Conflito no Alto Solimões envolve disputas pelo controle do espaço, fragilidades institucionais, profundas desigualdades sociais e violações sistemáticas dos direitos dos povos indígenas

UF: AM, AP, PA

Município Atingido: Tonantins (AM)

Outros Municípios: Amaturá (AM), Barcelos (AM), Belém (PA), Benjamin Constant (AM), Japurá (AM), Macapá (AP), Santa Isabel do Rio Negro (AM), Santo Antônio do Içá (AM), São Gabriel da Cachoeira (AM), São Paulo de Olivença (AM), Tabatinga (AM)

População: Comunidades urbanas, Povos indígenas, Ribeirinhos

Atividades Geradoras do Conflito: Atuação de entidades governamentais, Madeireiras, Mineração, garimpo e siderurgia, Narcotráfico, Políticas públicas e legislação ambiental

Danos à Saúde: Alcoolismo, Doenças não transmissíveis ou crônicas, Doenças transmissíveis, Piora na qualidade de vida, Suicídio, Violência – lesão corporal

Síntese

O caso do Alto Solimões evidencia a consolidação de um conflito socioambiental complexo, marcado pela articulação entre a expansão do narcotráfico, as vulnerabilidades socioeconômicas e a fragilidade da presença estatal em uma região de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru (FBSP, 2025). Embora o território tenha sido historicamente pressionado por atividades como a exploração da borracha, da fauna silvestre e da madeira, a partir dos anos 2000 intensificaram-se as denúncias sobre o aliciamento de jovens indígenas por narcotraficantes, o consumo de drogas nas comunidades, o aumento da violência e a atuação de organizações criminosas nas Terras Indígenas (FBSP, 2025).

Lideranças indígenas, organizações como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), órgãos públicos, pesquisadores e veículos de imprensa passaram a denunciar de forma recorrente os impactos do narcotráfico sobre os modos de vida indígenas. As denúncias revelam um processo de crescente capilarização das economias ilícitas que extrapola o transporte internacional de drogas e alcança o cotidiano das comunidades por meio do recrutamento de adolescentes, do microtráfico, da expansão das facções criminosas, da grilagem de terras, da degradação ambiental e do enfraquecimento das formas tradicionais de organização social (Peña, 2016).

As respostas institucionais ainda permaneceram, em grande medida, pontuais e insuficientes diante da complexidade do problema. Paralelamente, as próprias comunidades indígenas passaram a construir estratégias de enfrentamento e proteção territorial, ao mesmo tempo em que reivindicam políticas públicas capazes de articular segurança, educação, fortalecimento de suas formas próprias de organização, geração de renda e saúde (Peña, 2016; FBSP, 2025).

Assim, o caso demonstra que o conflito no Alto Solimões não pode ser compreendido exclusivamente como um problema de segurança pública ou de combate ao narcotráfico. Trata-se de um processo histórico e territorial que envolve disputas pelo controle do espaço, fragilidades institucionais, profundas desigualdades sociais e violações sistemáticas dos direitos dos povos indígenas, exigindo respostas igualmente complexas, intersetoriais e culturalmente contextualizadas (FBSP, 2025).

 

Contexto Ampliado

O território do Alto Solimões é, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025), uma microrregião localizada na porção sudoeste do estado do Amazonas, composta pelos municípios de Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Tabatinga e Tonantins. Com uma extensão territorial de 213.314 km², a região é marcada por rios, igarapés, várzeas inundadas, florestas de terra firme e alagada, unidades de conservação e Terras Indígenas (TI), que ocupam grande parte de sua superfície.

Dos nove municípios, apenas Tabatinga é classificado como urbano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí e Santo Antônio do Içá são considerados municípios intermediários, enquanto Amaturá, Atalaia do Norte, São Paulo de Olivença e Tonantins são classificados como rurais.

O rio Solimões constitui o principal eixo hidrográfico da região e é estruturante na organização econômica, social e territorial do Alto Solimões. Frequentemente descrito como uma “estrada”, o rio conecta localidades que, de outra forma, permaneceriam isoladas, além de delimitar, em diversos trechos, as fronteiras entre Brasil, Colômbia e Peru (FBSP, 2025).

Com 281.494 habitantes distribuídos em um território de baixa densidade demográfica — aproximadamente 1,2 habitante por quilômetro quadrado —, o Alto Solimões caracteriza-se por uma expressiva presença indígena. Dos 281.494 habitantes, 142.154 se autodeclaram indígenas, representando 54% da população da microrregião (FBSP, 2025). A distribuição populacional, entretanto, apresenta diferenças importantes entre os municípios.

Tabatinga concentra o maior contingente populacional e o maior grau de urbanização, enquanto Amaturá e São Paulo de Olivença se destacam pelo elevado percentual de habitantes indígenas, que correspondem, respectivamente, a 92% e 81% da população local. A região também apresenta um perfil demográfico significativamente mais jovem do que a média brasileira: 36,5% da população tem entre zero e 14 anos, percentual que, no País, corresponde a 19,7% (FBSP, 2025).

A forte presença indígena também se expressa na configuração territorial. Segundo o relatório Cartografias da Violência na Amazônia (FBSP, 2025), o Alto Solimões abriga 41 Terras Indígenas em diferentes estágios do processo demarcatório — entre áreas em estudo, declaradas e homologadas —, habitadas por 11 povos identificados e outros 19 povos indígenas isolados, estes concentrados exclusivamente na Terra Indígena Vale do Javari.

Entre os povos identificados encontram-se os Kaixana, Kanamari, Katukina do Rio Biá, Kokama, Korubo, Kulina Pano, Marubo, Matis, Matsés, Tikuna e Tsohom-dyapa. Muitos desses povos compartilham relações de ancestralidade, parentesco e circulação com comunidades localizadas do outro lado das fronteiras nacionais, reforçando o caráter transfronteiriço da região.

Além das terras indígenas, o Alto Solimões abriga outras áreas protegidas, como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Cujubim, localizada nas proximidades do município de Jutaí. Trata-se de uma unidade de conservação estadual de uso sustentável, criada com o objetivo de compatibilizar a conservação ambiental com o uso dos recursos naturais pelas populações locais. A reserva abriga famílias ribeirinhas e integra um mosaico de áreas protegidas que compartilha desafios semelhantes aos enfrentados pelas terras indígenas diante do avanço das economias ilícitas e dos conflitos socioambientais na Amazônia contemporânea (FBSP, 2025).

As terras indígenas do Alto Solimões configuram espaços particularmente sensíveis aos efeitos da expansão do narcotráfico na Amazônia. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025), as fronteiras terrestres e fluviais com a Colômbia e o Peru inserem a região em uma dinâmica histórica marcada pela circulação de mercadorias e pela exploração de recursos naturais.

Embora, nas últimas décadas, o território tenha se consolidado como corredor estratégico para a produção e circulação de drogas, as pressões sobre a floresta e os modos de vida indígenas remontam a períodos anteriores, associados à captura de animais silvestres, exploração da borracha e extração de madeira. Nesse contexto, a homologação das terras indígenas representou importante conquista dos povos originários, mas não significou o fim das ameaças e violências que incidem sobre esses territórios.

Segundo o relatório, atividades ilícitas, disputas associadas ao narcotráfico e invasões continuam sendo desafios permanentes para as comunidades indígenas, exigindo ações contínuas de vigilância e proteção territorial (FBSP, 2025). A Terra Indígena Vale do Javari constitui um exemplo emblemático dessa realidade.

Homologada em 2001, passou a registrar o recrudescimento da presença de não indígenas vinculados a diferentes atividades ilícitas relacionadas à exploração de recursos naturais. Esse contexto culminou, em 2022, no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, episódio que evidenciou nacional e internacionalmente a complexidade dos conflitos territoriais vivenciados na região (FBSP, 2025).

Além da posição estratégica na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, o Alto Solimões apresenta condições socioeconômicas que contribuem para a ampliação dos processos de vulnerabilização social. Segundo o FBSP (2025), mais de 80% da população encontra-se inscrita no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), enquanto 64,7% são beneficiários do Programa Bolsa Família. Em municípios como São Paulo de Olivença, o percentual de inscritos no CadÚnico alcança 94,6%, evidenciando a baixa renda da população e a elevada dependência das políticas de transferência de renda.

Os indicadores de trabalho e renda, baseados nos dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam um cenário igualmente desafiador. Apenas 12,8% da população com mais de 14 anos apresentava algum vínculo de trabalho, percentual significativamente inferior à média nacional, superior a 50%.

Além disso, a administração pública responde por mais de 60% da composição do Produto Interno Bruto (PIB) da microrregião, indicando uma economia fortemente dependente do setor estatal e marcada pela reduzida diversificação das oportunidades de trabalho (FBSP, 2025). Esse conjunto de características demográficas, socioeconômicas e territoriais constitui o pano de fundo sobre o qual se estruturam as dinâmicas contemporâneas do narcotráfico na região do Alto Solimões.

Nesse contexto, a posição do Alto Solimões como corredor estratégico para organizações criminosas sul-americanas adquire especial relevância. Sua centralidade nas dinâmicas do narcotráfico não decorre apenas das vulnerabilidades socioeconômicas locais, mas também de características geográficas que favorecem a circulação de mercadorias ilícitas. Com 3.870 quilômetros de fronteira compartilhada com Colômbia, Peru e Venezuela, além de uma extensa rede hidrográfica que ultrapassa os limites nacionais, a Amazônia configura-se como um território particularmente favorável ao estabelecimento e à manutenção de rotas internacionais do tráfico de drogas (FBSP, 2025).

A região funciona como uma das principais portas de entrada da cocaína em território brasileiro por estar localizada na tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru, reconhecidos como os maiores produtores mundiais de folha de coca e cloridrato de cocaína. Nesse cenário, consolidou-se a chamada “Rota do Solimões”, considerada um dos principais corredores de entrada e escoamento de cocaína e maconha do tipo skunk (variedade de cannabis com elevado teor de tetrahidrocanabinol ou THC, substância psicoativa responsável por efeitos mentais, alterações na percepção e propriedades medicinais), destinadas tanto ao mercado consumidor brasileiro quanto à exportação internacional (FBSP, 2025).

Tecnicamente, essa rota inicia-se em Tabatinga (AM), na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, onde faz fronteira com Letícia (Colômbia) e Santa Rosa de Yavarí (Peru), e acompanha todo o curso do rio Solimões até seu encontro com o rio Negro, em Manaus (AM). A partir desse ponto, segue pelo rio Amazonas até sua foz no Oceano Atlântico, alcançando portos estratégicos como Santarém (PA), Belém (PA) e Macapá (AP). Ao longo desse percurso, Manaus e Santarém se destacam por concentrarem importantes portos e aeroportos com conexões nacionais e internacionais, que facilitam a circulação de cargas e pessoas (FBSP, 2025).

A proximidade com os países produtores permite uma logística altamente integrada. A produção de pasta-base de cocaína concentra-se, do lado peruano, em localidades próximas à fronteira, como Bellavista e Caballococha, enquanto, no lado colombiano, as plantações localizam-se principalmente nas bacias dos rios Içá e Japurá. Esses cursos d’água convergem para o rio Solimões, formando uma extensa malha hidrográfica que possibilita o transporte da droga até o território brasileiro com relativa facilidade (FBSP, 2025).

A logística utilizada pelas organizações criminosas adapta-se continuamente às características ambientais da região. O transporte ocorre por meio de lanchas rápidas, frequentemente blindadas e equipadas com múltiplos motores, além de embarcações comuns que ocultam os entorpecentes em compartimentos secretos, conhecidos como “caletas”, frequentemente disfarçados sob cargas legais, como gelo, pescado ou materiais recicláveis (FBSP, 2025).

A sazonalidade dos rios constitui outro elemento decisivo para o funcionamento dessas rotas. Durante o período de cheia, a navegação passa a utilizar uma extensa rede de igarapés e canais secundários, multiplicando os caminhos possíveis e dificultando a atuação das forças de segurança.

Na estiagem, quando a circulação se concentra nos grandes rios, as organizações criminosas recorrem a estratégias alternativas, como pequenas aeronaves que voam abaixo da cobertura dos radares e ao emprego de atravessadores, frequentemente indígenas aliciados, responsáveis por transportar cargas por longas distâncias pela floresta, em um sistema de revezamento entre pontos de apoio distribuídos ao longo do percurso (FBSP, 2025).

Essa diversificação logística só é possível em razão da profunda inserção territorial das organizações criminosas. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2025), a consolidação das facções na região ultrapassa o controle das rotas de tráfico e passa a configurar “formas de governança criminal sobre determinados territórios, sustentadas pelo conhecimento detalhado da floresta, dos rios e das dinâmicas locais”.

Outro elemento central para a consolidação desse sistema é a dinâmica da fronteira entre Tabatinga (Brasil) e Letícia (Colômbia). As duas cidades formam uma conurbação caracterizada pela intensa circulação diária de pessoas, veículos e mercadorias, praticamente sem barreiras físicas ou fiscalização permanente. Essa porosidade transforma ambas em um único espaço operacional para as organizações criminosas, permitindo o deslocamento transnacional de drogas, recursos financeiros e integrantes das facções com relativa facilidade (FBSP, 2025).

Na prática, o narcotráfico organiza suas atividades em dois ecossistemas complementares. O primeiro corresponde ao espaço urbano, concentrado nas cidades-gêmeas e nos municípios situados às margens dos grandes rios, onde se desenvolvem atividades relacionadas ao comando das organizações, distribuição local, lavagem de dinheiro e microtráfico. O segundo compreende o ecossistema fluvial-florestal, formado pelas extensas áreas de floresta, igarapés e rios, que estruturam a circulação de drogas, madeira, ouro e outros produtos ilícitos em larga escala (FBSP, 2025).

A combinação entre baixa presença estatal, elevada capacidade de adaptação logística, extensa rede hidrográfica e posição geográfica privilegiada faz do Alto Solimões um dos principais corredores do narcotráfico internacional na Amazônia. Mais do que um espaço de passagem, a região constitui um território estratégico para as organizações criminosas, articulando a produção, o transporte, o armazenamento e a distribuição de drogas em uma rede transnacional que conecta áreas produtoras nos países andinos aos mercados consumidores e aos portos de exportação brasileiros (FBSP, 2025).

A posição estratégica das terras indígenas do Alto Solimões nas rotas internacionais do narcotráfico faz com que esses territórios sejam incorporados às dinâmicas logísticas das organizações criminosas. Localizadas entre áreas produtoras de cocaína no Peru e na Colômbia e os corredores de escoamento para o restante do Brasil, muitas comunidades indígenas passaram a funcionar como pontos de passagem, armazenamento e ocultação de cargas transportadas ao longo do rio Solimões e de sua extensa rede de igarapés (FBSP, 2025).

Segundo o FBSP (2025), esse fenômeno está relacionado à expansão da produção de drogas em território peruano, onde indígenas e outras populações tradicionais participam do cultivo e do processamento da folha de coca. A fronteira porosa, marcada pela reduzida fiscalização e pela intensa circulação de pessoas e mercadorias, favorece a integração dessas redes transnacionais, inserindo as comunidades indígenas brasileiras em dinâmicas de dependência e violência que extrapolam os limites nacionais. Lideranças relatam que os traficantes são facilmente identificados por serem pessoas estranhas às comunidades, mas afirmam possuir poucas condições de enfrentamento diante das ameaças e da limitada capacidade de resposta do Estado.

Se o macrotráfico insere os territórios indígenas nas rotas internacionais da cocaína, seus efeitos tornam-se ainda mais evidentes por meio do microtráfico. Conforme o relatório, o comércio varejista de drogas consolidou-se como uma das formas mais perceptíveis da presença do crime organizado nas aldeias, ocupando posição central nas demandas por segurança apresentadas pelas lideranças indígenas (FBSP, 2025).

Entre as principais preocupações relatadas está a crescente circulação de drogas e bebidas alcoólicas nas comunidades, especialmente nas aldeias de maior porte e com melhor acesso fluvial. O consumo de substâncias como o “óxi”, derivado de baixo custo da cocaína produzido com solventes e combustíveis, é apontado como um dos principais fatores associados à desestruturação familiar, ao aumento da violência e ao recrutamento de adolescentes para atividades ilícitas. Em algumas localidades, o uso abusivo de drogas levou inclusive ao surgimento de áreas identificadas pelos próprios moradores como “cracolândias”, caracterizadas pelo consumo contínuo de entorpecentes em espaços públicos (FBSP, 2025).

A cooptação da juventude constitui um dos aspectos mais recorrentes do diagnóstico apresentado pelo Fórum. Jovens, muitas vezes entre 12 e 16 anos, são aliciados para atuar na venda de drogas dentro e fora das aldeias. Um dos mecanismos mais frequentes consiste no fornecimento antecipado de pequenas quantidades de drogas ou dinheiro, gerando dívidas que passam a funcionar como instrumento de controle e subordinação. Segundo o relatório, essa lógica articula práticas historicamente presentes na Amazônia, como o sistema de aviamento, aos mecanismos contemporâneos de recrutamento utilizados pelo crime organizado (FBSP, 2025).

As lideranças indígenas relacionam essa vulnerabilidade a um conjunto de fatores estruturais. A escassez de oportunidades de atividades culturais, esporte, lazer e trabalho limita as perspectivas de inserção social da juventude, fazendo com que o comércio de drogas apareça, para muitos adolescentes, como possibilidade de obtenção de renda e acesso ao consumo.

Paralelamente, o relatório destaca que essas transformações ocorrem em meio ao enfraquecimento de vínculos comunitários e à redução da transmissão de práticas culturais tradicionais, principalmente associadas ao processo histórico decorrente das diferentes formas de contato com a sociedade não indígena sobre suas formas socioculturais, processo que amplia a exposição das novas gerações às dinâmicas do narcotráfico (FBSP, 2025).

Os impactos não se restringem ao consumo de drogas. Problemas como abuso de substâncias, comportamentos violentos e suicídios são registrados entre os povos Tikuna há décadas, mas, segundo o Fórum, passaram a adquirir novos contornos com a expansão das organizações criminosas na região. Lideranças relatam que episódios de conflitos familiares, violência doméstica e violência interpessoal tornaram-se mais frequentes após a intensificação da circulação de drogas nas comunidades (FBSP, 2025).

Segundo denúncia da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em novembro de 2007, cerca de 200 adolescentes indígenas, entre 12 e 18 anos, pertencentes a 43 etnias dos municípios de Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira, já haviam sido identificados como usuários de drogas e eram utilizados como transportadores de entorpecentes por traficantes.

De acordo com a entidade, além do consumo de maconha e cocaína, esses jovens inalavam cola de sapateiro e até gasolina. Na ocasião, a Coiab, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), realizava um levantamento para identificar as áreas de maior incidência do problema e subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas para a questão.

Ainda em 2007, diante da percepção de insuficiência da atuação estatal frente ao aumento da violência nas comunidades indígenas, moradores da comunidade tikuna de Umariaçu II organizaram uma iniciativa própria de vigilância e proteção coletiva. Conforme Almeida (2011), a organização foi criada com o objetivo de fiscalizar e coibir condutas consideradas ofensivas à ordem comunitária. Inicialmente denominada Serviço de Proteção Indígena (SPI), em referência ao antigo órgão indigenista brasileiro, a iniciativa foi posteriormente ampliada para outras etnias da região, passando a ser conhecida como Polícia Indígena do Alto Solimões (Piasol).

No entanto, o SPI- Piasol começou a perder força, principalmente em razão da falta de apoio institucional e de acusações de abusos cometidos por seus integrantes. Em 2010, a população voltou a indicar um aumento descontrolado de violência na terra indígena (Peña, 2016).

Apesar das constantes denúncias da Coiab em novembro de 2007, o problema persistiu, motivando outros atores locais a tornarem pública a situação vivenciada pelas comunidades indígenas. Foi o caso do cacique Manoel Nery Tikuna, liderança da aldeia Umariaçu II, em Tabatinga, que, em 20 de março de 2008, denunciou à imprensa o processo de deterioração social observado na região.

Segundo ele, além dos efeitos da cocaína e do álcool, a falta de empregos e de perspectivas levava muitos indígenas ao suicídio. De acordo com a liderança, somente entre 2001 e 2006 haviam ocorrido 36 suicídios de jovens em sua aldeia. Para tanto, era utilizada uma mistura de Coca-Cola, cocaína e cachaça.

A repercussão dessas declarações, corroboradas pela Administração Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) à época, em Tabatinga, encontrou uma Polícia Federal (PF) despreparada para lidar com a situação. O delegado da PF em Tabatinga, Giovani Vicente Fontes Lopes, informou que uma investigação teria início. Embora tenha afirmado conhecer a atuação de grupos ligados ao tráfico na região e a realização de operações de combate ao narcotráfico, Lopes demonstrou desconhecimento em relação aos impactos que o problema produzia entre os povos indígenas (Peña, 2016).

A repercussão das denúncias alcançou o cenário político nacional. Em 25 de março de 2008, o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, deputado federal Sebastião Bala Rocha (PDT-AP), defendeu o envio de uma força-tarefa para o Alto Solimões para combater o tráfico e o consumo de drogas entre os povos indígenas. Em entrevista à Agência Brasil (2008), o parlamentar afirmou que a operação deveria combater o tráfico na região de fronteira e atuar de forma integrada, reunindo diferentes forças de segurança, a exemplo das ações desenvolvidas contra o crime organizado nos grandes centros urbanos.

Entretanto, a força-tarefa permaneceu restrita ao campo das propostas. Em agosto de 2008, o administrador regional da Funai, David Félix Cecílio, voltou a denunciar a situação enfrentada pelos povos indígenas da região. Em seu apelo, afirmou: “Estou pedindo socorro para tirar os nossos jovens indígenas do vício da cocaína e do álcool. São crianças entre 10 e 16 anos. Isso é preocupante porque começamos a registrar casos de crimes entre índios e alguns casos de suicídio”.

Na ocasião, a Funai defendia estratégias de enfrentamento baseadas em projetos sociais e ações voltadas à juventude indígena. Segundo Cecílio, a ampliação das oportunidades de estudo e capacitação profissional poderia reduzir a vulnerabilidade dos jovens ao aliciamento promovido pelos traficantes (Agência Brasil, 2008).

Dois meses depois, em outubro de 2008, novas denúncias vieram a público por meio do presidente da Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado José Lôbo (PCdoB), que realizou levantamento na região. Com base em relatório elaborado durante o seminário “O Futuro da Amazônia”, realizado em Tabatinga no mesmo ano, o parlamentar denunciou o consumo de cocaína, cola de sapateiro, maconha e gasolina entre indígenas da tríplice fronteira. O relatório apontava abortos, abusos sexuais, gravidez precoce, turismo sexual, suicídios e violência doméstica envolvendo crianças e adolescentes indígenas, evidenciando a profundidade da crise social nas comunidades da região.

Para além dos problemas evidenciados pelas denúncias, diferentes pesquisadores têm destacado processos estruturais que ajudam a compreender a complexidade desse cenário. Conforme argumenta Peña (2016), as transformações vividas pelas comunidades do povo Tikuna, por exemplo, têm sido acompanhadas por tensões geracionais e pela redução das perspectivas de inserção da juventude nos modos tradicionais de vida associados à agricultura familiar e à pesca. Ao mesmo tempo em que as famílias passaram a investir na escolarização dos filhos como estratégia de mobilidade social e participação política, as oportunidades concretas de inserção profissional permaneceram limitadas, produzindo frustrações e incertezas em relação ao futuro.

Nesse contexto, Peña (2016) interpreta determinados comportamentos da juventude que incluem a participação em gangues, o consumo de drogas e os elevados índices de suicídio registrados em algumas comunidades como expressões de um cenário marcado pela escassez de oportunidades e pelas rápidas transformações socioculturais experimentadas pelos povos indígenas da região. Segundo a autora, muitos jovens encontram-se em uma posição de transição, na qual os referenciais tradicionais já não oferecem as mesmas perspectivas de futuro, enquanto as promessas de inserção na sociedade permanecem restritas.

A autora destaca que a condição indígena na fronteira amazônica é atravessada por processos de discriminação social e negação identitária. Para além das dificuldades econômicas, muitos jovens enfrentam desafios relacionados ao reconhecimento de sua identidade étnica em contextos urbanos e interculturais, produzindo tensões que afetam seu pertencimento comunitário e seus projetos de vida. Nesse cenário, a valorização da língua materna e de outras práticas culturais aparece como importante forma de resistência e fortalecimento identitário frente às pressões exercidas pela sociedade dominante.

Outro aspecto destacado por Peña (2016) refere-se à fragilidade da atuação estatal no campo da segurança pública. A partir da análise de documentos institucionais e de reuniões realizadas com lideranças indígenas e órgãos públicos, a autora verificou que as comunidades indígenas enfrentavam obstáculos significativos para acessar os serviços de segurança, seja pelas dificuldades de deslocamento, pelas barreiras linguísticas ou pela descrença na efetividade das instituições.

A pesquisa também demonstrou que a atuação estatal era insuficiente para responder às demandas de segurança das comunidades indígenas. Ao analisar a atuação das instituições de segurança pública no Alto Solimões, Peña (2016) identifica um processo de invisibilização das comunidades indígenas que contribui para a manutenção das vulnerabilidades vivenciadas nesses territórios.

Segundo a autora, os órgãos de segurança justificavam sua limitada atuação nas terras indígenas com base na suposta ausência de demandas registradas. Nessa lógica, a inexistência de ocorrências formalmente notificadas era interpretada como evidência da inexistência de problemas que justificassem a presença permanente das forças de segurança.

A autora argumenta que essa interpretação produzia um círculo vicioso de invisibilidade institucional. Por um lado, as comunidades indígenas encontravam dificuldades para acessar os serviços de segurança pública devido às barreiras geográficas, linguísticas e burocráticas. Por outro, a ausência de registros oficiais era utilizada para justificar a própria ausência das instituições nesses territórios.

Como resultado, as terras indígenas permaneciam à margem das políticas de segurança, ainda que lideranças e órgãos indigenistas denunciassem reiteradamente situações de consumo de drogas, conflitos sociais e violência (Peña, 2016).

Peña (2016) destaca ainda que a definição das competências institucionais contribuía para esse cenário. Enquanto as polícias civil e militar estaduais alegavam limitações para atuar em terras indígenas, compreendidas como bens da União, a Polícia Federal (PF), responsável por essas áreas, tinha funções investigativas, e não de policiamento ostensivo. Na prática, essa sobreposição de justificativas para a inação produzia vazios de atuação estatal, deixando muitas comunidades indígenas dependentes de ações esporádicas de fiscalização e vulneráveis à expansão de atividades ilícitas.

A autora demonstra que essa ausência institucional se refletia também nos dados oficiais. Durante reuniões realizadas em 2015, no Ministério Público Federal (MPF) em Tabatinga, a Polícia Civil alegava não haver registros de crimes nas terras indígenas da região. Essa informação contrastava com levantamentos produzidos pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), e com os relatos apresentados pelas lideranças indígenas (Peña, 2016).

Os dados produzidos pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), órgão de controle social que atua no âmbito da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Solimões (Dsei Alto Rio Solimões), notificaram que, somente no primeiro semestre de 2015, foram registrados 66 casos de violência física, sendo 22 deles provocados por armas brancas, dois contra crianças, um caso de violência sexual e um caso de agressão com arma branca contra gestante (Peña, 2016).

Para Peña (2016), essas discrepâncias evidenciam a existência de subnotificações e revelam os limites da capacidade estatal de produzir diagnósticos consistentes sobre a realidade das comunidades indígenas do Alto Solimões.

Esse cenário torna-se ainda mais complexo quando considerado o contexto geopolítico da região. Conforme destaca Peña (2016), embora a presença militar seja importante na proteção das fronteiras nacionais, a dimensão do território e a insuficiência dos recursos estatais dificultam uma presença efetiva e contínua do Estado no entorno das comunidades mais isoladas.

A análise de Peña (2016) sugere que a crise da segurança pública vivenciada pelas comunidades indígenas do Alto Solimões não pode ser reduzida à ausência de policiamento ou ao fortalecimento das redes do narcotráfico. Para a autora, a violência observada na região está relacionada a um conjunto mais amplo de fatores culturais, econômicos e sociais que produzem processos de marginalização e fragilizam os mecanismos comunitários de regulação social.

Nesse contexto, o avanço do consumo de drogas, dos conflitos internos e da atuação de organizações criminosas contribui para o enfraquecimento da autoridade das lideranças tradicionais e das formas próprias de resolução de conflitos construídas historicamente pelos povos indígenas.

Segundo Peña (2016), a resposta do Estado brasileiro às demandas por segurança pública nas terras indígenas tem ocorrido de forma limitada, concentrando-se em ações esporádicas e emergenciais realizadas por órgãos de defesa nacional e de segurança pública. A autora argumenta que tais iniciativas não são capazes de garantir o direito à segurança na vida cotidiana das comunidades, e tampouco enfrentam as condições estruturais que favorecem a reprodução da violência e das vulnerabilidades sociais.

Nessa perspectiva, ela questiona a predominância de modelos de segurança pública baseados exclusivamente na presença policial e destaca a reduzida abertura institucional para o reconhecimento de formas diferenciadas de gestão dos conflitos construídas pelos próprios povos indígenas.

Para Peña (2016), o Estado tem buscado assegurar apenas um mínimo de proteção às comunidades, sem incorporar de maneira efetiva o pluralismo cultural e o direito à autodeterminação previstos na legislação brasileira. Tal cenário contribui para a permanência de soluções insuficientes diante dos desafios enfrentados pelas comunidades indígenas do Alto Solimões.

As próprias lideranças indígenas têm denunciado os impactos desse processo sobre seus modos de vida e terrritórios. Em reportagem publicada pela Agência Pública em 14 de julho de 2022, moradores e representantes de comunidades do Alto Solimões relataram preocupações com o recrutamento de jovens para os roçados de coca, o aumento do consumo de drogas e a crescente influência das redes do narcotráfico na região (Agência Pública, 2022).

“Aqui é muito simples. Estamos na tríplice fronteira. Não tem fiscalização, não tem segurança na fronteira, não tem. As pessoas chegam aqui pelo rio Javari, a maioria são os peruanos que vêm de lá. Chegam com drogas, com armas e ninguém revista”, afirma o cacique Izaque Almeida Bastos, liderança tikuna da comunidade Filadélfia, em Benjamin Constant (AM), desde 2019. “É ruim porque acaba trazendo esse prejuízo da perdição dos jovens”, avalia, referindo-se ao trabalho nos roçados de coca. O cacique lamenta que o trabalho nos cultivos de coca esteja se tornando mais presente para a juventude.

Segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), somente entre 2015 e 2017 houve um aumento de 24% nas áreas de cultivo de folhas de coca no Peru, que passaram de 40,3 mil hectares para 49,9 mil hectares. O aumento ocorreu com maior intensidade na região de Bajo Amazonas, na província de Loreto, onde está localizada a fronteira com o Brasil e a Colômbia. Os cultivos de coca nessa região aumentaram 41%, superando a média nacional, entre 2016 e 2017, e a área plantada foi de 1.292 hectares para 1.823 hectares (Agência Pública, 2022).

De acordo com reportagem da Agência Pública (2022), a maior parte da cocaína produzida no Bajo Amazonas (e no Peru, de maneira geral) não se destina ao consumo interno peruano, que é um dos mais baixos da América Latina e representa menos da metade do brasileiro em termos da taxa de consumo pela população, segundo dados de 2019 da Comissão Interamericana para o Controle de Drogas (Cicad).

Além de abastecer o imenso mercado consumidor do Brasil, o segundo maior do mundo, de acordo com estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a droga tem como um de seus principais destinos a Europa. A própria UNODC aponta que o Brasil já é a “principal via de transporte de cocaína para a Europa” (Agência Pública, 2022).

De acordo com o delegado Victor Mota, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal no Amazonas (PF/AM) à época, o Peru havia se consolidado como o principal produtor de cocaína na região da tríplice fronteira. Essa avaliação é corroborada pelo pesquisador Aiala Colares Couto, da Universidade do Estado do Pará (Uepa), que destacou uma mudança nas rotas de abastecimento do mercado brasileiro.

Segundo o pesquisador, enquanto em períodos anteriores predominava a entrada de cocaína de origem boliviana, os dados mais recentes das apreensões realizadas pela Polícia Federal indicavam o predomínio da cocaína proveniente do Peru nos anos anteriores à publicação da reportagem (Agência Pública, 2022).

A reportagem da Agência Pública (2022) também reuniu relatos de indígenas tikuna que trabalharam nos cultivos de coca localizados em território peruano. Os depoimentos revelam que a expansão dos chamados “roçados de coca” está associada à escassez de oportunidades de trabalho no Alto Solimões.

José, indígena tikuna entrevistado pela reportagem, relatou que ingressou na atividade aos 18 anos após abandonar os estudos e não encontrar alternativas de emprego em sua comunidade. Ao comparar as condições de trabalho disponíveis na região com aquelas oferecidas nos cultivos, afirmou: “Aqui não tem trabalho. Lá, eu ganho pelo menos R$ 60 a diária. Os patrões dão alojamento, alimentação, dão tudo”.

A diferença entre os rendimentos obtidos nas atividades locais e nos cultivos de coca aparece como um dos principais fatores de atração. Segundo José, o trabalho de descarga de embarcações nos portos da região lhe rendia cerca de R$ 400 mensais (cerca de 1/3 do salário-mínimo brasileiro na época), enquanto a participação na colheita de folhas de coca e em atividades ligadas ao processamento da pasta-base chegou a lhe proporcionar ganhos de até R$ 4 mil em uma única semana – cerca de dez vezes mais em ¼ do tempo. O entrevistado relatou ainda que, em determinadas ocasiões, recebeu remuneração extra por indicar outros trabalhadores indígenas para as fazendas, evidenciando a existência de redes locais de recrutamento de mão de obra.

Outro entrevistado, identificado como Juan, indígena tikuna nascido no Peru e residente no Brasil, relatou ter iniciado o trabalho nos cultivos ainda na infância, acumulando mais de três décadas de experiência na atividade. Ao descrever sua percepção sobre os roçados de coca, afirmou: “Lá é tranquilo, bom para trabalhar. Não é perigoso. É só você trabalhar e ir embora”.

O relato evidencia como a atividade pode ser percebida por parte dos trabalhadores como uma oportunidade econômica legítima diante da escassez de alternativas de renda e da intensiva exploração da mão de obra pelos empregadores brasileiros na região.

Segundo a Agência Pública (2022), apesar de ambos os entrevistados afirmarem não ter presenciado episódios de agressão; relataram histórias de trabalhadores assassinados após tentativas de roubo de pasta-base e de conflitos entre grupos rivais de narcotraficantes. Juan também destacou uma percepção atribuída aos proprietários das fazendas ao afirmar que “eles preferem os indígenas porque eles não roubam”, evidenciando a forma como as populações indígenas vêm sendo incorporadas às dinâmicas de trabalho vinculadas à economia da cocaína.

A reportagem também ouviu representantes da Polícia Federal e servidores da Funai. À época, o delegado Wesley Urzêda reconheceu os desafios enfrentados pela PF para monitorar uma região marcada pela extensa rede hidrográfica amazônica e pela multiplicidade de rotas utilizadas para o escoamento de entorpecentes (Agência Pública, 2022).

Servidores da Funai ouvidos sob condição de anonimato afirmaram ter conhecimento das denúncias envolvendo o recrutamento de indígenas para atividades relacionadas ao narcotráfico, incluindo o transporte de drogas e o trabalho nos cultivos de coca localizados em território peruano. Segundo os relatos, embora as denúncias fossem encaminhadas à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF), a limitada capacidade operacional dos órgãos responsáveis dificultava respostas mais efetivas (Agência Pública, 2022).

O professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e coordenador do Núcleo de Estudos Socioambientais da Amazônia (Nesam), Pedro Rapozo, aponta na reportagem o contraste entre a desorganização do Estado e a articulação das organizações criminosas:

“Você vê uma ausência de fiscalização e monitoramento nessas áreas, que deixam esses territórios vulneráveis. Na medida em que há essa ausência do Estado, você vê, por outro lado, organizações de agentes ilegais que manejam redes de contato e comunicação inclusive com os próprios indígenas, agenciando e aliciando parte das famílias e populações que não têm uma outra perspectiva e que são desassistidas pelo governo. Não se trata simplesmente de criminalizar essas pessoas que estão envolvidas nas redes do narcotráfico e dos mercados ilegais. A questão é muito maior que isso: está na ausência de oportunidades e de políticas governamentais que possam assistir e possibilitar geração de renda para a sociedade local.”

Rapozo aponta a contradição do que vem chamando, em seus trabalhos, de “ausência presente” do Estado. Embora a região concentre importantes instituições federais responsáveis pela proteção territorial, segurança pública e garantia de direitos indígenas, sua atuação mostra-se insuficiente para responder à complexidade das dinâmicas associadas ao narcotráfico na tríplice fronteira. Assim, coexistem uma forte presença institucional formal e uma limitada capacidade de intervenção efetiva nas comunidades mais afetadas pelos conflitos e pelas economias ilícitas.

Em 27 de fevereiro de 2023, a Agência Pública divulgou uma reportagem, posteriormente reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), vinculado à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com diversos relatos de jovens indígenas sobre o funcionamento da logística das drogas e seus impactos nas comunidades.

A reportagem apresentou o relato de Lucas, jovem indígena que afirmou ter iniciado o consumo de drogas aos 13 anos após influência de amigos. Seu depoimento evidenciou a facilidade de acesso aos entorpecentes na região, descrita por ele como uma realidade em que as drogas circulam tanto nos centros urbanos quanto nas comunidades indígenas. Segundo o jovem, “é mais fácil que comprar um pão”, sendo possível encontrá-las em diferentes pontos do município ou por meio de vendedores que as levam para dentro das comunidades (Agência Pública, 2023).

O relato também apontou para a presença das drogas no ambiente escolar. Lucas afirmou que ele e outros adolescentes costumavam levar substâncias para consumir e comercializar na escola, associando esse contexto ao aumento de conflitos e dificuldades nas relações com professores. Além disso, o jovem relatou sentimentos de vergonha em relação à sua família e mencionou pensamentos suicidas (Agência Pública, 2023).

A reportagem também ouviu Izaque Almeida Bastos, cacique da comunidade indígena Filadélfia, em Benjamin Constant (AM), que relatou preocupação com o aumento do consumo de drogas entre adolescentes cada vez mais jovens. Segundo a liderança, embora o problema já fosse antigo, observava-se um agravamento da situação entre crianças e adolescentes indígenas. Em sua avaliação, substâncias como a cocaína e a maconha não faziam parte das práticas culturais tradicionais do povo Tikuna e produziam impactos significativos sobre a saúde mental da juventude (Agência Pública, 2023).

O cacique associou esse processo às transformações socioculturais vivenciadas pelas novas gerações, especialmente à ampliação do acesso às tecnologias digitais, à internet e às redes sociais. Segundo sua interpretação, esses meios favoreciam o contato dos jovens indígenas com referências culturais externas e modelos de comportamento que influenciavam práticas relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas (Agência Pública, 2023).

Para o cacique Izaque Bastos, tais mudanças contribuíam para processos de imitação de hábitos observados em contextos urbanos, ampliando os desafios enfrentados pelas comunidades na proteção de sua juventude: “A tecnologia e o acesso à internet influenciam muito os jovens a usarem drogas. Através da internet eles ficam vendo vídeos dos jovens da cidade usando drogas, e os jovens tikuna acabam imitando.”

O cacique da comunidade de Filadélfia lamenta a falta de projetos sociais voltados para crianças e jovens indígenas, tanto nas cidades-sede dos municípios quanto nas aldeias. Ele observa que falta apoio psicológico aos jovens indígenas que saem das comunidades para estudar em universidades como a Federal do Amazonas (Ufam) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Com isso, muitos acabam desistindo dos estudos ou têm dificuldade para concluir seus cursos, envolvendo-se com o consumo abusivo de álcool e outras substâncias no contexto urbano (Agência Pública, 2023).

A reportagem apresentou o depoimento de um jovem tikuna, então com 25 anos, morador de uma comunidade indígena do município de Benjamin Constant, que relatou sua participação no transporte de drogas entre a cidade e as comunidades da região. Segundo o entrevistado, a atividade ocorria predominantemente durante a noite, aproveitando a ausência de fiscalização fluvial. O transporte envolvia uma rede de colaboradores, incluindo condutores de embarcações e homens armados responsáveis pela segurança da carga, posteriormente entregue a intermediários encarregados da comercialização local.

O relato do jovem oferece indícios sobre a forma como as redes do narcotráfico se articulavam nos territórios indígenas, mobilizando jovens da própria região em diferentes etapas da circulação das drogas. Questionado sobre os riscos da atividade, o entrevistado afirmou:

“A única coisa que a gente temia não eram os policiais, mas sim a outra facção fazer uma emboscada pra nós e levar o produto, ou aquele grupo de piratas que sempre faz assaltos no rio”. Segundo ele, esse grupo de piratas inclui indígenas e não indígenas.

Outro relato apresentado pela reportagem da Agência Pública (2023) foi o de Gel (nome fictício), indígena de 27 anos residente em uma comunidade de Benjamin Constant. Segundo o entrevistado, o envolvimento de sua família com o tráfico de drogas esteve relacionado às dificuldades econômicas enfrentadas no cotidiano.

Filho de agricultores e pescadores, afirmou que a renda obtida por seus pais não era suficiente para sustentar todos os filhos, levando a família a buscar alternativas de geração de renda. Inicialmente, tentaram atuar no comércio de bebidas alcoólicas, mas posteriormente passaram a comercializar entorpecentes devido à maior rentabilidade da atividade.

Ao justificar sua entrada no tráfico, Gel afirmou que “as oportunidades de trabalho aqui são bem difíceis”, acrescentando que a comercialização de drogas surgiu como alternativa diante da existência de consumidores nas comunidades. Segundo o entrevistado, a integração a uma facção criminosa facilitou o acesso aos produtos e reduziu os custos de aquisição para revenda.

O jovem também descreveu a facilidade de circulação das drogas entre cidades e comunidades indígenas, destacando a ausência de fiscalização nas rotas terrestres e fluviais utilizadas para o transporte. Segundo ele, substâncias provenientes principalmente do Peru, e em menor medida da Colômbia, chegavam às comunidades por embarcações e motocicletas, sendo posteriormente distribuídas por jovens indígenas recrutados para a comercialização local.

Embora relatasse faturamentos que poderiam alcançar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil mensais, Gel afirmou que a atividade era acompanhada por constante sensação de insegurança e medo de represálias por parte de grupos rivais. Ao final da entrevista, expressou: “eu não gosto do que eu faço, mas, quando vejo dinheiro, já não penso mais nisso, a gente faz isso é só por questão de negócios e dinheiro”.

Contudo, os efeitos da expansão do narcotráfico no Alto Solimões não se restringem ao recrutamento de trabalhadores ou à circulação de drogas, alcançando também a organização do território e as formas de ocupação da terra. Em 14 de março de 2025, reportagem publicada pelo Projeto Colabora, com apuração da Amazônia Real, evidenciou que traficantes peruanos adquiriam lotes em áreas próximas à Terra Indígena Umariaçu, em Tabatinga, promovendo ocupações irregulares e processos de grilagem mediante a oferta de pequenas quantias em dinheiro, cestas básicas e promessas de proteção (Projeto Colabora, 2025).

O fenômeno foi descrito por indígenas como uma transformação profunda da paisagem local, na qual áreas tradicionalmente associadas à floresta e aos modos de vida indígenas passaram a ser incorporadas às dinâmicas econômicas do crime organizado (Projeto Colabora, 2025).

A reportagem destacou que o narcotráfico vinha contribuindo para redefinir as relações de uso e ocupação do território na região de fronteira. Próximo ao aeroporto de Tabatinga, áreas destinadas à expansão urbana avançavam em direção à Terra Indígena Umariaçu, enquanto, do lado peruano da fronteira, já eram observados impactos ambientais mais expressivos associados às atividades das organizações criminosas. Lideranças indígenas manifestaram preocupação com a possibilidade de expansão desse processo para o território brasileiro, ampliando os conflitos fundiários e a pressão sobre as terras indígenas (Projeto Colabora, 2025).

Além dos impactos sociais e territoriais, a reportagem chamou atenção para os efeitos ambientais associados ao narcotráfico. Conforme relatado por um indígena entrevistado, a atividade provocava a abertura de pistas clandestinas de pouso e a utilização de produtos químicos tóxicos empregados no processamento da pasta-base de coca. Tais práticas acrescentavam uma nova dimensão ao problema, conectando o avanço das economias ilícitas a processos de degradação ambiental (Projeto Colabora, 2025).

O pesquisador Paulo Moutinho, cofundador e membro do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), ressaltou que o crime organizado havia se fortalecido ao longo da década anterior na Amazônia, intensificando vínculos com crimes ambientais e contribuindo para a degradação florestal. Segundo o pesquisador, muitos desses crimes tinham origem no tráfico de drogas e operavam por meio de estruturas articuladas e de grande escala (Projeto Colabora, 2025).

Ao analisar a relação entre diferentes atividades ilícitas, Moutinho afirmou: “A grilagem financia a extração ilegal de ouro, que financia o tráfico de droga e armas. E estas atividades financiam a grilagem. Tem um sistema financeiro que está sendo construído para que um apoie o outro”.

O pesquisador destacou que o tráfico de drogas e armas pressionava a floresta por meio da extração ilegal de madeira, da mineração clandestina, da abertura de estradas e da construção de pistas de pouso ilegais. Em suas palavras, “cada pista de aviões aberta pelo CV [Comando Vermelho] equivale a 10 campos de futebol de floresta morta”. Para ele, a Amazônia encontrava-se progressivamente capturada por redes do crime organizado, fenômeno que já aparecia em relatórios da Polícia Federal, estudos especializados e relatos de campo produzidos por pesquisadores atuantes na região (Projeto Colabora, 2025).

Em 23 de julho de 2025, como resposta às cobranças de lideranças indígenas da comunidade Belém do Solimões, em Tabatinga, no Amazonas, o Ministério Público Federal (MPF), representado pelo procurador da República Gustavo Galvão Borner, realizou uma visita institucional a ela, descrita pelo órgão como a maior comunidade indígena da região do Alto Solimões (MPF, 2025).

A iniciativa teve como objetivo escutar a população, superior a sete mil pessoas, sobre as graves denúncias de abandono governamental, de crise no abastecimento de água potável, insegurança pública e negligência em áreas essenciais como educação e saneamento básico (MPF, 2025).

A visita contou com o apoio da Coordenação Regional do Alto Solimões (CR-AS), unidade regional da Funai, além da participação de um engenheiro do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Solimões, de representantes do Ministério da Saúde (MS), lideranças indígenas, professores e moradores locais (MPF, 2025).

Durante a visita, o MPF ouviu relatos sobre os problemas graves que afetavam a comunidade. Lideranças denunciaram a precariedade do sistema de abastecimento de água, considerado insuficiente e, muitas vezes, impróprio para o consumo. Também apontaram que os reservatórios instalados em 2019 não atendiam à demanda existente. Já os chafarizes construídos para amenizar a situação encontravam-se inoperantes por falta de ligação elétrica (MPF, 2025).

As escolas foram encontradas em condições precárias, sem água, manutenção ou merenda. A falta de alimentação escolar obrigava os alunos a retornarem para casa no intervalo para se alimentar. O MPF também recebeu relatos sobre uma creche inacabada havia mais de dez anos, com indícios de irregularidades na aplicação de recursos públicos.

Os moradores ainda reclamaram das condições das pontes utilizadas para circulação dentro da comunidade. Segundo eles, os relatórios da Prefeitura Municipal de Tabatinga que atestavam a boa condição das estruturas não correspondiam à realidade observada, pois as pontes apresentavam riscos e careciam de manutenção (MPF, 2025).

Na área da segurança pública, a comunidade relatou enfrentar o aumento do consumo de drogas entre adolescentes e jovens, a insegurança no período noturno, o tráfico de drogas e o envolvimento de facções criminosas na criminalidade local. A Base Anzol, estrutura fluvial de apoio operacional de segurança no Rio Solimões, utilizada conjuntamente pela Polícia Federal (PF), pela Polícia Civil do Amazonas (PCAM) e pela Polícia Militar do Amazonas (PMAM), encontrava-se desativada, e o policiamento militar fora retirado da comunidade por decisão judicial (MPF, 2025).

A partir das demandas apresentadas, o MPF assumiu compromissos para buscar soluções. O órgão informou que cobraria do Dsei providências relacionadas ao funcionamento dos três chafarizes existentes e esclarecimentos sobre o quarto equipamento, que não fora construído. Também anunciou que solicitaria laudos sobre a qualidade da água e informações sobre o planejamento para aquisição de caixas-d’água. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) seria igualmente questionada sobre a situação dos chafarizes e da qualidade da água fornecida à comunidade (MPF, 2025).

Em relação à segurança pública, o MPF instaurou procedimento administrativo para acompanhar as demandas apresentadas. O procurador da República Gustavo Galvão Borner comprometeu-se a discutir uma política de Estado para a segurança de fronteira envolvendo o Ministério da Defesa (MD) e as Forças Armadas.

O MPF informou que buscaria soluções extrajudiciais para a questão da segurança e solicitaria informações sobre a possível atuação de policiais militares voluntários oriundos de Manaus na região. Além disso, comprometeu-se a aprimorar os canais de recebimento de denúncias e documentos das comunidades indígenas, facilitando a comunicação com as lideranças.

Ao final da visita, Borner destacou a importância da ação e reafirmou o compromisso institucional do MPF com a comunidade. Segundo ele, o contato direto permitia conhecer as demandas locais, compreender a realidade vivida pelos povos indígenas e estabelecer o diálogo sem intermediários. O procurador reconheceu que Belém do Solimões representava apenas uma das diversas comunidades do Alto Solimões que enfrentavam desafios semelhantes, destacando a previsão de novas visitas a outras localidades (MPF, 2025).

Por meio da 4ª edição do estudo “Cartografias da Violência na Amazônia”, elaborado pelo FBSP (2025), a região consolidou-se como um ecossistema criminal complexo, no qual organizações como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) se articulam com facções regionais, ora cooperando, ora competindo por rotas, mercados e territórios.

Essa expansão se sobrepõe a um histórico amazônico marcado por conflitos fundiários, ocupações irregulares e crimes ambientais, produzindo uma verdadeira simbiose entre o poder bélico e financeiro das narcofacções e as economias ilícitas que, há décadas, sustentam as frentes de desmatamento, a exploração predatória e o garimpo.

Segundo o levantamento, a chamada Rota do Solimões tornou-se um dos principais corredores logísticos do narcotráfico na Amazônia. Enquanto o Comando Vermelho consolidou sua presença nas rotas fluviais do rio Solimões, o PCC ampliou sua atuação por meio de pistas de pouso clandestinas, áreas de garimpo ilegal e rotas terrestres conectadas à tríplice fronteira. A combinação entre os rios extensos, a floresta densa e a reduzida capacidade de fiscalização estatal transformou a região em um importante eixo de circulação de drogas, armas e recursos financeiros (FBSP, 2025).

A pesquisa evidenciou que o narcotráfico opera de forma articulada com outras atividades ilícitas, incluindo a extração clandestina de madeira, a pesca predatória, a lavagem de dinheiro e o garimpo ilegal. Em muitos casos, essas atividades compartilham os mesmos agentes, estruturas logísticas e rotas, fortalecendo o poder econômico e territorial das organizações criminosas. O estudo apontou ainda que atravessadores locais, embarcações rápidas, trilhas florestais e rotas sazonais compõem uma rede complexa de circulação que conecta áreas remotas da floresta aos mercados nacionais e internacionais (FBSP, 2025).

Outro aspecto relevante destacado pelo relatório refere-se aos impactos desse processo sobre os municípios da região. Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Tabatinga e Tonantins foram identificados como localidades afetadas pela expansão das facções e pela intensificação dos fluxos ilícitos (FBSP, 2025).

Nesse cenário, entre as 17 facções identificadas na região, destacam-se o CV e o PCC, grupos originários do Sudeste que, há mais de uma década, exploram ativamente as vulnerabilidades amazônicas. O CV assume protagonismo pela combinação entre capilaridade e velocidade de expansão: é a facção com maior dispersão territorial e maior capacidade de consolidar hegemonias (FBSP, 2025).

Em apenas dois anos, entre 2023 e 2025, o CV ampliou em 123% o número de municípios sob sua influência, alcançando 286 cidades. O PCC, por sua vez, adota uma estratégia distinta, operando de modo mais seletivo e concentrado em corredores logísticos de alto valor para o tráfico internacional. Diferentemente do CV, sua expansão não se dá por ocupação pulverizada, mas pelo controle de pontos estratégicos que conectam a Amazônia às rotas transnacionais de cocaína (FBSP, 2025).

Outro aspecto central evidenciado nesta edição da pesquisa do Fórum (2025) foi a crescente interconexão entre facções e crimes ambientais, especialmente em terras indígenas. Se antes garimpeiros e grileiros eram os principais vetores de ameaça às populações originárias, a entrada das facções, sobretudo do CV, alterou profundamente o nível de risco.

O documento sugere que a agenda climática precisa incorporar a segurança pública e o enfrentamento ao crime organizado como eixos estruturantes. A Amazônia não avançará rumo a um futuro sustentável enquanto suas políticas e instituições de proteção territorial não forem capazes de enfrentar, com solidez e continuidade, o poder das economias ilícitas e das facções que hoje disputam a região. Somente com salvaguardas efetivas ao Estado de Direito será possível garantir segurança, justiça e desenvolvimento para quem vive na Amazônia (FBSP, 2025).

Em entrevista à Gazeta do Povo publicada em fevereiro de 2026, o delegado da Polícia Civil de São Paulo (PCSP), Edson Pinheiro dos Santos Júnior, alertou que as consequências deste movimento são graves e vão além da destruição ambiental:

“O crime organizado se fortalece financeiramente, usando o dinheiro da exploração ilegal para comprar armas e expandir o tráfico. Conflitos por terra se tornam mais violentos, e as fronteiras do Brasil com países vizinhos ficam mais instáveis, com facções nacionais agindo em conjunto com grupos internacionais.”

O delegado afirma que para combater este cenário é preciso agir de forma integrada e inteligente. Para ele, algumas medidas essenciais são rastrear o caminho do ouro e da madeira ilegal, do interior da floresta até o mercado legal; unir as informações de polícias, de órgãos ambientais e da Receita Federal (RFB) num sistema único; realizar operações de infiltração para atingir os comandantes dessas redes; e proteger quem decide denunciar, quebrando a cultura do medo que impera nessas regiões.

O caso evidencia que a presença do narcotráfico no Alto Solimões não constitui um fenômeno recente, mas um processo que vem sendo reiteradamente denunciado por lideranças indígenas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e instituições públicas ao longo de quase duas décadas. As diferentes fontes analisadas revelam a permanência e o agravamento de problemas relacionados ao aliciamento de jovens, ao consumo de drogas, à violência, às disputas territoriais e às fragilidades das políticas públicas, indicando que, apesar da crescente visibilidade do tema, as respostas institucionais permanecem insuficientes diante da complexidade do conflito.

 

Última atualização em: Julho de 2026.

 

Cronologia

2001–2006: Registro de 36 suicídios de jovens indígenas na comunidade tikuna de Umariaçu II, em Tabatinga (AM), posteriormente associados por lideranças indígenas à ausência de oportunidades, ao agravamento da crise social e ao consumo de drogas.

Novembro de 2007: Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), denuncia que cerca de 200 adolescentes indígenas de 43 etnias dos municípios de Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira (AM) são usuários de drogas e utilizados por traficantes no transporte de entorpecentes.

2007: Criação do Serviço de Proteção Indígena (SPI) pela comunidade tikuna de Umariaçu II, posteriormente ampliado para outras etnias da região e denominado Polícia Indígena do Alto Solimões (Piasol), como resposta comunitária ao aumento da violência.

20 de março de 2008: Cacique Manoel Nery Tikuna denuncia o agravamento do alcoolismo, do consumo de drogas e dos suicídios entre jovens indígenas da comunidade Umariaçu II.

25 de março de 2008: Vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados (CD), Sebastião Bala Rocha (PDT-AP), defende o envio de força-tarefa de segurança pública para enfrentamento do tráfico e do consumo de drogas entre os povos indígenas do Alto Solimões.

Agosto de 2008: Fundação Nacional do Índio (Funai) denuncia o aumento do consumo de drogas entre crianças e adolescentes indígenas e propõe ações de educação e capacitação profissional para reduzir o aliciamento da juventude.

Outubro de 2008: Presidente da Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado estadual José Lôbo (PCdoB), denuncia a ocorrência de consumo de drogas, gravidez precoce, suicídios, turismo sexual, violência doméstica e violência sexual envolvendo crianças e adolescentes indígenas na região da tríplice fronteira.

2015: Documentos do Ministério Público Federal (MPF) evidenciam a baixa presença das forças de segurança nas terras indígenas, as dificuldades de acesso das comunidades indígenas aos serviços de segurança pública e o sub-registro de ocorrências policiais.

2016: Sofia Caroline de Castro Souza Peña defende dissertação no Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), relacionando o avanço do narcotráfico entre o povo tikuna às transformações socioculturais, às vulnerabilidades da juventude indígena e às limitações das políticas públicas de segurança.

Junho de 2022: Assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips na Terra Indígena Vale do Javari, evidenciando a intensificação dos conflitos territoriais e da violência associada às economias ilícitas na região.

Julho de 2022: Intensificação do recrutamento de indígenas brasileiros para o trabalho nos cultivos de coca no Peru, ampliando a inserção das comunidades indígenas na cadeia produtiva do narcotráfico.

27 de fevereiro de 2023: Agravamento do consumo de drogas entre jovens tikuna e ampliação da participação de indígenas no transporte e comércio de entorpecentes nas comunidades do Alto Solimões.

14 de março de 2025: Expansão de ocupações irregulares e processos de grilagem em áreas próximas à Terra Indígena Umariaçu, associados à atuação de traficantes peruanos e ao avanço do narcotráfico na região de fronteira.

23 de julho de 2025: Ministério Público Federal (MPF) realiza visita institucional às comunidades indígenas Tikuna e Kokama em Belém do Solimões e constata graves problemas relacionados ao abastecimento de água, educação, infraestrutura, saneamento e segurança pública, além do avanço das facções criminosas e do consumo de drogas entre adolescentes.

19 de novembro de 2025: Alto Solimões é identificado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) como um dos principais corredores do tráfico internacional de drogas no Brasil, marcado pela consolidação da “Rota do Solimões”, pela expansão das facções criminosas e pelo fortalecimento do microtráfico nas comunidades indígenas.

12 de fevereiro de 2026: Delegado Edson Pinheiro dos Santos Júnior, em entrevista à Gazeta do Povo, afirma que as facções criminosas ampliam sua atuação na Amazônia ao articular o narcotráfico com a extração ilegal de madeira, o garimpo ilegal, a grilagem de terras e outros crimes ambientais, fortalecendo seu controle territorial e financeiro.

 

Fontes

BARROS, Ciro; PRADO, Avener. Expansão de roçados de coca no Peru aquece busca por mão de obra indígena no Alto Solimões. Agência Pública, 14 jul. 2022. Disponível em: https://shre.ink/3as2. Acesso em: 22 jun. 2026.

BRASIL. Ministério Público Federal – MPF. Após visita, MPF constata graves problemas em comunidade indígena de Belém do Solimões (AM). Brasília, 8 ago. 2025. Disponível em: https://shre.ink/3a8O. Acesso em: 22 jun. 2026.

FARIAS, Elaíze. Terras indígenas entram na rota do tráfico internacional de drogas na Amazônia. Projeto Colabora, 19 dez. 2022. Disponível em: https://shre.ink/3a8z. Acesso em: 22 jun. 2026.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA – FBSP. Cartografias da violência na Amazônia. 4.ed. São Paulo: FBSP, p. 182, 2025. Disponível em: https://shre.ink/3asl. Acesso em: 12 jun. 2026.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA – FBSP. Experiências promissoras de prevenção e enfrentamento ao crime e à violência na Amazônia. São Paulo: FBSP, p. 162, 2025. Disponível em: https://shre.ink/3aIM. Acesso em: 12 jun. 2026.

LANDAZURI, Daniel. Alto Solimões se torna rota central do tráfico internacional dominada pelo CV e PCC, diz estudo. G1 Amazonas, 19 nov. 2025. Disponível em: https://shre.ink/3a8K. Acesso em: 22 jun. 2026.

REBELLO, Aiuri. Na esteira das rotas do tráfico na Amazônia, facções criminosas expandem o garimpo ilegal. Gazeta do Povo, 11 jul. 2024. Disponível em: https://shre.ink/3a8A. Acesso em: 22 jun. 2026.

WAIYEĪCÜ (Takelson Pereira Vasques); DUYEPAWEĒNA (Jeane Pinheiro Fernandes). No oeste do Amazonas, álcool e drogas entre jovens assolam maior povo indígena do país. Agência Pública, republicado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU). São Leopoldo: IHU, 1 mar. 2023. Disponível em: https://shre.ink/3ars. Acesso em: 22 jun. 2026.

 

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