de perderem seu território, eram levadas à fome, falta de abastecimento de água e atendimento de saúde.

Em outubro de 2011, depois de longo silêncio e cansados de aguardar atitudes das autoridades, os Ka’apor, com o apoio dos servidores da saúde, decidiram denunciar sua situação. Relataram o aliciamento que os indígenas sofriam por parte dos madeireiros em troca de cachaça, motos, celulares e comida nos povoados no entorno da aldeia. Além disso, afirmaram que as operações do Ibama não surtiam efeito na intimidação aos madeireiros.

Os indígenas denunciaram mais um assassinato, ocorrido em março de 2011. Tazirã Ka’apor , de 20 anos e pai de duas crianças, foi atropelado por um caminhão madeireiro nas proximidades da aldeia Axiguirenda. Após terem feito esta denúncia às instâncias judiciais da região, as ameaças aumentaram.

Em 25 de abril de 2012, a organização Survival International lançou uma campanha mundial pela sobrevivência dos índios Awa-Guajá que ocupavam parte da TI Alto Turiaçu. A campanha pedia o apoio das autoridades brasileiras na proteção desta etnia e de seu território, que vinha sendo constantemente ameaçado e desmatado. Segundo Tatiane Klein, em reportagem do ISA, a ocupação ilegal e permanente nas Terras Indígenas que compõem o território Awa-Guajá – as TIs Awa, Alto Turiaçu, Caru – não era novidade. A nova campanha da Survival International chamava a atenção para uma situação grave, há muito conhecida e denunciada. A matéria informava, ainda, que o assédio dos madeireiros às TIs no Maranhão aumentou a partir de 2008, quando o Ibama intensificou a repressão ao desmatamento no Pará.

A TI Alto Turiaçu também sofria ameaças dos impactos das obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, realizada pela Vale S. A.. Conforme carta dos movimentos sociais do Maranhão destinada ao Desembargador Carlos Moreira Alves, em 17 de agosto de 2012, e disponível no blog Combate Racismo Ambiental, as obras ameaçavam também os povos indígenas. O território indígena Mãe Maria, no Estado do Pará (de usufruto do povo Gavião), é cruzado pela EFC. As obras tendem a provocar impactos também sobre as terras indígenas Caru (Guajajara e Awa-Guajá), Alto Turiaçu (povos Urubu Ka`apor, Timbira e grupos de Awa-Guajá nômades e isolados) e Pindaré (povo Guajajara e algumas famílias de Guarani).

Entre 12 e 13 de setembro de 2012, a Polícia Federal (PF) realizou ação de combate à extração ilegal de madeira nas terras indígenas próximas ao município de Maranhãozinho. Durante a ação, fruto da “Operação Arco de Fogo”, iniciada em 2008, dois motoristas de caminhão e dois seguranças foram presos em flagrante e um caminhão com seis metros cúbicos de madeira foi apreendido, além de outros equipamentos e armas. Cabe destacar, conforme noticiado pela Comunicação Social da Polícia Federal no Maranhão, que também foram encontrados com os motoristas cartões que eram obtidos na própria Prefeitura de Maranhãozinho, e que permitiam a entrada dos mesmos na área da TI.

Durante investigações da Operação Arco de Fogo, em 2011, a equipe da PF obteve informações de que a prefeitura do município estaria cobrando pedágio dos madeireiros para entrar na TI Alto Turiaçu, de onde era extraída madeira ilegalmente. A PF se comprometeu a buscar informações sobre os mandantes das atividades criminais. De acordo com reportagem do Jornal Pequeno, Cristiano Sampaio, Superintendente da PF, informou que o órgão já tinha uma linha de investigação traçada e que já era possível afirmar um envolvimento efetivo de servidores municipais no crime, e que três policiais federais eram acusados de participação na quadrilha.

Em dezembro de 2012, a PF indiciou o então prefeito de Maranhãozinho, Josimar Cunha (PR), e mais dez pessoas sob suspeita de participação das atividades madeireiras, inclusive exercendo o controle de entrada e saída de caminhões da TI Alto Turiaçu. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, a extração era liberada desde que os madeireiros se cadastrassem na prefeitura e pagassem R$150,00 por viagem de cada caminhão. A estimativa divulgada na reportagem era de que cerca de 20 caminhões por dia entravam na TI. O então prefeito negou as acusações.

Em 30 de maio de 2013, foi divulgada no blog Combate Racismo Ambiental uma nota denunciando a situação a que estava submetido o povo Ka`apor da TI Alto Turiaçu, que seguia tendo suas terras desmatadas por ações de madeireiros ilegais. A cobiça pela madeira estava destruindo o território dos povos indígenas no Maranhão, sobretudo, os Ka`apor e os Awa-Guajá, situados na última área de reserva florestal da Amazônia Oriental.

O povo Ka`apor da TI Alto Turiaçu esteve reunido entre os dias 1 e 4 de junho de 2013 para discutir os problemas por eles enfrentados, desde a educação até a gestão do território. Dando atenção especial ao debate sobre a atuação do poder público através da Funai, os Ka`apor divulgaram carta expressando sua indignação com o tratamento recebido:

“Assim como nós, outros povos no Maranhão e no Brasil estão sofrendo ataques, invasão e até assassinatos. Isso prova o descaso do governo do Maranhão e do governo federal com a defesa de nossos direitos, de nossa vida. […] Não vamos ficar parados e nem aceitamos que esses fazendeiros e madeireiros queiram governar para seus parentes e grupos políticos. […] Por isso, decidimos cuidar e proteger nosso território e não esperar mais pela Funai, pelo governo. Eles sempre pedem para esperar. Enquanto isso os invasores destroem nossos bens naturais, enganam nosso povo, dão bebidas para nossos parentes, levam nossas caças, tiram alimento de nossos filhos. Não aceitamos mais que o governo decida e faça por nós. Nós mesmos vamos vigiar, proteger e trabalhar a gestão de nosso território”.

Dessa forma, os Ka`apor criaram um Conselho de Gestão, com membros escolhidos por representarem os princípios dos antigos anciões que defendiam o território e os modos de vida dos Ka`apor – segundo eles, o cacicado como forma de liderança não fazia parte de suas formas de organização social. “Antes, era cacique. Cacique quem criou não foi Ka’apor, foi a Funai, que trouxe essa ideia pra destruir a nossa organização. Então, a gente se organizou e discutiu. Decidimos que cacique, pra nós, não existe.”, afirma Miraté Ka’apor em entrevista para a revista eletrônica Vice.

Além das 10 aldeias existentes na TI Alto Turiaçu, onde vive a etnia Ka’apor, oito áreas de proteção foram criadas. Elas servem como bases provisórias cujo intuito é intimidar a invasão de madeireiros e caçadores. Os conselhos ajudam a definir ações de segurança.

Os Ka`apor firmaram um Acordo de Convivência com o objetivo de fortalecer seus modos de vida e proteger seu território da venda de madeira e do consumo de bebidas alcoólicas e drogas, que muitas vezes chegavam às aldeias pelas mãos dos madeireiros, associados ao crime organizado. “Área de proteção a gente fez porque a gente não quer acabar com a nossa floresta. A gente reuniu tudinho, junto com o conselho. Aí a gente juntou tudinho e tirou os madeireiros tudinho. Ninguém esperou a Funai, só nós mesmo”, conta Sarapó Ka`apor, um dos fundadores da aldeia Ywyãhurenda, área de proteção situada onde antes era o ramal de controle de entrada e saída de caminhões de madeira, em entrevista à agência de notícias Pública.

Diante das sucessivas denúncias e da pressão sobre o Governo Federal, nos meses seguintes o Exército Brasileiro passou a realizar constantes operações na região com o apoio do Ibama, visando combater a ação dos madeireiros e demais invasores das TIs, diminuindo momentaneamente a vulnerabilidade dos povos indígenas à violência e ao conflito. Contudo, a União anunciou que tais operações seriam suspensas a partir de meados de agosto de 2013. O saldo final foi o fechamento de diversas serrarias e multas para as empresas que operavam ilegalmente nas terras indígenas e unidades de conservação da região. A operação foi batizada de “Hileia Pátria”, e foi incluída como parte das atividades do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental – PNAPA/2013. Na época, foram fechadas 27 serrarias no entorno da Terra Indígena Awa – que se sobrepõe à Reserva Biológica Gurupi – e apreendidos cerca de quatro mil metros cúbicos de madeira retirada daquele território.

Nessa mesma operação, de acordo com a Agência Pública, o Ibama identificou crimes cibernéticos e de fraude praticados por grandes madeireiros que já haviam sido condenados pela Justiça nos municípios maranhenses de Centro do Guilherme, Governador Nunes Freire e Buriticupu, cidades que rodeiam as terras indígenas Awa, Caru e Alto Turiaçu e a Reserva Biológica do Gurupi. No esquema, empresas fantasmas ou irregulares produziam documentos florestais falsos para fazer com que madeira e carvão ilegais passassem à legalidade. Na época, o Ibama chegou a bloquear mais de 200 empresas que seriam beneficiadas.

Paralelamente à ação do Estado, muitos indígenas estavam realizando ações diretas na defesa de suas terras. No final de julho de 2013, eles prenderam trabalhadores de serrarias e também apreenderam motosserras e pequenos maquinários que estavam sendo utilizados para derrubar e transportar a madeira de duas terras indígenas da região (TI Awa e TI Alto Turiaçu) para serrarias em um povoado do município de Zé Doca. Na madrugada do dia 07 para o dia 08 de agosto de 2013, mais um grupo de indígenas de uma aldeia localizada no município de Araguanã prendeu quatro trabalhadores de serrarias que derrubavam árvores que serviriam de estacas para cercas de fazendas. As pessoas e materiais apreendidos foram encaminhados às autoridades locais.

Por outro lado, o recrudescimento das operações de fiscalização (oficiais ou não) contribuiu para o crescimento da discriminação e do preconceito contra os indígenas nas cidades da região, já que as atividades ilegais nas áreas federais protegidas sustentavam muitas famílias de não-indígenas e garantiam a economia de muitos desses municípios. De acordo com informações veiculadas no blog Combate Racismo Ambiental, naquela época, muitas famílias indígenas estavam impossibilitadas de sair de suas aldeias para a cidade, sofrendo discriminação de pessoas comuns e servidores públicos municipais quando procuravam por serviços nestes órgãos. Segundo comerciantes, donos de serrarias, fazendeiros, prefeitos e outras pessoas, com a operação da polícia, caíra muito o movimento nos comércios, e mais pessoas estavam desempregadas.

Em 26 de agosto de 2013, o Ibama divulgou um balanço da operação. Até aquele momento, no Maranhão, foram apreendidos quatro tratores, três armas, três caminhões, 16 serrarias foram fechadas, além de mais de 4.370 m³ de madeira, o equivalente a 110 carretas lotadas. Foram aplicadas multas que ultrapassaram os R$ 2,3 milhões. De acordo com o superintendente do Ibama no Maranhão, Pedro Leão, a madeira apreendida seria doada. Enquanto o Ibama fiscalizava as serrarias e carvoarias, os moradores da aldeia Ximborenda detiveram seis invasores durante três dias, flagrados derrubando árvores seculares no interior do território, nas proximidades da aldeia, sendo posteriormente liberados por servidores da Funai.

Em 10 de setembro de 2013, um novo balanço informava que o número de serrarias fechadas pela operação havia aumentado para 27 e um total de 4.693 m³ de madeira beneficiada e em toras havia sido apreendido. Além disso, haviam sido aplicados mais de R$ 4,5 milhões em multas.

Em retaliação às ações indígenas e do Estado, em outubro de 2013, um grupo de madeireiros armados invadiu o território, à margem direita do rio Gurupiúna, e ameaçou alvejar e agredir um grupo de indígenas. Eles foram posteriormente desarmados e expulsos da TI com a chegada de reforços indígenas ao local.

No mesmo ano, pouco antes do Natal, um grupo de indígenas, que realizava a identificação e reavivamento dos limites, prendeu por três dias um madeireiro influente da região, que realizava corte ilegal de madeira, e que, posteriormente, foi solto pelo delegado e servidores da Funai no município de Santa Luzia do Paruá. Também apreenderam armas, tratores e caminhões no limite noroeste de seu território no rio Gurupi, nas proximidades da divisa com o Pará.

No ano seguinte, em janeiro, o Governo Federal iniciou uma nova operação na região, dessa vez para proceder a desintrusão de não-indígenas da TI Awa. Numa primeira fase, os ocupantes da TI seriam notificados por oficiais de justiça para que se retirassem voluntariamente num prazo de 40 dias a contar da data de notificação. Aqueles que não cumprissem a determinação seriam removidos com o apoio de força policial, bem como seriam expedidos mandados de desfazimento de construções, cercas, estradas ou quaisquer benfeitorias no interior da terra indígena.

Dentre os não-indígenas, pequenos agricultores deveriam receber terras em assentamentos da reforma agrária na região de Pindaré e Gurupi, para os quais o Incra já havia publicado edital de compra desde 28 de novembro de 2012. Todo o processo foi garantido por uma liminar concedida pela Justiça Federal no Maranhão. A mesma decisão garantiu aos posseiros o direito de retirar bens móveis, imóveis, animais e quaisquer outros pertences que pudessem ser removidos sem comprometer a utilização das terras pelos indígenas.

O juiz também estabeleceu o prazo de 27 de janeiro de 2014 para que o Incra divulgasse o plano de reassentamento daqueles que se enquadrassem nos critérios para beneficiários da reforma agrária, e uma audiência para discutir o processo foi marcada para o dia 29 daquele mês.

De acordo com nota divulgada pelo Incra, a ação de desintrusão era interministerial, coordenada pela Secretaria Geral da Presidência da República em parceria com os ministérios da Justiça (Funai, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Secretaria Nacional de Segurança Pública/Força Nacional de Segurança Pública), Gabinete de Segurança Institucional (através da Agência Brasileira de Inteligência – Abin); Defesa (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia – Censipam), Saúde (Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai), Desenvolvimento Agrário (Incra), Meio Ambiente (Ibama e Instituto Chico Mendes de Biodiversidade – ICMBio), Ministério do Desenvolvimento Social, Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SDH) e Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

O início da operação acirrou as disputas por território e intensificou a violência contra os povos indígenas. Em 07 de janeiro de 2014, um grupo de dez Ka`apor -, que, segundo denúncias da Associação Indígena Kaaportarupi, realizava abertura de trilhas nos limites de seu território para autovigilância -, foi surpreendido com tiros que atingiram as costas e as pernas de dois jovens indígenas, além da cabeça do cacique da aldeia. Todos foram hospitalizados e sobreviveram. Um madeireiro conhecido como Maradona foi acusado pela associação de comandar a emboscada.

Enquanto ao lado da TI Awa os índios Ka`apor enfrentavam novos episódios de violência, o Governo Federal concentrava todos os seus esforços na operação de desintrusão da referida área. No dia 10 de fevereiro, as diversas instituições federais envolvidas na operação realizaram uma reunião para fazer um balanço dos resultados até ali alcançados. Uma das preocupações da ocasião, principalmente por parte do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), era a possível migração dos posseiros para a Rebio Gurupi. O ICMBio propunha a realização de ações de proteção ambiental para o restante da operação, com a sistematização de ocorrência de ilícitos ambientais na região.

A desintrusão foi oficialmente concluída em meados de abril de 2014. Para marcar o sucesso da operação, foi entregue aos índios um auto de desintrusão em cerimônia realizada na aldeia Juruti.

De acordo com o portal Amazônia, o juiz José Carlos Madeira e o procurador Alexandre Soares realizaram um sobrevoo de reconhecimento na terra indígena. No roteiro, foram percorridos antigos povoados cujas casas foram totalmente desmontadas, áreas de degradação e desmatamento (cerca de 30% do total) e antigas grandes propriedades. Foi ainda realizado um pouso na base de operações Norte, local onde anteriormente existia o povoado de Vitória da Conquista. Lá, a comitiva conheceu a estrutura de proteção montada pela Funai, como sinalização e cancelas para a proteção do território.

Os Ka`apor, por sua vez, tinham poucos motivos para comemorar a presença dos órgãos ambientais e do Exército na região, uma vez que, a despeito da presença de representantes do Estado, as invasões por madeireiros em seu território continuavam. Em 03 de março de 2014, em mais uma ação de autovigilância de suas terras, eles desarmaram e expulsaram pessoas que desmatavam dentro dos limites da TI, no ramal conhecido como 80, no município de Maranhãozinho.

Em nota publicada no portal Combate Racismo Ambiental, os Ka`apor denunciaram que, após várias operações realizadas pela Polícia Federal e Ambiental (do Estado), Exército, Funai e Força Nacional em outros territórios indígenas e áreas de proteção no Maranhão,

“a maioria veio para nossa região para retirar madeira. Nossa área é a única no Maranhão que possui uma área extensa de floresta. Esses órgãos do governo e funcionários da Funai fazem ações expulsando os agressores, mas não dão suporte e nem criam postos de vigilância e proteção. Com isso, ficamos mais expostos a ameaças e violência pelos agressores. Vários jovens e lideranças que fazem parte de nosso projeto, que estão ajudando a proteger e vigiar nosso território, estão ameaçados, perseguidos e não podem sair de suas aldeias. Os madeireiros estão se concentrando em dois ramais, chamados quadra 45 e 50, no município de Centro do Guilherme. A maioria dos agressores vieram dos municípios de Buriticupu, São João do Caru, Paragominas (Pará), Santa Luzia do Paruá, Zé Doca, Encruzo. Possuem fazendas e serrarias nestes municípios. Contam com apoio da prefeita do município de Centro do Guilherme, que pavimenta as estradas para facilitar a retirada da madeira. Falam que precisa ter arrecadação no município e que a madeira que está ajudando o município a crescer. Se as serrarias param e são fechadas pela polícia, o município para também.”

A pressão sobre os Ka`apor se intensificava, portanto, sem que o Estado, que conhece bem os problemas socioambientais da região, tomasse providências para garantir permanentemente a integridade das terras indígenas. As ações pontuais não estavam gerando os efeitos desejados pelos índios. Os Ka`apor exigiam que a Funai respeitasse decisão judicial anterior que determinava a criação de postos de fiscalização permanentes na TI.

Enquanto nada era feito, os madeireiros continuavam a ameaçar a integridade física dos índios e a destruir seu território. Uma nova denúncia de ameaças veio a público em junho de 2014, alertando para a participação de políticos de Centro do Guilherme.

Em dezembro de 2014, os Ka’apor solicitaram à antiga Secretaria Especial de Direitos Humanos, órgão vinculado à Presidência da República (hoje incorporada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), a inclusão de quatro indígenas da Terra Indígena Alto Turiaçu no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, que provê escolta policial a lideranças ameaçadas. A secretaria afirmava na época que recebera o pedido para três indígenas e que aguardava informações do MPF, Funai, PF e do governo do Estado do Maranhão para dar prosseguimento à avaliação do caso, que até 2019 ainda não havia sido concluído, de acordo com o jornalista Ruy Sposati.

Os dados de desmatamento dessa região amazônica são alarmantes. De 1988 a 2014, cerca de 2,4 milhões de hectares foram desmatados no Maranhão segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Fazendas de gado, carvoarias, lavouras ilegais e madeireiras ocupam hoje partes das Terras Indígenas Alto Turiaçu, Araribóia, Awa e Caru, e são os principais desafios para o trabalho de proteção dos povos indígenas da região.

Dessa forma, de acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), a vida dos isolados na região foi ficando cada vez mais difícil. No início de 2015, um grupo de três Awa-Guajá isolados que estavam cercados por madeireiros buscou o contato na TI Caru. Era uma família composta por um jovem, sua mãe e sua avó. As mais velhas evitavam o contato desde meados dos anos 1980. Os Awa-Guajá já contatados temem pela vida de seus parentes, pois sabem do medo e das dificuldades pelas quais os isolados passam.

Segundo o antropólogo Uirá Garcia, o que está em jogo é a própria humanidade dos Awa-Guajá:

“Para os Awa-Guajá, todo mundo um dia vai ser karawara. É o destino da humanidade. Quando eu morrer, vou para o céu. Chegando lá, passo por alguns rituais, me adornam, cantam, e eu vou renascer e viver para sempre no céu. Então, para eles, o paraíso, o que te espera depois da sua morte, até esse lugar está ameaçado. A floresta desperta as memórias dos antepassados, é lá que eles aprenderam a caminhar, a caçar e a escutar tudo o que está à sua volta. Os Guajá têm uma tradição muito bonita: quando a criança começa a dar os primeiros passos, o pai leva um pouquinho para dentro da floresta e volta pra casa. No outro dia, ele leva mais um pouquinho e volta pra casa. No outro, ele leva um pouquinho mais adiante, dorme lá, e depois volta pra casa. Existe uma educação nesse caminhar.”

No dia 26 de abril de 2015, Eusébio Ka’apor e seu primo viajavam de moto quando foram abordados por dois homens encapuzados e armados em uma encruzilhada. Os indígenas seguiam o caminho de casa, cruzando os povoados que cercam a Terra Indígena Alto Turiaçu. Eusébio foi assassinado na zona rural do município de Maranhãozinho, a três quilômetros da entrada da aldeia Ximborendá. Na manhã seguinte, na sede da cidade de Zé Doca, seu filho, M., contou, em entrevista ao jornalista Ruy Sposati, que foi abordado por um proprietário de serraria: “Ele disse que já sabia da morte e veio dizer que tinha outras pessoas pra morrer. E ainda reclamou que não consegue mais madeira lá”.

O madeireiro se referia à terra indígena dos Ka’apor, que sofre constantes invasões para o roubo de árvores. Eusébio era uma das lideranças do movimento dos Ka`apor para retirada dos madeireiros, de acordo com Sposati. Essas ações foram batizadas pelos indígenas como “missões”. Sempre dentro de sua terra, eles seguem a trilha dos invasores, tomam seus equipamentos, queimam seus veículos e expulsam os madeireiros. As trilhas por onde as árvores eram retiradas são fechadas. Os pátios, antes usados como base pelas serrarias, passam a ser ocupados por novas aldeias Ka’apor que levam o nome de Kaar Husak Ha – “áreas protegidas”.

A sobrevivência dos Ka’apor está diretamente relacionada à floresta. “Nós não dependemos da cidade, nós dependemos da mata. Por isso o nome é Ka’apor: ‘nós somos da mata’. E a mata também depende da gente”, diz J., outro indígena que falou com Sposati sob anonimato. Ainda triste pela morte de Eusébio, ele aponta uma castanheira e explica por que as missões não podem parar: “esta árvore já estava aqui antes de eu nascer e antes do meu pai nascer. Por isso que lutamos. Nós podemos morrer, mas nossos filhos sempre vão ter a floresta”.

A investigação foi prejudicada pelo fato de a polícia só ter chegado ao local do crime dias depois, quando a Secretaria de Segurança Pública do Estado encarregou uma equipe para investigar o caso. O delegado José Henrique Mesquita trabalhou com duas hipóteses: “A primeira é de que alguém está cometendo assaltos na região, e não tem nenhum envolvimento do conflito com os madeireiros. A segunda é de que a morte aconteceu à mando dos madeireiros para amedrontar os indígenas”.

A primeira linha da investigação, de latrocínio, foi a mais difundida pela imprensa local. O histórico de conflitos na região, contudo, corrobora a segunda hipótese. “Esse tipo de ameaça já vinha sendo feita, e o Eusébio era uma das lideranças ameaçadas. É estranho que alguém tenha abordado justamente a motocicleta de uma liderança como ele”, diz o advogado Luiz Antônio Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Maranhão (OAB-MA).

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a violência contra os indígenas teria se intensificado nos últimos meses, depois do fechamento do último ramal madeireiro. “Fechamos todos os ramais e criamos oito aldeias nas entradas, pra impedir que voltem. Mas de lá pra cá aconteceram três roubos de motos seguidos de agressão, e sempre cometidos por duas ou três pessoas encapuzadas e com espingardas”, conta uma liderança do Conselho Ka`apor. “As ameaças de morte são constantes há muito tempo. Agora eles mataram mesmo pra intimidar. Estão dizendo que é melhor liberarmos a madeira do que morrer mais gente. Não sabemos o que fazer, porque não temos proteção nenhuma. O Estado não faz nada”, afirma o filho de Eusébio entrevistado por Sposati.

Madalena Borges, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Maranhão, alerta para a ausência e omissão do poder público, que tem ignorado as reiteradas denúncias dos crimes ambientais praticados por invasores dentro do território indígena. O trabalho realizado pelos Ka`apor conseguiu proteger a maior parte da área, freando as ações criminosas da exploração ilegal de madeira na Terra Indígena. “No entanto, essas ações vêm despertando a ira dos madeireiros exploradores do território Ka`apor, que ameaçam e intimidam os indígenas. Várias aldeias já foram invadidas em represália às ações de fiscalização”, explica Madalena. “Ainda assim, nenhum órgão se manifesta em defesa dos Ka`apor, que continuam suscetíveis a esse tipo de crime”.

Segundo o procurador Galtiênio Paulino, do Ministério Público Federal no Maranhão, “o delito é relacionado com a situação de conflito local com os madeireiros”. A Funai afirma que intensificou as operações contra a extração ilegal de madeira na região nos últimos cinco anos e que “orienta os indígenas a não abordarem os invasores diretamente”. Segundo os Ka’apor, porém, as ações de fiscalização pontuais não funcionam porque os madeireiros voltam depois.

O diretor de proteção ambiental do Ibama, Luciano de Meneses Evaristo, reconhece os limites das operações e avalia positivamente ações como as dos Ka`apor. “Eles protegem estas áreas. Por que eu tenho hoje um milhão de metros quadrados [preservados em Terras Indígenas]? Porque o índio está lá. Se ele não estivesse lá, já tinha ido”, afirma em entrevista a Ruy Sposati. Mas essa proteção pode custar a vida dos indígenas.

As ameaças aumentaram a partir de dezembro de 2014, depois que os Ka’apor fecharam o último ramal por onde a madeira era retirada da terra indígena. Foi quando um grupo de madeireiros invadiu e queimou plantações de uma aldeia. “Roubaram as roupas, as galinhas, queimaram os barracos, pisaram nos velhos”, conta J. Após o assassinato de Eusébio, a pressão sobre eles só aumentou. No dia 9 de maio de 2015 foi aberto outro ramal na terra indígena, onde foram avistados caminhões e tratores.

No dia 16 de maio do mesmo ano, uma liderança Ka`apor foi ameaçada. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Ka`apor sofreu um atentado quando visitou uma das oito áreas de proteção criadas na TI para impedir a ação de madeireiros, a aldeia Ypahurenda. De acordo com o relato dos indígenas, I.J.  estava sozinho, de motocicleta, quando passava pela mesma estrada onde Eusébio Ka`apor foi assassinado. Ele notou que havia dois homens o seguindo, também de motocicleta, mas que pararam nas proximidades de um povoado na quadra B6, município de Nova Olinda do Maranhão. No retorno, I.J. estava acompanhado de outros dois indígenas quando passou pelos suspeitos. Os homens, então, seguiram os três indígenas, “mas acabaram parando e atirando de longe, porque não imaginavam que I.J. voltaria com mais pessoas. Por sorte, ninguém se machucou”, diz uma liderança. Os Ka`apor contam que viram os dois homens portando uma arma pequena, “que não era espingarda e parecia um .38”.

No dia 25 de agosto de 2015, outro crime aconteceu na região. Desta vez, um ambientalista e conselheiro da Rebio do Gurupi foi assassinado na cidade de Bom Jardim (MA), próximo a onde morava. Raimundo Santos Rodrigues estava acompanhado da mulher, que foi atingida por tiros, de acordo com matéria do G1. Raimundo era conselheiro desde 2012. “Os madeireiros odiavam ele, porque ele os denunciava. Ele era bastante atuante na região, defendia a comunidade, participava do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Bom Jardim”, disse um companheiro de trabalho, que preferiu não ser identificado.

No dia 27 de agosto, dois homens foram presos, suspeitos pelo crime. A dupla foi capturada bem próximo à localidade onde o ambientalista foi morto. Ambos estavam armados com espingardas e facões. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas pela PF.

Segundo o superintendente Alexandre Saraiva, da Polícia Federal, os dois poderiam ser associados aos criminosos daquela região. “O assassinato ocorreu em razão das atividades dele como conselheiro da Reserva Biológica do Gurupi. Isso mostra que essas pessoas que o assassinaram são associadas aqueles criminosos ambientais que atuam fortemente naquela região”, afirmou o delegado. No dia seguinte, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – que administra a reserva biológica –, Cláudio Maretti, chegou ao Maranhão, onde se reuniu com a família do ambientalista, integrantes do ICMBio no Estado e com a Polícia Federal (PF), que solicitou autorização ao Ministério da Justiça para investigar o assassinato.

O ambientalista Raimundo Rodrigues afirmava que vinha sofrendo ameaças. Segundo ele, um fazendeiro teria ameaçado a ele e a outras dez famílias da região. “Ele estava incomodado com a Rebio para não roçar dentro da área de área biológica. Nós se sente (sic) ameaçado desde que ele chegou lá, tocando fogo nos barracos. Ele queria passar com carro por cima das crianças, dos adultos”, revelou Raimundo na época.

Em setembro de 2015, a Polícia Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mudaram as formas de combate à exploração ilegal de madeira na Reserva do Gurupi. A partir de então, os tratores e caminhões usados na extração ilegal passaram a ser incendiados pelas autoridades, de acordo com matéria do G1. Um caminhão equipado com catracas e cabos de aço para o transporte de madeira foi surpreendido no momento em que entrava na reserva biológica do Gurupi; por isso, foi destruído pelos fiscais. O motorista conseguiu fugir.

No mesmo mês, os Ka`apor também incrementaram suas formas de combater os madeireiros, instalando câmeras de segurança pela Reserva Alto Turiaçu, com o objetivo de flagrar a exploração ilegal de madeira no local. De acordo com a repórter Débora Lopes, o primeiro lugar selecionado para a instalação das câmeras foi uma das estradas da reserva. Segundo o filho de Eusébio, o cacique assassinado: “Nós estamos defendendo o que é nosso. Meu pai faleceu e eu estou aqui lutando junto com o meu povo. Somos todos parentes. Pra nós, território é importante porque temos vínculo com a mata. Somos o povo Ka’apor. Não vamos esquecer. Nosso espírito é muito próximo da floresta, e não da cidade.”

Miraté Ka`apor, também entrevistado pela repórter, afirmou: “Nós desarmamos eles. Falamos que aqui é terra indígena e não pode derrubar; que nós somos donos da floresta. Pegamos as coisas deles e mandamos embora pra não voltar mais aqui”. É também comum que os índios queimem caminhões, tratores e madeiras encontradas pelo caminho. Os ipês amarelos e roxos, árvores de maior valor comercial da reserva, costumam ser vendidos para outros países, sendo mais cobiçados pelos madeireiros.

De acordo com imagens analisadas por satélite pelo Greenpeace, 8% dos 530 mil hectares que pertencem aos indígenas já foram desmatados. A Funai (Fundação Nacional do Índio) considera a reserva o último mosaico de área verde do Estado do Maranhão e, embora justifique que intensificou sua participação nas operações de fiscalização pela região, não é um órgão bem visto pelos índios. Pelo contrário. “A Funai não está junto com a gente. Não aceitamos mais. A ideia deles, pra nós, é velha”, relata Miraté.

No ano de 2015, de setembro até o fim de dezembro, os povos indígenas do Maranhão viram grande parte dos remanescentes de floresta amazônica e Cerrado em seus territórios desaparecerem em incêndios florestais de grandes proporções. Em 8 de outubro de 2015, por meio do Decreto de N° 31.186, o Governo do Estado declarou situação de emergência em 11 Terras Indígenas (TI) – Araribóia, Geralda do Toco Preto, Cana Brava Guajajara, Governador, Krikati, Lagoa Comprida, Bacurizinho, Urucu, Juruá, Porquinhos e Canela – por conta dos diversos focos de fogo nelas registrados. Poucos meses depois, as TIs Alto Turiaçu, Awa e Caru, que formam o complexo Alto Turiaçu, também sofreram com novos incêndios, segundo o repórter Rafael Nakamura.

Segundo dados do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), somente da TI Araribóia foram consumidos pelo fogo 225 mil hectares (54,4% da área total), afetando uma população de aproximadamente 12 mil Guajajara-Tenetehara, além de grupos de Awa Guajá isolados. Já as TIs Alto Turiaçu, Awa e Caru perderam, respectivamente, 75 mil hectares (14,1% da área), 67 mil hectares (57,5%) e 11 mil hectares (6,3%).

Nesses incêndios, foram destruídas importantes áreas de caça e coleta, afetando diretamente a população Awa Guajá de recente contato e os grupos em isolamento voluntário, povos essencialmente caçadores-coletores, conforme afirma a liderança da aldeia Tiracambu, da TI Awa, na mesma reportagem: “A gente se preocupa com o fogo que queima a mata, o nosso ‘mercado’. Queimou bacuri, açaí, bacaba, pequi e ainda afastou os animais de caça, trazendo fome para nossas comunidades”, lamenta Xiparẽxa Awa Guajá. E complementa outra liderança Awa da mesma aldeia: “Por todas as comunidades que sofreram os impactos do incêndio, o episódio é lembrado com tristeza. Nós ficamos muito tristes de ver a mata queimando. Morreu um bocado de caça, capelão, macaco, jabuti, sapecou tudo. A mata queimando secou a água. Falta água para o animal beber, que também está morrendo de sede”, afirma Majakatỹ Awa Guajá.

Com a demora para a chegada das equipes dos órgãos oficiais, os indígenas organizaram suas próprias brigadas de combate ao fogo. Foi fundamental o trabalho de proteção e monitoramento de seus territórios feito pelos Awa Guajá, pelos brigadistas Guajajara-Tenetehara e pelos Guardiões da Floresta, um grupo de indígenas Guajarara que se uniram para a proteção de suas terras. Na medida em que os focos de fogo se intensificavam, eles foram ganhando reforços tanto dos órgãos competentes como de brigadistas indígenas de outros povos.

Por parte dos órgãos competentes, foram realizadas duas operações de combate aos incêndios. A primeira delas, a Operação Awa, realizada na TI Araribóia, contou com brigadistas do Prevfogo, bombeiros do Maranhão, combatentes do Exército brasileiro e servidores do Ibama e da Fundação Nacional do Índio (Funai). Na segunda, a Operação Alto Turiaçu, realizada nas TIs Caru, Awa e Alto Turiaçu, participaram os bombeiros do Maranhão e servidores do Ibama e da Funai, além do Batalhão de Polícia Ambiental do Estado, que atuou na segurança das equipes. Ambas operações contaram com o trabalho dos Guardiões da Floresta e dos brigadistas indígenas.

Entretanto, mesmo com o árduo esforço das brigadas, a extensão quilométrica dos incêndios só foi controlada com a chegada do período de chuvas. “No dia 31 de dezembro, me lembro como se fosse hoje, a chuva veio. Só um bombeiro, Tupã, foi quem conseguiu com a chuva apagar o fogo que muitos não estavam conseguindo”, afirma Cláudio Guajajara, coordenador dos Guardiões da Floresta na aldeia Maçaranduba, TI Caru, em entrevista a Rafael Nakamura.

Não só o fogo afetou as terras indígenas neste ano. Em 2015, o Maranhão acumulou 21,7 mil hectares (217 km²) de desmatamento, segundo os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Somados, os dados acumulados sobre o Estado desde 1988, ano de início da contagem do Prodes, chegam a 2,4 milhões de hectares (24 mil km²) de floresta amazônica desmatada. Atualmente, as terras indígenas concentram os poucos resquícios de floresta preservada no Maranhão, o que torna os efeitos dos incêndios ainda mais devastadores.

Nas áreas das aldeias, o saldo final também foi preocupante. “A aldeia Jussaral teve casas queimadas, algumas aldeias pro lado do município de Arame também chegaram a pegar fogo. O prejuízo das casas não foi o mais grave, o mais grave foi a queima da mata mesmo, que já estava muito vulnerável por conta da exploração ilegal de madeira. A perda maior foram as plantas, os animais, que muitos talvez a gente nem consiga recuperar”, diz Sonia Bone Guajajara, liderança da aldeia Lagoa Quieta, TI Araribóia, e coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Com o fogo se espalhando, a preocupação com os Awa Guajá em isolamento voluntário aumentou. Esses grupos, acuados diante das diversas pressões sobre seu território, possivelmente estiveram ainda mais fragilizados durante os incêndios. “Houve um momento de preocupação sobre o contato, porque o fogo começou a tomar uma proporção muito grande e a única área que restou da Araribóia era dos isolados. Além do fogo que vinha no sentido sul-norte, pra dentro da mata, tinha a pressão madeireira da parte norte da Araribóia, então eles estavam realmente ilhados”, relata Bruno Lima, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Awa Guajá (FPEAG) da Funai, em entrevista a Rafael Nakamura.

Com o risco que os isolados sofriam, a FPEAG traçou um plano de emergência caso uma situação de contato se tornasse inevitável. “A gente acionou um plano de contingência pensando principalmente nos riscos de saúde. Levamos oito intérpretes da aldeia Tiracambu para a região de combate ao fogo e eles sempre ficavam junto com a equipe. Os Guardiões da Floresta atuaram em parceria com a CGIIRC [Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato], e nós abrimos uma clareira e algumas picadas na mata. Caso houvesse um contato, a recomendação era usar a área de escape para não levá-los para dentro das bases, que estavam em condições insalubres, com muitas equipes de reportagem”, completa o coordenador da FPEAG na mesma reportagem.

Apesar do contato forçado não ter sido necessário, Bruno Lima explica que o risco continuava porque a porção restante do território era muito pequena para os isolados, sendo a área de interesse da exploração ilegal por ser um dos poucos lugares onde sobrou madeira na região. Além disso, no pós-fogo, os mesmos problemas pelos quais passam os indígenas aldeados valem para os grupos isolados. “Os parentes isolados também estão passando por problemas de fome. A caça para eles está difícil como para nós”, comenta Itaxĩ Awa Guajá, cacique da aldeia Awa, TI Caru. “Eu vi vara de porcão só com três. Nunca tinha visto porcão assim, acho que queimou tudo. Estamos sem água para beber, só conseguimos água cavando poço. Estamos bebendo uma água branca, parece leite”, completa Tatuxa’a Awa Guajá, outro liderança da mesma aldeia.

No dia 16 de outubro do mesmo ano, durante operação na TI Araribóia, a equipe do Ibama sofreu um ataque dentro da terra indígena, na região do município de Arame. A equipe sobrevoava o local quando avistou atividade madeireira ilegal com três caminhões e um trator. Os agentes pousaram e foram alvejados. Roberto Cabral, agente ambiental federal, foi atingido no braço direito por um tiro.

Outro episódio ocorreu na TI Alto Turiaçu, enquanto uma equipe estava sendo transportada para combater o fogo. Como utilizavam um veículo de fiscalização do Ibama, os brigadistas foram confundidos e atacados. “Nos deparamos com um caminhão carregado de madeira saindo da TI Alto Turiaçu. Esse caminhão passa e joga o veículo contra o carro da brigada, que estava caracterizado como fiscalização. Se o motorista não joga para a direita, teria levado o carro com tudo”, conta Kurtis François, servidor do PrevFogo, que coordenou a Operação Alto Turiaçu. Na opinião de Kurtis, essa foi a maior dificuldade nas TIs Alto Turiaçu, Caru e Awa. “O grande problemas nessas áreas eram os conflitos com madeireiros”, relata.

Existe a suspeita de que, com o fogo já iniciado, os madeireiros teriam ajudado a espalhar os focos de incêndios, uma ação em represália às ações de fiscalização e proteção do território que os próprios indígenas passaram a fazer em suas terras. Em entrevista ao Instituto Socioambiental, Uiara Garcia, antropólogo que atua há muitos anos na região, afirmou: “Isso me parece uma evidência de que a maior parte do incêndio foi criminosa. Logo que a situação é controlada, de repente o fogo volta; como se alguém tivesse ido lá e ateado fogo. Esse alguém eu imagino que sejam pessoas que foram afetadas pela desintrusão da TI Awa.”

De acordo com o Instituto Socioambiental, em 2015, foram contabilizados 684 focos de incêndio na TI Alto Turiaçu, 718 na TI Awa e 76 na Caru. O alto índice de desmatamentos, que circundam e invadem as Terras Indígenas, aumenta a incidência de queimadas na região. Para Antônio Wilson, os incêndios são fruto de ação criminosa: “Eles [os madeireiros] vão usar todo o tipo de estratégia ruim pra tirar a madeira, botar fogo em tudo, por exemplo. Nós nunca vimos um incêndio dessa dimensão”, informa. Relatos atestam que o fogo apareceu em regiões próximas às comunidades e que, quando se apagava um foco de incêndio, logo se iniciava outro ao lado. Indígenas contam que, quando estavam caminhando pelas roças na aldeia Maçaranduba, ouviram barulhos de passos e instantes depois surgiu o fogo.

Mantendo a atenção dos órgãos responsáveis nos focos de incêndio, era possível para os madeireiros atuar nas outras regiões sem serem incomodados, e isso foi percebido durante as operações. “A estratégia simples de desviar a atenção para dar continuidade à retirada ilegal de madeira faz parte de uma engrenagem muito maior. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2015 os incêndios florestais no país cresceram 27,5% em relação ao ano anterior. O Maranhão está entre os três estados recordistas, com 30.066 queimadas em 2015, atrás apenas do Mato Grosso (32.984) e Pará (44.794)”, afirma Alberto Setzer.

Em entrevista para a Folha de S. Paulo, Alberto Setzer, coordenador do núcleo de queimadas do Inpe, cita o aumento no preço da carne como agravante para o aumento das queimadas. A matéria menciona ainda como outro agravante a produção de soja e milho na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde o aumento nas ocorrências de queimada foi de 37,9%, e onde a produção de grãos para exportação ganhou novo impulso com o plano homônimo, lançado em 2015 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para o incremento e desenvolvimento da atividade agropecuária na região.

“O corte de madeira é só o primeiro passo para o desmatamento, logo após se queima tudo o que sobrou. Em poucos dias o terreno está limpo para que sejam plantadas sementes de soja transgênica ou para o pasto de gado”. A reportagem cita o relatório do Banco Mundial, segundo o qual a exploração ilegal de madeira renderia US$ 15 bilhões ao ano e estaria frequentemente ligada ao crime organizado.

No Maranhão, a atividade madeireira e a presença de serrarias se destacam nos municípios de Buriticupu, Zé Doca, Centro do Guilherme, Amarante do Maranhão e Grajaú, estes dois últimos considerados como prioritários no Estado, segundo o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm). As atividades ilegais, uma vez esgotadas as áreas de exploração municipais, avançam para o conjunto de Terras Indígenas dos povos Guajajara-Tenetehara, Awa Guajá, Ka`apor, Gavião Pykobjê, Canela-Apanjekrá, Canela-Ramkokamekrá, além da Reserva Biológica do Gurupi, que faz fronteira com as TIs Caru e Awa.

Para o Guardião da Floresta Cláudio Guajajara, a prevenção dos incêndios nas terras indígenas passa pela tarefa de acabar com a atividade madeireira ilegal. “As autoridades precisam pensar uma maneira de combater fora das TIs as serrarias ilegais. Quem extrai madeira aqui são os bandidos, eles usam guias falsas de autorização para transportar madeira. Você vai no Buriti e vê as serrarias, onde não se enxerga nem o telhado de tanta madeira. Todas lotadas de ipê, de maçaranduba. Nós sabemos que sai tudo de dentro da terra indígena”, denuncia ao repórter Rafael Nakamura. Enquanto não chega o fim da exploração ilegal da floresta, os indígenas seguem protegendo seus territórios da maneira que podem. “Os karaí estão tirando madeira até da nossa área de aldeia. Estamos lutando para trazer ajuda, para filmar, brigando contra esses karaí. O karaí rouba, mas estamos fazendo ritual para cuidarmos dessa mata”, conta o cacique Xiparẽxa’a Awa Guajá, em reportagem do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).

No dia 20 de dezembro de 2016, ocorreram grandes perdas territoriais para os povos indígenas. De acordo com matéria publicada pela Folha de S. Paulo, indígenas atearam fogo a um caminhão e duas motocicletas de madeireiros que faziam extração ilegal de madeira na região, última fronteira a leste da floresta amazônica. Como retaliação, dois indígenas foram baleados e um espancado pelos madeireiros. Segundo o antropólogo José Mendes, que acompanha os Ka’apor, a prática de colocar fogo em veículos de madeireiros é comum para evitar que eles voltem a trabalhar.

Os indígenas apreenderam sete pessoas para entregá-las ao Ibama, de acordo com a Funai, mas uma delas conseguiu fugir até o povoado de Nova Conquista, próximo ao município de Zé Doca. Depois disso, 20 homens armados invadiram a terra indígena e dispararam contra o grupo, atingindo dois, segundo a Fundação, que conseguiram fugir pela mata. Os homens seguiram para a aldeia Turizinho, onde, de acordo com a Funai, fizeram um indígena de refém e espancaram-no. Alguns moradores desapareceram, segundo o órgão.

Os índios descobriram a extração de madeira quando faziam o controle dos focos de incêndio, que atingiam a região com maior intensidade desde agosto. Até aquele momento, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou 29,2 mil pontos de queimadas no Maranhão em 2015, 13% a mais que em 2014. Só em dezembro foram 2.794 queimadas no Estado.

De acordo com a Agência Pública de notícias, entre 2013 e 2016, os indígenas Ka`apor fecharam 14 ramais (estradas improvisadas) usados pelos invasores, e 105 caminhões que transportavam madeira ilegal foram queimados. Além disso, de acordo com os estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre agosto de 2015 e agosto de 2016 foram 1.117 focos de calor na TI Caru, 1.126 na TI Awa e 2.017 na TI Alto Turiaçu. A Rebio Gurupi alcançou uma marca ainda mais alta de focos de calor: 8.779.

Em julho de 2017, os Ka`apor enviaram uma carta de apoio aos Munduruku, que ocuparam o canteiro de obras de hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires (para mais informações ver a ficha aqui), expressando solidariedade contra ameaças à integridade de seus territórios. Na carta, afirmavam:

“Nosso futuro não está na cidade, nem venda de madeira e estacas, nem pastos, nem roças grandes, nem agronegócio, nem garimpo, nem barragem, nem projetos do governo. Nossa floresta, nossos rios, nossa terra são sagrados para nós. O mais importante agora é nossos Planos de Vida que vão guiar nossos passos para o bem viver nos nossos territórios.”

Esse apoio se deu, de acordo com a agência A Pública, pela urgência das questões enfrentadas nos territórios onde vivem – assediados por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais com laços no poder municipal e na polícia –, somada à omissão dos órgãos fiscalizadores do governo federal, que obriga povos como os Ka`apor e os Munduruku a se fortalecerem e se organizarem para enfrentar uma luta desigual em que não raro o Estado se afigura como inimigo – caso dos Munduruku – ou como aliado dos agressores, como ocorreu com os Ka`apor. A autonomia em relação à defesa e demarcação do território surge nesse quadro de enfrentamento de ameaças, assassinatos e conflitos com os criminosos.

Em janeiro de 2018, os Guardiões da Floresta encontraram 20 pessoas derrubando árvores e caçando dentro do território, na região do município de Centro do Guilherme. No mesmo mês, 30 pessoas armadas tentaram invadir a área criada por Sarapó, uma liderança local, ameaçando queimar todas as casas. Na aldeia vivem 43 Ka`apor, entre mulheres, homens e crianças de todas as idades. Segundo denunciam os povos indígenas, os madeireiros retomaram quatro ramais dentro da Alto Turiaçu. “Se acontecer algum conflito e coisa ruim, o culpado vai ser o governo e os próprios madeireiros”, afirmaram os Ka’poor em nota do dia 20 de janeiro de 2018.

Em 2019, as invasões à Terra Indígena Alto Turiaçu continuaram. Em abril, nova ação de vigilância foi realizada pelos Awa e Guajajara, em parceria com o Governo do Estado. De acordo com a Funai, a operação destruiu uma serraria clandestina e apreendeu armas e produtos de pesca predatória no Rio Pindaré. A fiscalização se estendeu até o dia 13 de maio e contou com apoio de oito policiais militares, num total de 36 pessoas envolvidas. Como parte das ações, a Funai tem realizado reuniões com as lideranças indígenas locais para planejamento e execução do Plano de Ocupação e Proteção da Terra Indígena Awa-Guajá.

A medida deve definir estratégias de ocupação e defesa dos territórios. Ao longo dos últimos anos, a ocupação ilegal de não indígenas resultou no desmatamento de mais de 30% da floresta nativa no território indígena, conforme informações do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Bruno de Lima e Silva, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Awa, afirmou: “A operação visa não só salvaguardar os direitos à terra e à vida do Povo Awa, garantidos na Constituição Federal. Mas também cumpre o papel de se pensar estrategicamente a ocupação da Terra Indígena, a proteção aos índios isolados e do corredor de floresta nativa da Amazônia Legal que faz parte do Complexo do Gurupi”.

 

Última atualização: 11 set. 2019.

Cronologia

25 de julho 1961 – Criação da Reserva Florestal Gurupi.

1982 – Início da construção da Estrada de Ferro de Carajás (EFC).

1982 – Homologação e registro de imóveis da TI Alto Turiaçu através do Decreto n° 88.002.

1984 – Finalização da EFC.

Final da década de 1980 – Primeiras invasões das áreas indígenas por madeireiros.

1999 – Primeiras informações oficiais de invasões da TI pelos peões das serrarias.

Fevereiro de 2008 – Denúncia é encaminhada ao MPF registrando a entrada de madeireiros pelas fronteiras dos municípios de Maracaçumé, Centro do Guilherme, Santa Luzia do Paruá e Zé Doca.

2008 – Ibama intensifica repressão ao desmatamento no Pará, aumentando pressão sobre as TIs e unidades de conservação do Maranhão.

2008 – Início da Operação Arco de Fogo, da Polícia Federal, para combate à extração ilegal de madeira no Maranhão.

16 de maio de 2010 – Rubinet Ka`apor, de 38 anos, da aldeia Axiguirenda, é assassinado a pauladas por moradores da cidade de Centro do Guilherme.

18 a20 de maio de 2010 – XXXII Assembleia Regional do CIMI/MA.

27 de maio de 2010 – Índios Ka`apor denunciam assassinato e invasões à Procuradoria Geral da República e à Polícia Federal em São Luiz.

Outubro de 2010 – Ministério Público Federal no Maranhão recomenda à Funai o reforço da fiscalização das TIs no Estado, incluindo a TI Alto Turiaçu.

2010 – Embargo da serraria RN Santos Moraes.

Março de 2011 – Assassinato de Tazirã Ka`apor, 20 anos, atropelado por um caminhão madeireiro.

01 de setembro de 2011 – Ibama realiza operação de combate à extração ilegal de madeira da Reserva Biológica do Gurupi e das TIs Awa, Carú, Araribóia e Alto Turiaçu.

15 de setembro de 2011 – Mais de 500 lideranças indígenas se reúnem na aldeia de Lagoa Grande, TI Araribóia, para debater a insatisfação com a atuação da Funai na região.

03 de outubro de 2011 – Ka`apor e servidores da saúde denunciam situação de ameaça e falta de apoio do poder público na TI Alto Turiaçu.

Dezembro de 2011 – Operação Arco de Fogo obtém informações de que a prefeitura do município de Maranhãozinho estaria cobrando pedágio e autorizando a entrada de madeireiros na TI.

25 de abril de 2012 – Lançamento da Campanha Mundial pela Sobrevivência dos Índios Awa-Guajá pela organização Survival International.

17 de agosto de 2012 – Carta dos movimentos sociais do Maranhão, destinada ao Desembargador Carlos Moreira Alves, denuncia que a TI também sofre impactos das obras da Estrada de Ferro Carajás, da Vale S.A.

12 e 13 de setembro de 2012 – Polícia Federal realiza ação de combate à extração ilegal de madeira nas terras indígenas próximas ao município de Maranhãozinho.

Dezembro de 2012 – Polícia Federal indicia o então prefeito de Maranhãozinho, Josimar Cunha (PR), e mais dez pessoas sob suspeita de participação em atividades madeireiras ilegais.

30 de maio de 2013 – Novas denúncias são feitas pelos próprios indígenas sobre a situação do povo Ka`apor da TI Alto Turiaçu.

01 a 04 de junho de 2013 – Povo Ka`apor da TI Alto Turiaçu divulga nota de insatisfação quanto à atuação do poder público, informando que vão, eles mesmos, defender seu território.

Junho de 2013 – Exército Brasileiro e Ibama iniciam operação Hiléia Pátria dentro do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental – PNAPA/2013.

26 de agosto de 2013 – Ibama divulga primeiro balanço da operação.

Setembro de 2013 – Novo balanço da operação Hiléia Pátria é divulgado pelo Ibama.

28 de novembro de 2013 – Incra publica edital para aquisição de terras em Pindaré e Gurupi a fim de reassentar famílias de posseiros existentes no interior da TI Awa-Guajá.

Dezembro de 2013 – Operação Hiléia Pátria é encerrada.

06 de janeiro de 2014 – União inicia notificação de não índios para que se retirem da TI Awa Guajá. Operação faz parte de etapa de desintrusão do processo de demarcação da TI.

07 de janeiro de 2014 – Índios Ka’apor são emboscados na TI Alto Turiaçu.

03 de março de 2014 – Povo Ka’apor expulsa madeireiros de suas terras.

Abril de 2014 – Operação de desintrusão da TI Awa-Guajá é oficialmente encerrada.

Maio de 2014 – Índios Ka`apor denunciam novas invasões de suas terras e a conivência das prefeituras locais com a extração ilegal de madeira.

Junho de 2014 – Madeireiros ameaçam novamente os índios  Ka`apor .

Dezembro de 2014 – Ka`apor solicitam inclusão de quatro indígenas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos

26 de abril de 2015 – Assassinato da liderança Eusébio Ka`apor.

16 de maio de 2015 – Mais uma liderança Ka`apor é ameaçada de morte.

25 de agosto de 2015 – Ambientalista e conselheiro da Reserva Biológica do Guripi, Raimundo Santos Rodrigues, é assassinado.

Setembro de 2015 – Nova ação da PF e do Ibama para combate à extração ilegal de madeira.

Setembro de 2015 – Início do maior incêndio na região.

8 de outubro de 2015 – Governo do Estado decreta situação de emergência em 11 Terras Indígenas (TIs) – Araribóia, Geralda do Toco Preto, Cana Brava Guajajara, Governador, Krikati, Lagoa Comprida, Bacurizinho, Urucu, Juruá, Porquinhos e Canela.

20 de dezembro de 2015 – Ka`apor ateiam fogo a um caminhão e duas motocicletas de madeireiros que faziam extração ilegal de madeira na região.

31 de dezembro de 2015 – Início das chuvas na região controla o fogo.

julho de 2017 – Ka`apor enviam carta de apoio aos Munduruku expressando solidariedade.

Janeiro de 2018 – Guardiões da floresta encontram 20 pessoas derrubando árvores e caçando dentro do território, na região do município de Centro do Guilherme.

Abril a maio de 2019 – Ação de vigilância realizada pelos Awa e Guajajara, em parceria com o Governo do Estado, destrói uma serraria e apreende armas e produtos de caça predatória.

 

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