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Empreendimentos agropecuários marcam ameaças, grilagem, expulsões violentas, desmatamento e destruição de territórios indígenas e tradicionais
UF: PI
Município Atingido: Uruçuí (PI)
Outros Municípios: Baixa Grande do Ribeiro (PI), Bom Jesus (PI), Currais (PI), Gilbués (PI), Palmeira do Piauí (PI), Ribeiro Gonçalves (PI), Santa Filomena (PI)
População: Agricultores familiares, Povos indígenas
Atividades Geradoras do Conflito: Agroindústria, Agrotóxicos, Atuação de entidades governamentais, Especulação imobiliária, Monoculturas, Transgênicos
Impactos Socioambientais: Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas, Desmatamento e/ou queimada, Falta / irregularidade na autorização ou licenciamento ambiental, Falta / irregularidade na demarcação de território tradicional, Poluição de recurso hídrico, Poluição do solo
Danos à Saúde: Contaminação por agrotóxico, Piora na qualidade de vida, Violência – ameaça, Violência – coação física
Síntese
A partir da primeira década de 1990, a economia do Piauí foi marcada pela expansão da sojicultura e pela especulação fundiária. Esse processo foi impulsionado por políticas em diversas escalas, iniciadas na década de 1970, como o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (Polo Nordeste) e os Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor) e o Fundo de Investimentos Setoriais (Fiset), que favoreceram a ocupação dos Cerrados por grandes projetos agropecuários (Silva, 2014; Crispim, 2021).
O sudoeste piauiense tornou-se atrativo para produtores de outras regiões em razão do baixo preço das terras, dos incentivos fiscais estaduais e federais, e das condições naturais favoráveis à mecanização, pela presença de chapadões (Aguiar; Monteiro, 2005), consolidando municípios como Uruçuí (PI) como polos da agropecuária moderna (Silva, 2014).
A consolidação desse modelo produtivo intensificou o desmatamento do Cerrado e o uso de agrotóxicos. A instalação da empresa Canel Central Agrícola, em 1988, e da unidade da Bunge Alimentos, em 2002, ampliou a produção voltada à exportação, associando a cadeia da soja à degradação ambiental (Ramos, 2021).
Uruçuí (PI) passou a integrar a lista de municípios prioritários para o controle do desmatamento (Narita; Teles; Veloso, 2013), enquanto estudos apontavam elevado risco de contaminação ambiental na bacia do rio Uruçuí-Preto (Lima et al., 2017) e graves impactos à saúde, como o aumento de abortos espontâneos, o baixo peso ao nascer e a contaminação do leite materno por glifosato (Lima, 2017; Felizardo, 2018).
Paralelamente, a expansão agrícola aprofundou os conflitos fundiários com os povos indígenas, especialmente os Akroá-Gamela e os Gueguê do Sangue. De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022, 262 pessoas autodeclaradas indígenas viviam em Uruçuí, organizados entre os povos Gueguê e os Akroá-Gamela (Associação Nacional de Ação Indigenista, 2024). Desde a década de 1970, a implantação de empreendimentos agropecuários provocou expulsões violentas e a destruição de territórios tradicionais no sudoeste piauiense (Lopes, 2025).
A abertura do processo de identificação territorial na Funai (processo Funai nº08620.012443/2018-95), em 2018, não impediu a intensificação das ameaças, da grilagem e do desmatamento nas comunidades (Povo Akroá-Gamela, 2023). A morosidade da Funai na condução do processo de demarcação levou o Ministério Público Federal no Piauí (MPF/PI), em 2024, a entrar com a Ação Civil Pública (ACP) nº 0801250-83.2024.8.18.0077 para pressionar pelo processo de demarcação, enquanto denúncias indicavam a expansão da grilagem sobre os territórios tradicionais (Cimi, 2024a; Bronoski, 2026).
Contexto Ampliado
O estado do Piauí, desde a década de 1990, é considerado uma das últimas fronteiras agrícolas do Brasil. Junto com os estados do Maranhão, Tocantins e Bahia, desde 2015 o Piauí faz parte da área conhecida por Matopiba – acrônimo dos estados supracitados –, que representa a maior área de especulação imobiliária agrícola e expansão do agronegócio da soja no Brasil. Conforme essa fronteira se expande, observamos via de regra a intensificação da contaminação por agrotóxicos, do desmatamento do Cerrado e da grilagem de terras nesses estados.
Até a década de 1970, o Piauí era considerado um rincão pouco explorado pelo Estado brasileiro e pelas iniciativas privadas nacionais e internacionais. Em 1970, no entanto, iniciou-se o processo de colonização e implantação de megaprojetos agropecuários no Cerrado, sobretudo nas áreas da cajucultura e da pecuária (Silva, 2014).
Além de expressivos recursos oferecidos pela Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1974 foram lançados o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), concebido para promover a colonização e introdução de tecnologias agrícolas modernas na região; e o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (Polo Nordeste), que concentrava recursos e ações integradas em áreas potenciais com finalidade de promover desenvolvimento e infraestrutura (Crispim, 2021).
Em 12 de dezembro de 1974, o Decreto Lei nº 1.376 criou também o Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor) e o Fundo de Investimentos Setoriais (Fiset), que objetivavam desenvolver as regiões e os setores considerados frágeis economicamente (Crispim, 2021).
Dessa forma, o sudoeste piauiense se tornou área de atração dos chamados projeteiros, que foram para os Cerrados piauienses principalmente devido ao “esgotamento do solo em outras regiões do país; ao preço extremamente baixo das terras; à proximidade do mercado externo; à existência de solos com características edáficas favoráveis à mecanização; aos baixos salários da mão-de-obra local; e aos recursos governamentais facilitados, tais como incentivos fiscais e financeiros.” (Aguiar; Monteiro, 2005, p. 4)
Entre os municípios marcados pela expansão agropecuária, desde a década de 1970 destaca-se o município de Uruçuí (PI), a 459 quilômetros de Teresina, sediando desde os princípios da década de 2000 a maior produção de grãos do estado. Segundo Silva (2014), os projeteiros foram “primeiros grandes produtores adeptos da moderna agropecuária que ali chegaram na década de 1970, inicialmente no município de Uruçuí” (Silva, 2014, p. 72). A iniciativa, que consistiria no investimento na cajucultura e na pecuária, resultou em ocupação especulativa das terras.
Em 1973, a implantação da Empresa Parnaíba Agropastoril em Santo Antônio, território ancestral do povo indígena Akroá-Gamela, provocou a expulsão dos indígenas e tornou-se um marco significativo do que a questão fundiária viria a se tornar no município de Uruçuí (PI). Segundo relato da cacica Maria da Conceição Sousa, também conhecida como Cacica Dan, famílias inteiras de Akroá-Gamela fugiram de suas terras, cruzando o rio Uruçuí-Preto, ameaçados pela violência sistemática dos grileiros movidos pelo avanço da fronteira (Lopes, 2025). Segundo Lopes:
“Os anos 1960 e 1970 marcam o auge dessa violência sistemática, quando o avanço da fronteira agrícola se fez com cartuchos de espingarda e latifúndios demarcados a fogo. As margens do rio Uruçuí-Preto, longe de serem ‘terras devolutas’ como alegavam os grileiros, eram o cenário de um êxodo forçado: famílias inteiras de Akroá-Gamella cruzando o rio fugindo da morte. O método era sempre o mesmo – queimadas nas roças, tiros para o alto, ameaças de pistoleiros, até que o terror fizesse seu trabalho e as famílias abandonassem suas terras.” (Lopes, 2025)
Em 26 de julho de 1988, outro marco importante foi a fundação da empresa Canel Central Agrícola Nova Era Ltda, em Uruçuí (PI), de propriedade de Amilton Bortolozzo, Helio Segnini Filho, Jose Roberto Bortolozzo e Sergio Luis Bortolozzo. A empresa tem como principal atividade o cultivo de soja e é conhecida pela utilização indiscriminada de agrotóxicos (Ramos, 2021).
Na década de 1990, vemos a intensificação da implantação de grandes projetos para a produção de grãos voltados à exportação, sobretudo a soja. Em 2002, a instalação de uma fábrica de esmagamento de soja da multinacional Bunge Alimentos desencadeou uma expansão da sojicultura no sudoeste piauiense e um aumento expressivo da exportação de soja no Piauí (Ramos, 2021).
Desde o princípio dos anos 2000, a Bunge Alimentos e a Canel se tornaram parceiras, com grande parte da produção da Canel sendo processada e exportada pela Bunge. Em 2006, reforçando a parceria entre as empresas, a Bunge ofereceu o prêmio “Destaque Bunge Agricultor Brasileiro” à Canel Central Agrícola (Ramos, 2021).
Segundo Ramos (2021), o Cerrado perdeu em 2021 cerca de 734.010 hectares de sua vegetação nativa, e a soja foi o principal produto a causar a devastação do bioma. De acordo com o levantamento divulgado por Ramos, entre os principais responsáveis, a Bunge Alimentos e a multinacional Casino figuram em primeiro lugar nas cadeias comerciais da devastação.
No Piauí, o Cerrado ocupa um total de 93.424 km², sendo que 10% dessa área já havia sido desmatada até 2010 (Narita, Teles, Veloso, 2013). Em 2012, Uruçuí (PI) foi integrado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) na lista dos 52 municípios prioritários para monitoramento e controle do desmatamento ilegal, por meio da Portaria MMA nº 97/2012. Além de Uruçuí, no sudoeste do estado, Baixa Grande do Ribeiro (PI), Currais (PI), Palmeira do Piauí (PI), Ribeiro Gonçalves (PI) e Santa Filomena (PI) também foram incorporados à lista (Narita, Teles, Veloso, 2013).
Em 2013, Sergio Luis Bortolozzo, sócio da Canel e então vice-presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Piauí (Faepi), defendeu publicamente a aplicação do inseticida benzonato de emamectina, proibido em outros estados brasileiros, para combater uma espécie de lagarta que ameaçava destruir as plantações (Ramos, 2021). Mesmo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde (MS) advertindo sobre seu uso, Bortolozzo manteve seu posicionamento de defensor da utilização dos agrotóxicos ilegais em outras regiões.
Em 2017, o sanitarista Inácio Pereira Lima publicou sua dissertação de Mestrado, na Universidade Federal do Piauí (UFPI), sobre a contaminação pelo agrotóxico glifosato nos municípios de Oeiras (PI) e Uruçuí (PI). Sua estimativa foi de que uma em cada quatro grávidas em Uruçuí (PI) tenha sofrido abordo, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase o dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado (Lima, 2017).
Sua pesquisa também mostrou que, no caso das mulheres estudadas, a contaminação era indireta – não por trabalhar diretamente com o agrotóxico nas plantações, mas por tarefas como cozinhar e limpar nas fazendas ou pela ingestão do herbicida pela água e por alimentos contaminados (Lima, 2017). Portanto, sua pesquisa revelou a alta contaminação do leite materno pelo agrotóxico glifosato, comprovando a gravidade à saúde da criança e da mulher.
Além disso, em análise de um trecho da bacia hidrográfica do rio Uruçuí-Preto, verificaram que cerca de 49,36% (1.169 km²) do trecho não apresentavam risco de contaminação ambiental por agrotóxicos, mas 39,32% (931,15km²) apresentavam médio risco de contaminação e 11,31% (267,95km²) detinham alto risco de contaminação. As áreas de maior risco ambiental eram aquelas dispostas sobre as áreas de cultivo agrícola. Dessa forma, a contaminação por agrotóxicos em Uruçuí também podia ocorrer pela via ambiental (Lima et al, 2017).
Em setembro de 2018, uma reportagem de Nayara Felizardo, no portal The Intercept Brasil, denunciou os efeitos do glifosato em plantações de soja em Uruçuí (PI). Na reportagem, Felizardo afirma:
“Conheci a história de Maria Félix Costa Guimarães na maternidade do hospital regional Tibério Nunes, na cidade de Floriano. É para lá que as mulheres de Uruçuí são encaminhadas quando têm problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, já havia sido identificada a má-formação no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a Bíblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o médico para fazer um ultrassom e se certificar de que não seria necessária a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).” (Felizardo, 2018)
Segundo a autora, pelos registros do hospital regional de Uruçuí (PI), os abortos costumam ocorrer em mulheres entre 20 e 30 anos e que chegam até a 10ª semana de gestação. Além disso, segundo enfermeira do hospital, “são muitas as mulheres que chegam com sangramento ou já com o ultrassom mostrando que o feto não tem batimentos cardíacos. A maioria desses abortos são espontâneos” (Felizardo, 2018).
Outro ponto mencionado na investigação foi que os efeitos dos agrotóxicos se tornaram um “tabu” na cidade. Os moradores da cidade são desencorajados a relatar para os profissionais de saúde quando sentem os sintomas da contaminação por agrotóxico. Segundo Felizardo (2018):
“Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros não são simpáticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: ‘Não fale com eles’. As fazendas têm seguranças armados. Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo é compartilhado. Ninguém fala para os profissionais de saúde quando sente os efeitos do agrotóxico no organismo, e dificilmente o hospital é procurado. Se a intoxicação for mais grave, os trabalhadores escondem dos médicos sua possível causa. É muito difícil detectar laboratorialmente doenças causadas por agrotóxico. Se o paciente não fala, muitas internações provocadas pelos químicos não caem na conta deles. A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas têm medo de perder o emprego. ‘Se eles disserem que estão doentes por causa dos agrotóxicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores têm mais medo de demissão do que de uma doença.’” (Felizardo, 2018)
Em 2018, o povo Akroá-Gamela do sudoeste piauiense, distribuídos entre os municípios de Baixa Grande do Ribeiro (PI), Bom Jesus (PI), Currais (PI), Gilbués (PI), Santa Filomena (PI) e Uruçuí (PI), entrou com ação na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para abrir o processo de identificação e delimitação de seu território (processo Funai nº 08620.012443/2018-95) (Associação Nacional de Ação Indigenista – Anai, 2025). Em Uruçuí (PI), além da presença dos Akroá-Gamela, na comunidade de Baixa Funda, também estão os indígenas Gueguê, na comunidade do Sangue (Nascimento, 2023).
No Piauí, a narrativa sobre a inexistência de povos indígenas no estado perdurou até a promulgação da Lei Estadual nº 7.294/2019, que estabeleceu a Política Estadual de Regularização Fundiária, determinando que o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) trabalhasse na regularização de 19 áreas indígenas. Entre elas, oito seriam destinadas aos indígenas Akroá-Gamela distribuídos pelo sudoeste do estado (Nascimento, 2023). Segundo Nascimento:
“Desses processos foram concluídos apenas três nas comunidades Serra Grande, em Queimada Nova – etnia Kariri – no Sudeste do Piauí no limite com Pernambuco; Canto da Várzea, Oiticica, Jenipapeiro, Itacoatiara Piripiri, Tucuns, em Piripiri, e Nazaré, em Lagoa de São Francisco – etnia Tabajaras – no Norte do Estado. No entanto, os demais processos das comunidades Sangue em Uruçuí – povo Gueguê; Baixa Funda – Uruçuí – povo Akroá-Gamela; Morro D’Água I e II – Baixa Grande do Ribeiro; Laranjeiras – Currais; Barra do Correntim – Bom Jesus; e Vão do Vico – Santa Filomena, entre outros – etnia Gamela – no extremo Sul do Piauí, estão em compasso de espera, faltando documentação que embasem a conclusão desses processos.” (Nascimento, 2023)
Em junho de 2019, Sérgio Bortolozzo, da Canel, foi convidado para uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) com o tema do uso indiscriminado de agrotóxicos no estado. Na ocasião, Bortolozzo defendeu a necessidade do uso de glifosato para proporcionar a produção. Segundo ele, assim como uma pessoa precisa de remédios, a produção precisaria de agrotóxicos (Ramos, 2021).
Também em 2019, os Akroá-Gamela, organizados pela cacica Maria da Conceição Sousa (Dan), assinaram um abaixo-assinado para a Funai. No documento, foi descrito o histórico de violência sofrido por seu povo e a resistência das gerações que mantiveram viva a identidade Akroá-Gamela. O abaixo-assinado reforçava sua identidade indígena e solicitava que a Funai desse andamento ao processo de demarcação de seu território. No documento, declaravam:
“Nós, abaixo-assinados, lavradores e residentes na comunidade Baixa Funda viemos afirmar a nossa identidade indígena e solicitar o acompanhamento da FUNAI, direito assegurado na legislação brasileira. Historicamente, temos sido expulsos do nosso território indígena e tivemos que nos mudar para outra área de terra, que fica pareada à nossa, separada apenas pelo rio que fica no meio. Novamente estamos sendo expulsos pelos latifundiários. Informamos que os indígenas caboclos, como somos conhecidos, vivem em Riachão dos Paulo, Riachão dos Castro, Baixa Grande do Ribeiro, Palmeira do Piauí e Uruçuí, no estado do Piauí. Reafirmamos que estamos sofrendo um processo de expulsão e por esta razão nossos parentes têm se refugiado em outras comunidades, pois os latifundiários já chegaram desmatando e queimando toda a lavoura que havia em nossas terras. Os indígenas têm sido expulsos sem a chance de se defender ou explicar a importância de permanecer no território ancestral. No ano de 1995, algumas famílias voltaram a ocupar suas terras e novamente foram expulsas através de ameaça por parte da polícia e dos latifundiários, vários crimes bárbaros foram cometidos dentro de nosso território. No ano de 2012, mataram e queimaram um dos nossos parentes. Temos todas as provas necessárias para comprovar o nosso pertencimento étnico. Diante do exposto, solicitamos com urgência a presença da FUNAI para que possamos dialogar, contar nossa história e avançarmos na organização do nosso povo. Devido a situação de conflito, pedimos em regime de emergência, que sejam adotadas as medidas necessárias à demarcação de nossa terra, pois esse é um direito estabelecido na Constituição para os povos indígenas.” (Lopes, 2025)
Em 27 de agosto de 2020, o Piauí deu mais um passo no reconhecimento dos povos indígenas no estado. Nesse dia, foi promulgada a Lei Estadual Lei nº 7.389/2020, reconhecendo formal e expressamente a existência de povos indígenas no Piauí como cidadãos de direito (Nascimento, 2023). Em 14 de dezembro de 2020, no entanto, os indígenas Akroá-Gamela enviaram nova carta à Funai destacando que, desde 2005, o órgão tem ciência da existência desse povo, e denunciaram a morosidade do órgão quanto à demarcação de seu território.
Em 13 de maio de 2021, o sojeiro Sergio Luis Bortolozzo, dono da Fazenda Canel, recebeu um convite oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) para integrar o Champions Network for the Food System Summit, grupo que preparava o debate para a Cúpula de Sistemas Alimentares 2021. Esse convite legitimaria sua imagem enquanto empresário agrícola que adota práticas sustentáveis diante do mercado internacional (Ramos, 2021).
Em 07 de junho de 2021, os Akroá-Gamela enviaram um Relatório do Comando de Policiamento dos Cerrados (CPCE), acompanhado de Laudo de Exame Pericial para Verificação de Danos, para a Polícia Militar do Piauí (PMPI), denunciando episódios de violência contra os indígenas na comunidade Bananeira, no Vale do Uruçuí Preto (PI). Segundo o relato, esses documentos comparavam prejuízos ambientais e materiais causados pelos grileiros da região, acusados de agredi-los (Povo Akroá-Gamela, 2023).
Também apresentaram um memorial descritivo para a facilitação da área do conflito e relataram que moradores foram expulsos da comunidade de forma violenta; suas casas, derrubadas e queimadas. No entanto, não houve retorno da Polícia Militar (PM) até 2023 (Povo Akroá-Gamela, 2023).
Em 20 de janeiro de 2023, os indígenas Akroá-Gamela denunciaram o desmatamento em seu território para Daniel Oliveira, então secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh-PI). Assim como a Polícia Militar, também não houve providências por parte da Semarh (Povo Akroá-Gamela, 2023).
Em 10 de abril de 2023, nova carta denúncia foi escrita pelo povo Akroá-Gamela contra o desmatamento das terras das comunidades Baixa Funda e Bananeira, em Uruçuí, por parte de grileiros. O desmatamento afetava diretamente as nascentes no vale do rio Uruçuí-Preto, gerando desequilíbrio ambiental. Segundo relatado no documento:
“O povo Akroá Gamella vem denunciar às organizações governamentais e não governamentais e à sociedade em geral o desmatamento criminoso da mata nativa da Comunidade Bananeira e comunidade Baixa Funda, no Vale do Uruçuí Preto, município de Uruçuí, território tradicional do povo Akroá Gamella do Piauí. A nossa preocupação é grande, pois a devastação praticada pelos grileiros é imensa. No momento, conforme imagens anexadas a este documento, há tratores que estão derrubando toda a vegetação do Cerrado com o correntão. Nossos parentes, moradores das referidas comunidades, fazem parte da Associação dos Pequenos Produtores da Baixa Funda (CNPJ 03.727.198/0001-06) e vivem da agricultura, da pesca, da caça e coleta das riquezas do Cerrados. Todos estão indignados com o que está ocorrendo, pois é uma violência à natureza e um desrespeito ao nosso povo.” (Povo Akroá-Gamella, 2023)
Em 21 e 22 de julho de 2023, a comunidade Morrinhos, em Uruçuí/PI, sediou o encontro “Regularização Fundiária: Direito Prioritário para Comunidades com mais de cem pessoas”, organizado pela Comissão Pastoral da Terra no Piauí (CPT/PI) e com apoio da Misereor/KZE e Desenvolvimento e Paz, por meio do projeto “Aqui é nosso Chão” (Comissão Pastoral da Terra, 2023). Na ocasião, as comunidades de Bom Jesus e Morrinhos denunciaram estar rodeadas de grandes fazendas do agronegócio, fazendeiros, grileiros e milícias armadas, que expulsavam os moradores com o avanço do agronegócio (Comissão Pastoral da Terra, 2023).
Em setembro de 2024, o Ministério Público Federal no Piauí (MPF/PI) ajuizou a Ação Civil Pública (ACP) nº 0801250-83.2024.8.18.0077 para assegurar a delimitação do território indígena do povo Akroá-Gamela, cujo processo encontrava-se parado na Funai desde 2018.
Segundo a ACP, a morosidade no processo de demarcação acirrava os conflitos entre indígenas e não indígenas na região, e as comunidades sofriam sistemáticas e reiteradas violações de seus direitos fundamentais. Segundo relatado, o desmatamento dos buritizais; a expulsão de famílias indígenas; a grilagem de terras; a perda da capacidade de acumulação de água nos lençóis freáticos; a pulverização das áreas das comunidades e arredores com agrotóxicos; e a restrição e/ou proibição do acesso e do uso de áreas tradicionais de usufruto comum eram exemplos de violações contra os indígenas (Marreiros, 2024).
O MPF/PI requereu que os estudos de identificação e delimitação fossem retomados de forma imediata em 45 dias, sob pena de multa diária de R$ 5 mil. Além disso, requereu que a Funai publicasse no prazo de 60 dias a portaria de criação do Grupo de Trabalho (GT) responsável pela elaboração do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (Rtid) referente ao povo Akroá-Gamela, também sob multa diária de R$ 5 mil. Por fim, o órgão solicitou que o processo de demarcação fosse finalizado no prazo de um ano, sob pena de multa diária de R$ 10 mil (Marreiros, 2024).
Em setembro de 2024, um grupo formado por grileiros, correligionários e políticos de Uruçuí/PI e municípios vizinhos foram flagrados grilando terras em território dos Akroá-Gamela com o objetivo de estabelecer famílias de posseiros. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi, 2024a), carros de campanha eleitoral foram flagrados nos momentos em que as famílias estavam sendo levadas para as terras indígenas.
Segundo relatado, a grilagem se intensificou por conta da campanha eleitoral, com “Feirão da Terra Pública” no aplicativo Whatsapp. Em uma série de áudios vazados do app, um grileiro afirmava:
“A gente tá vendo aqui num novo negócio e aí fazemos uma nova chamada no outro grupo. (…) Vamos nos preparar aqui e aí a gente chama todo mundo. (…) Lá na Ladeira da Carroça ainda tá em questão. Essa outra é lá no Toco Preto. Mas 80% das pessoas da Ladeira da Carroça já tão lá, tá com uns dois meses. Tamo ajeitando pessoal nessa outra área aí (Toco Preto). Faltam 108 famílias para ir para lá. Muita gente mesmo.” (Cimi, 2024a)
Com a intensificação da grilagem no contexto eleitoral, a Prefeitura de Uruçuí, motivada pelos interesses na especulação imobiliária, anunciou em novembro de 2024 que tinha ingressado com ação de reintegração de posse contra a retomada de Vão Seca, área dividida entre os povos Akroá-Gamela e Gueguê do Sangue (Cimi, 2024b).
Em seu discurso, o prefeito Dr. Gilberto Júnior (Progressistas, 2021-2028) afirmou que pretendia realizar um loteamento na região em julho, antes das eleições, mas foi impedido pela “invasão sobre a área, inicialmente por pessoas que se autodeclaram indígenas, e mais recentemente por pessoas que estão em processo de identificação” (Cimi, 2024b).
Em resposta, a Associação do Povo Indígena Akroá-Gamela do Uruçuí afirmou que, no âmbito da reintegração de posse, a Justiça determinou que estava proibido o loteamento da área em face de haver procedimento de identificação e delimitação da Funai em curso (Cimi, 2024b).
Em 19 de fevereiro de 2025, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Aldeia Verde nos estados do Piauí e do Paraná. Na operação, foram cumpridos mandatos de busca e apreensão de membros envolvidos em quadrilhas de grilagem, com destaque aos grileiros das terras dos povos Akroá-Gamela e Gueguê do Sangue, em Uruçuí (PI) (Cimi, 2025).
Segundo relato da PF, “os documentos eram falsificados para a venda ilegal das terras da União, incluindo áreas de proteção ambiental e terras indígenas” (Cimi, 2025). O Ministério Público no Piauí (MPF/PI) se manifestou afirmando que:
“(…) entre meados de 2021 e meados de 2023, um grupo formado por dez pessoas – entre empresários, lideranças indígenas locais, lideranças sindicais, corretores de imóveis e funcionários públicos – promoveu a invasão de aproximadamente 6.600 hectares de terras tradicionalmente vinculadas à etnia indígena Akroá-Gamella e Guegue do Sangue.” (Cimi, 2025)
Entre 24 e 28 de março de 2025, cerca de 30 indígenas dos povos Akroá-Gamela, Gueguê do Sangue, Kariri e Tabajara-Ipy estiveram em Brasília para cobrar a demarcação de seus territórios e o acesso a políticas públicas de educação e saúde indígena, além de denunciar o avanço do agronegócio sobre suas áreas (Ocorre Diário, 2025). Os indígenas cobraram a criação do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) no Piauí, Polo Base de Saúde Indígena nas comunidades, e o estabelecimento da Coordenação Regional (CR) da Funai no Piauí e suas Coordenações Técnicas Locais (CTLs) (Ocorre Diário, 2025).
Em setembro de 2025, os indígenas Akroá-Gamela do município de Currais (PI), no Alto Parnaíba, conquistaram uma vitória judicial. O juiz federal Jorge Peixoto, diretor da Vara Única em Corrente/PI, deu prazo de 30 dias para que a Funai iniciasse o processo de demarcação do território indígena Laranjeiras. Na decisão, o magistrado determinou que a Funai constituísse GT especializado para os estudos de identificação e delimitação.
A ACP, ajuizada pelo defensor público da União Rômulo Plácido, afirmava que, sem a demarcação, a terra sofria com a ação de grilagem (Associação Nacional de Ação Indigenista, 2025). A Funai declarou dificuldades administrativas e escassez de pessoal, porém o juiz federal afirmou:
“Esse argumento não constitui fundamento jurídico apto a afastar o dever constitucional de agir. A mora administrativa de quase 7 anos, sem qualquer previsão de início dos trabalhos, ultrapassa o limite do razoável e configura omissão ilegal, passível de controle pelo Poder Judiciário.” (Associação Nacional de Ação Indigenista, 2025)
Segundo a Associação Nacional de Ação Indigenista (Anaí, 2025), essa ação conjunta da Associação Indígena do Akroá-Gamela, do Ministério Público Federal no Piauí (MPF/PI) e da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas, obteve a primeira decisão judicial, nesses termos, no Piauí. A decisão do juiz federal estabeleceu:
“a) Determinar que a FUNAI, agora no prazo máximo de 30 (trinta) dias, constitua o grupo de trabalho (GT) especializado para realizar os estudos de identificação e delimitação do território indígena Laranjeiras, do povo Akroá Gamella (processo FUNAI nº 08620.012443/2018-95), na forma do art. 2º, §§1º e 2º, do Decreto n.º 1.775/96; b) Determinar que a FUNAI, no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias após a constituição do GT, publique o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), devendo, após a fase de contraditório administrativo, encaminhar o procedimento ao Ministro de Estado da Justiça, no prazo de 60 dias, nos termos do §9º do art. 2º do Decreto n.º 1.775/96; c) Reconhecer o descumprimento da decisão liminar anteriormente proferida e aplicar multa à FUNAI, no valor de R$ 19.500,00 (dezenove mil e quinhentos reais) por descumprimento da medida liminar deferida nos autos, sem prejuízo de outras medidas coercitivas que se mostrarem necessárias; d) Determinar, ainda, que a FUNAI apresente nos autos, no prazo de 30 (trinta) dias, cronograma detalhado e objetivo, o qual deverá conter as etapas e o calendário de execução do procedimento de identificação e delimitação.” (Associação Nacional de Ação Indigenista, 2025)
Em 04 de fevereiro de 2026, a repórter Bruna Bronoski, de O Joio e o Trigo, publicou matéria sobre as propriedades do empresário brasileiro Ricardo Faria, conhecido como “Rei do Ovo”, que avançam com a produção agrícola em áreas tradicionais na região do Matopiba. Segundo a reportagem, suas propriedades nos municípios de Baixa Grande do Ribeiro (PI) e Santa Filomena (PI) estão sobrepostas à área total de territórios brejeiros e indígenas.
As comunidades Akroá-Gamela da região, de Sete Lagoas e Vão do Vico denunciam a Damha Agronegócios, arrendada por Ricardo Faria, pela contaminação da área por agrotóxicos, pelo desmatamento e pela expulsão de seu território tradicional (Bronoski, 2026). A matéria também denuncia a atuação de fundos de investimento da Havard University na expansão da fronteira agrícola no Piauí e demais estados do Matopiba.
Em resposta à reportagem, no mesmo dia, a Funai afirmou que:
“A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) esclarece que as demandas fundiárias do povo Akroá-Gamella, no estado do Piauí, estão em processo de qualificação inicial e preparatória, processo rotineiro no âmbito da Coordenação-Geral de Identificação e Delimitação (CGID), vinculada à Diretoria de Demarcação de Terras Indígenas (Didem). Essa fase é anterior à instrução de Grupo Técnico (GT) para a identificação e delimitação do território, marco após o qual a área reivindicada passa a ser considerada em estudo. (…) A Funai mantém seu compromisso com os direitos territoriais dos povos indígenas e segue movimentando suas instâncias internas para a conclusão dos processos demarcatórios tanto das terras do povo Akroá-Gamella quanto das de tantos outros povos.” (Funai, 2026)
Última atualização em: fevereiro de 2026
Cronologia
Entre 1970 e 1980 – Implantação de megaprojetos voltados para a pecuária e a cajucultura, incentivados por linhas de créditos abertas pela União, atraindo a chegada dos chamados “projeteiros”.
1973 – Implantação da Empresa Parnaíba Agropastoril em território dos ancestrais do povo indígena Akroá-Gamela, provocando expulsão violenta dos indígenas.
1974 – Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer) é concebido para promover a colonização e introdução de tecnologias agrícolas modernas na região.
– Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (Polo Nordeste) provoca concentração de recursos e ações em áreas potenciais com finalidade de promover desenvolvimento e infraestrutura focados no agronegócio em detrimento da agricultura camponesa e indígena.
12 de dezembro de 1974 – Decreto Lei nº 1.376 cria Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor) e Fundo de Investimentos Setoriais (Fiset) para desenvolver regiões e setores considerados frágeis economicamente pelo governo federal.
26 de julho de 1988 – Fundada a empresa Canel Central Agrícola Nova Era Ltda, cuja principal atividade é o cultivo de soja, de propriedade de Amilton Bortolozzo, Helio Segnini Filho, Jose Roberto Bortolozzo e Sergio Luis Bortolozzo.
Década de 1990 – Intensificação da implantação de grandes projetos para a produção de grãos para exportação, sobretudo a soja, em decorrência da expansão da fronteira agrícola sobre terras piauienses.
2002 – Instalação de uma fábrica de esmagamento de soja da multinacional Bunge Alimentos provoca expansão da sojicultura no sul do Piauí e aumento expressivo da exportação de soja no estado.
2006 – Canel Central Agrícola Nova Era recebe o prêmio “Destaque Bunge Agricultor Brasileiro”, concedido pela multinacional, reforçando a parceria entre as duas empresas.
2012 – Uruçuí é incluído pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) na lista dos 52 municípios prioritários para monitoramento e controle do desmatamento ilegal por meio da Portaria MMA nº 97/2012.
2013 – Sergio Luis Bortolozzo, então vice-presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Piauí (Faepi), defende a aplicação do inseticida benzonato de emamectina, proibida em outos estados brasileiros, para combater lagartas que ameaçavam destruir as plantações.
2017 – Dissertação de Mestrado do sanitarista Inácio pereira Lima, na Universidade Federal do Piauí (UFPI), estima que uma em cada quatro grávidas de Uruçuí tenha sofrido aborto, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase do dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado.
2018 – Reportagem de Nayara Felizardo, no portal The Intercept Brasil, denuncia efeitos do agrotóxico glifosato em plantações de soja como as da Fazenda Canel, administradas pela família Bortolozzo e Segnini.
2018 – Abertura no processo de identificação e delimitação de terras do povo indígena Akroá-Gamela na então Fundação Nacional do Índio (Funai). Os indígenas Akroá-Gamela estão localizados nos municípios piauienses de Baixa Grande do Ribeiro (PI), Bom Jesus (PI), Currais (PI), Gilbués (PI), Santa Filomena (PI) e Uruçuí (PI).
2019 – Lei nº 7.294/2019, do estado do Piauí, estabelece Política Estadual de Regularização Fundiária. É determinado que o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) trabalhe na regularização de 19 áreas indígenas do estado; oito delas destinadas aos indígenas Akroá-Gamela.
– Abaixo-assinado dos Akroá-Gamela, organizado pela cacica Maria da Conceição Sousa (Dan), descreve a violência sofrida por seu povo e a resistência das gerações que mantiveram viva a sua identidade. O documento enviado a Funai informa a identidade indígena e solicita acompanhamento do órgão.
Junho de 2019 – Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) debate o uso indiscriminado de agrotóxicos no estado, especialmente em Uruçuí. Na ocasião, Sergio Luis Bortolozzo defende a necessidade do uso de glifosato para manter a produção.
27 de agosto de 2020 – Lei nº 7.389/2020 do estado do Piauí reconhece formal e expressamente a existência de povos indígenas no Piauí.
13 de maio de 2021 – Sojeiro Sergio Luis Bortolozzo, dono da Fazenda Canel, recebe convite oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) para integrar o Champions Network for the Food System Summit, grupo que prepara o debate para a Cúpula de Sistemas Alimentares 2021.
07 de junho de 2021 – Akroá-Gamela enviam Relatório do Comando de Policiamento dos Cerrados (CPCE), acompanhado de Laudo de Exame Pericial para Verificação de Danos, para a Polícia Militar do Estado do Piauí (PMPI), denunciando episódios de violência contra os indígenas na comunidade Bananeira, no Vale do Uruçuí Preto (PI).
20 de janeiro de 2023 – Povo Akroá-Gamela denuncia desmatamento de seu território por grileiros na Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí (Semarh-PI).
10 de abril de 2023 – Carta de denúncia do povo Akroá-Gamela contra o desmatamento das terras gamela nas comunidades de Baixa Funda e Bananeira por parte de grileiros.
24 de julho de 2023 – Encontro “Regularização Fundiária: Direito Prioritário para Comunidades com mais de cem pessoas”, organizado pela Comissão Pastoral da Terra no Piauí (CPT/PI) e com apoio da Misereor/KZE e Desenvolvimento e Paz, por meio do projeto “Aqui é nosso Chão”, na comunidade Morrinhos, em Uruçuí/PI.
Setembro de 2024 – Ministério Público Federal no Piauí (MPF–PI) ajuiza Ação Civil Pública (ACP) nº 0801250-83.2024.8.18.0077 para assegurar a delimitação do território indígena do povo Akroá-Gamela, cujo processo encontra-se parado na Funai desde 2018.
– Grupo de correligionários, grileiros e políticos locais de Uruçuí realiza “Feirão da Terra Pública” pelo aplicativo WhatsApp, negociando loteamentos e grilando terras públicas retomadas pelo povo Akroá-Gamela para estabelecer famílias de posseiros.
05 de novembro de 2024 – Prefeitura do Município de Uruçuí informa ter ingressado com ação de reintegração de posse contra a retomada de terras na área do Vão Seco pelos indígenas Akroá-Gamela e Gueguê do Sangue.
19 de fevereiro de 2025 – Operação Aldeia Verde, da Polícia Federal, cumpre mandatos de busca e apreensão e realiza prisões de membros envolvidos na quadrilha que grila terras dos povos Akroá-Gamela e Guegue do Sangue.
24 a 28 de março de 2025 – Cerca de 30 indígenas dos povos Akroá-Gamela e Gueguê do Sangue, Kariri e Tabajara-Ipy vão a Brasília cobrar a demarcação de seus territórios e o acesso a políticas públicas, além de denunciar o avanço do agronegócio sobre suas áreas.
Outubro 2025 – Juiz Federal Jorge Peixoto, titular da Vara Única de Corrente (PI), concede prazo de 30 dias para que a Funai inicie o processo de demarcação do território indígena Laranjeiras, do povo Akroá-Gamela, no município de Currais (PI).
04 de fevereiro de 2026 – Reportagem de Bruna Bronoski, no portal ”O Joio e o Trigo”, denuncia atuação da Damha Agronegócios, do empresário Ricardo Faria e de fundos de investimento da Havard University, na expansão da fronteira agrícola em territórios tradicionais no Piauí.
– Funai afirma em resposta que as demandas fundiárias do povo Akroá-Gamela estão em processo de qualificação inicial e preparatória.
Fontes
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BRASIL. Ministério dos Povos Indígenas – MPI. Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai. Resposta da Funai à reportagem Compro, arrendo: como o “Rei do Ovo” encurrala comunidades tradicionais no Piauí. 04 fev. 2026. Documento em PDF. Disponível em: https://shre.ink/A4uf. Acesso em: 06 fev. 2026.
BRONOSKI, Bruna. Compro, arrendo: como o “Rei do Ovo” encurrala comunidades tradicionais no Piauí. O Joio e O Trigo, 04 fev. 2026. Disponível em: https://shre.ink/A4ux. Acesso em: 06 fev. 2026.
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – REGIONAL PIAUÍ – CPT/PI. Comunidades rurais de Uruçuí (PI) participam de encontro sobre regularização fundiária. CPT/PI, 24 jul. 2023. Disponível em: https://shre.ink/59xQ. Acesso em: 05 fev. 2026.
CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO – REGIONAL NORDESTE (CIMI/NE). Polícia Federal deflagra operação contra quadrilha de grilagem de terras Akroá-Gamella e Guegue do Sangue, no PI. Conselho Indigenista Missionário – Cimi , 19 fev. 2025. Disponível em: https://shre.ink/59xK. Acesso em: 05 fev. 2026.
CRISPIM, Lívia Corrêa. A dinâmica geoeconômica da soja no município de Uruçuí – PI. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Geografia) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Geociências, Florianópolis, 2021. Disponível em: https://shre.ink/LPRW. Acesso em: 18 mar. 2026.
‘FEIRÃO da Terra Pública’ leva grilagem e conflitos para território Akroá-Gamella. Conselho Indigenista Missionário – Cimi, 19 set. 2024. Disponível em: https://shre.ink/5lP4. Acesso em: 4 fev. 2026.
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