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Povo indígena Kambiwá luta pela reconquista de suas terras tradicionais, por acesso à água e contra a transposição do Rio São Francisco
UF: PE
Município Atingido: Inajá (PE)
Outros Municípios: Floresta (PE), Ibimirim (PE), Manari (PE), Petrolândia (PE), Sertânia (PE)
População: Povos indígenas
Atividades Geradoras do Conflito: Agrotóxicos, Atuação de entidades governamentais, Atuação do Judiciário e/ou do Ministério Público, Barragens e hidrelétricas, Construção civil, Hidrovias, rodovias, ferrovias, complexos/terminais portuários e aeroportos, Implantação de áreas protegidas, Indústrias outras, Linhas de transmissão, Pecuária, Perímetros irrigados, Políticas públicas e legislação ambiental, Transposição de bacias hidrográficas
Impactos Socioambientais: Alteração no ciclo reprodutivo da fauna, Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Assoreamento de recurso hídrico, Desertificação, Desmatamento e/ou queimada, Erosão do solo, Falta / irregularidade na autorização ou licenciamento ambiental, Falta / irregularidade na demarcação de território tradicional, Falta de saneamento básico, Inundações e enchentes, Invasão / dano a área protegida ou unidade de conservação, Mudanças climáticas, Poluição atmosférica, Poluição de recurso hídrico, Poluição do solo, Poluição sonora, Precarização/riscos no ambiente de trabalho
Danos à Saúde: Alcoolismo, Desnutrição, Doenças mentais ou sofrimento psíquico, Doenças transmissíveis, Falta de atendimento médico, Insegurança alimentar, Piora na qualidade de vida, Violência – ameaça, Violência psicológica
Síntese
A Terra Indígena (TI) Kambiwá abrange os municípios de Floresta, Ibimirim e Inajá, no estado de Pernambuco (PE). Os Kambiwá habitam a região das serras Negra e do Periquito desde, pelo menos, o início do século XIX. Nesse período, eles foram perseguidos e dispersados pela ação dos chamados “coronéis” do Alto Sertão pernambucano, segundo dados do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade (Nepe), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, s.d).
O sentido da palavra ‘Kambiwá’ – uma reminiscência de sua língua materna, pois o português é atualmente o idioma usado no cotidiano – é ‘retorno à Serra Negra’, uma região sagrada para diversas populações indígenas. Situada entre Ibimirim e Petrolândia, é de suma importância para a cosmologia dos Kambiwá. Pesquisas da UFPE registraram que, ao longo dos séculos XIX e XX, ela foi palco de disputa pela manutenção e reconquista do território por esse povo.
Em 1954, o então ministro da Agricultura João Cleofas mandou demarcar o território kambiwá para amenizar as tensões entre indígenas, agricultores e fazendeiros. Em 08 de maio de 1967, lideranças dos Kambiwá encaminharam carta ao antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) (atual Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai) reivindicando o retorno à Serra Negra. O documento registra que os Kambiwá são descendentes de antigos habitantes da Serra Negra, incluindo os povos Pipipã e Umã (Barbosa, 1991, p. 29-30 apud Gonçalves et al., 2022).
Os conflitos vividos pelo povo Kambiwá são compartilhados por outros povos indígenas no Brasil, que sofrem os impactos da sobreposição territorial de Unidades de Conservação (UC) sobre Terras Indígenas. Nesse caso, a TI Kambiwá sofre impactos devido à Reserva Biológica (Rebio) Serra Negra. De acordo com o site Unidades de Conservação no Brasil (s.d), a Rebio foi criada por meio do decreto nº 87.591, de 20 de setembro de 1982, assinado pelo então presidente da República e ditador militar João Batista Figueiredo, do Partido Democrático Social (PDS).
De acordo com o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade (Nepe), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, s.d), somente em 1992 acontece o processo de regularização fundiária, quando a Funai publica a portaria nº 1284/92 e constitui o grupo de trabalho responsável pela identificação, levantamento fundiário e delimitação da TI Kambiwá.
Em 1996, o Ministério da Justiça (MJ) publica a Portaria nº 308, declarando os limites da Terra Indígena Kambiwá, com superfície aproximada de 27.100 hectares. A TI Kambiwá somente foi homologada em 1998, por decreto de 11 de dezembro de 1998, assinada pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB).
A partir dos anos 2000, o povo Kambiwá se mobiliza contra os possíveis impactos do projeto de transposição do rio São Francisco. Em abril de 2007, mais de 30 povos indígenas do Nordeste traçaram estratégias durante atividades do “Abril Indígena” para defender seus territórios e agir contra a transposição. Os povos Kambiwá, Pankararu e Pipipã, de Pernambuco, estiveram envolvidos na mobilização, segundo informações publicadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (13/04/2007).
Já em 2008, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e parceiros publicam o “Relatório de denúncia: Povos indígenas do Nordeste impactados com a transposição do rio São Franscisco”. Os povos Anacé, Kambiwá, Kariri-Xocó, Pankararu, Pipipã, Tumbalalá, Tuxá, Truká e Xocó, localizados nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe, são identificados como diretamente afetados pelo projeto. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 15/03/2010), em 2010, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) pede esclarecimentos ao governo brasileiro sobre as violações da Convenção 169 pela obra da transposição.
Em 2013 e 2015, pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Instituto de Pesquisas Aggeu Magalhães, da Fundação Oswaldo Cruz (IAM/Fiocruz), publicam artigos sobre os impactos da transposição do rio São Francisco na vida de indígenas. Nesse contexto, Mendonça (et al., 2013) alerta para o grau de maior vulnerabilidade das mulheres.
Os Kambiwá e os Pipipã compartilham uma história comum, sendo estes conhecidos como uma dissidência daqueles. Ambos partilham a dificuldade de sobrevivência por viverem em uma região semiárida (Paiva e Souza, 2003).
Vivenciam também diversas questões comuns a outros povos indígenas, como as lutas pela reconquista de suas terras tradicionais e contra a transposição do Rio São Francisco, e a falta de assistência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em relação à distribuição de água para as aldeias. Como a terra kambiwá está situada num lugar predominantemente seco e de chuvas irregulares, passam por sucessivos períodos de estiagens.
Diante da crise climática e da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que aconteceu em novembro de 2025, em Belém, capital do Pará (PA), 30 indígenas foram selecionados como “negociadores climáticos”, sendo uma delas Jaqueline Kambiwá, jovem indígena pernambucana. Segundo reportagem de Afonso Bezerra e Ana Carolina Vasconcelos, no Brasil de Fato (20/10/2025), a iniciativa chamada “Kuntari Katu: líderes indígenas na política global”, foi construída em parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI) e das Relações Exteriores (MRE).
Em 2026, outra ameaça surge no território. O Ministério Público Federal em Pernambuco (MPF/PE) instaura um inquérito civil para apurar as circunstâncias da implantação de um complexo de energia solar, o Complexo Energético Kambiwá, dentro do território do povo Kambiwá. Segundo a Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai, 18/03/2026), lideranças indígenas alegam que a empresa FPS Consultoria e Gestão Empresarial não cumpriu com a consulta prévia, conforme determina a Convenção 169, da OIT.
Contexto Ampliado
O censo de 2022 aponta que em Pernambuco vivem 106.634 indígenas, o equivalente a 6,29% do total do País. O percentual dos indígenas em Pernambuco em relação à população total é de 1,18% – porcentagem maior do que a média nacional de 0,83%. O estado é o quarto com mais indígenas do Brasil, distribuídos por 12 terras indígenas de usufruto de nove etnias (Governo de Pernambuco, 2023, p. 07).
A Terra Indígena (TI) Kambiwá abrange os municípios pernambucanos de Inajá, Floresta, Ibimirim e Inajá. De acordo com o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade (Nepe), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, s.d), os Kambiwá habitam a região das serras Negra e do Periquito desde, pelo menos, o início do século XIX, época em que os “coronéis” do chamado “Alto Sertão pernambucano” os perseguiram e dispersaram por força das armas (Funai, 1988 apud Nepe/UFP s.d).
Em seu movimento de perambulação pelo sertão, foram várias as tentativas de retomar a região da Serra Negra. Pesquisas do grupo revelam que houve sucessivas expulsões, induzindo o grupo a um movimento de permanente diáspora e consequente ocultamento da identidade étnica por meio da repressão de suas práticas rituais (“Praiá” e “Toré”), inclusive com o auxílio de forças policiais. A passagem do século XVIII para o XIX foi ocasião das últimas “reduções de índios” (visando ao estabelecimento de aldeamentos) que se tem notícia no sertão de Pernambuco (Nepe/UFP s.d).
Assim como diversos grupos indígenas, os Kambiwá, no início do século XX, estavam à mercê dos fazendeiros locais, que detinham grande poder. Publicação do Nepe/UFPE menciona que, nos anos 1939 e 1940, as tentativas de ocupação da Serra Negra acabaram com prisões e torturas do líder indígena Cabeça-de-Pena pela Polícia em Inajá. Retornaram então à localidade hoje conhecida como Baixa da Índia Alexandra.
Em 1954, o então ministro da Agricultura, João Cleofas, do Partido União Democrática Nacional (UDN), manda demarcar as terras (com os seguintes limites: Faveleira, Nazário Serrote das Cabaças, Riacho Americano, Serra da Inveja e Serra Verde, quando foi construído o Travessão – responsável pela divisão de uma extensa área em terra de pasto e terra de roça) como forma de amenizar as tensões entre os indígenas, agricultores e o fazendeiro pecuarista (Nepe/UFP s.d).
Segundo a pesquisadora Maria Rosário Carvalho (s.d), 30 anos depois, em 1984, lideranças dos Kambiwá assinam e enviam uma carta à superintendência regional da antiga Fundação Nacional do Índio (atual Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai) demandando o acesso à Serra Negra para realizar seus rituais. Segundo Carvalho, à época estava estabelecida na área uma reserva biológica (Rebio) sob a jurisdição do antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Ainda que a pesquisadora relate não saber a resposta da Funai, o pedido dos indígenas acarretou na inauguração do Posto Modelo da Funai em 1971, na região.
Barbosa (1991) também cita essa carta em sua pesquisa. Segundo ele, a carta de “Lideranças Indígenas dos Kambiwá”, de 08 de maio de 1967 e endereçada ao antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) (substituído pela Fundação Nacional do Índio – Funai em dezembro daquele ano), informava que os Kambiwá eram formados por dois grandes grupos e consideravam-se também descendentes dos Pipipã e Umã, antigos habitantes na Serra Negra. A partir da leitura do documento, o pesquisador escreveu que Kambiwá era “uma designação genérica e provisória de um grupo de índios, cujos membros se afirmam descendentes de antigos moradores da Serra Negra” (Barbosa, 1991, p. 29-30 apud Gonçalves et al., 2022), expressando o desejo dos indígenas de retornarem àquele local.
O ano de 1978 foi muito importante para os Kambiwá porque aconteceu a primeira demarcação física do seu território pela Funai. Segundo dados do site Povos Indígenas no Brasil (PIB), do Instituto Socioambiental (ISA, s.d), este procedimento de demarcação do território “teve como subsídio preliminar apenas um levantamento topográfico, não cumprindo as exigências do decreto No. 76999 de 08/01/76, nem os itens do levantamento antropológico constantes na portaria 517/11 de 03/08/78”. A demarcação foi assim realizada por um engenheiro agrônomo e um auxiliar técnico de topografia, totalizando 16.085 hectares (ISA, s.d).
A publicação revela que, mesmo sendo referenciada como área demarcada, o fato de não ter seguido o processo normal de definição de uma área indígena fazia com que fosse frequentemente questionada, o que a tornava passiva a revisões. Os Kambiwá, insatisfeitos, não cessaram de reivindicar seu território, pois continuavam sentindo-se explorados.
De acordo com o site Povos Indígenas no Brasil (PIB), do Instituto Socioambiental (s.d), a história dos Kambiwá se confunde com a de uma série de outros povos indígenas que vivem nos sertões pernambucanos. A publicação cita que o termo Kambiwá significa “retorno à Serra Negra”, e este representa um dos objetivos do povo Kambiwá, que busca ampliar seu território incorporando a região da Serra Negra, área convertida em Reserva Biológica de Serra Negra (Rebio) na década de 1980.
A título de complementação, a Rebio Serra Negra foi criada por meio do decreto nº 87.591, de 20 de setembro de 1982, assinado pelo então presidente da República da ditadura militar, general João Batista de Figueiredo (então no Partido Democrático Social, sucessor da Aliança Renovadora Nacional – Arena desde 1979).
Essa realidade vivida pelo povo Kambiwá também é compartilhada por outros povos indígenas no Brasil, que sofrem os impactos da sobreposição territorial de Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Diversos conflitos dessa natureza estão disponíveis neste Mapa de Conflitos.
Somente em 1992 o processo de regularização fundiária foi retomado, visto que a Funai publica uma portaria nº 1284/1992 e constitui um grupo de trabalho, responsável pela identificação, levantamento fundiário e delimitação da TI Kambiwá (Nepe/UFP s.d).
Em maio de 1996, o então ministro de Estado da Justiça, Nelson Azevedo Jobim, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), no uso de suas atribuições, publicou a portaria n◦ 308, de 17 de maio de 1996, declarando a definição de limite da TI Kambiwá com superfície aproximada de 27.100 ha (vinte e sete mil e cem hectares) e perímetro de 70 km (setenta quilômetros) (Acervo ISA, 1996). Em 1998, o território foi homologado conforme decreto de 11 de dezembro de 1998, assinado pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB), publicado no Diário Oficial da União (DOU) de 14/12/1998 (Boletim Funai, 2013).
Segundo relatos do cacique Zuca, registrado pelo projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil em Povo Indígena Kambiwá (2010), o território demarcado não representou uma segurança para os indígenas. Em suas palavras:
“A gente como Povo se organizou para ter nosso território demarcado. Quando essa terra foi demarcada ela continuou ainda nas mãos dos posseiros, que aí mais uma vez surgiu a necessidade da gente organizar e fazer a retomada. Foi aí que no dia 19 de setembro de 2000 que o Povo Kambiwá organizado e articulado com a Apoinme [Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo] fez a primeira retomada, foi aí que conseguimos garantir recursos para indenizar o restante do território Kambiwá.” (Cacique Zuca, Nova Cartografia Social, 2010, p. 05)
Outro relato expõe a história do povo Kambiwá sobre esse período. De acordo com Silva, que entrevistou Valdira Ana da Silva, conhecida como Dona Valdira, publicado no livro “Mulheres Indígenas da Tradição” (2019),
“…o nome Kambiwá significa ‘volta à Serra Negra’, que é o local de origem do nosso povo. Muitos dos nossos antepassados saíram de lá expulsos, sob pressão e sofrendo humilhações, perseguidos por fazendeiros e grileiros que tinham interesse na Serra. Apesar da incansável resistência, a violência do colonizador foi grande e se deu a expulsão dos índios da Serra Negra. A estratégia de permanecer no entorno do nosso lugar de origem foi construir moradia na localidade Baixa da Alexandra, nossa primeira aldeia fora da Serra Negra e depois deu-se a formação das demais aldeias…” (Silva, 2019, p. 34)
Silva (2019) afirma haver oito aldeias no território na época da pesquisa, sendo elas: Alexandra, área de Retomada, Baixa da Tear, Ingá, Nazário, Santa Rosa, Serra do Periquito, Pereiro, além da aldeia Peitudo, que estava em fase de reconhecimento. Em termos quantitativos, de acordo com o censo demográfico de 2022 publicado no relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), há cerca de 2.980 indígenas na TI Kambiwá.
Em 2007, entre as atividades do ‘Abril Indígena’ e em preparação ao ‘Acampamento Terra Livre’, em Brasília (DF), mais de 30 povos indígenas do Nordeste traçaram estratégias para defender territórios e agir contra o projeto de transposição do rio São Francisco. Segundo publicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (13/04/2007), cerca de 300 pessoas, entre indígenas e representantes de organizações e movimentos sociais, realizaram ato público em diversos locais do País.
O encontro citou o território de Serra Negra como local símbolo e referência mística de rituais indígenas para os povos Kambiwá, Pakararu e Pipipã. Segundo a publicação, próximo à Serra localizava-se um dos trechos por onde poderia passar o Canal Leste do projeto de Transposição do rio São Francisco, mas os povos citados pretendiam impedir o avanço das obras em seus territórios: “Os povos indígenas são contrários à transposição, não aceitam negociar compensações com o governo federal e desconfiam das recentes investidas do Ibama na região.” (MST, 13/04/2007)
Sobre o projeto de transposição do rio São Francisco e para fins de contextualização, com seus mais de 2.800 km de extensão, o maior rio inteiramente brasileiro nasce na Serra da Canastra, estado de Minas Gerais, passa por Bahia e Pernambuco, e deságua entre Alagoas e Sergipe, (Mendonça et al., 2013).
Segundo Marques (2006 apud Mendonça et al., 2013), na bacia do rio São Francisco estão distribuídos 32 povos indígenas ocupando 38 territórios tradicionais:, Akonã, Atikum, Fulni-ô, Kalankó, Kambiwá, Kantaruré, Kapinawá, Kara-potó, Kariri, Kariri-Xocó, Karuazu, Katokinn, Kaxagó, Kaxixó, Koiupanká, Pankaiuká, Pankará, Pankararé, Pankararu, Pankaru, Pataxó, Pipipã, Tingui-Botó, Truká, Tumbalalá, Tupan, Tuxá, Xacriabá, Xocó, Xukuru e Xukuru-Kariri. A população estimada é de cerca de 72 mil indígenas.
Os Kambiwá atuaram em diversas manifestações onde o tema da transposição do rio São Francisco esteva presente. Mulheres indígenas se manifestaram por meio da Apoinme, entre 13 e 16 de agosto de 2007, durante a 1ª Assembleia das Guerreiras Mulheres Indígenas do Leste e Nordeste.
De acordo com publicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi, 16/08/2007), mulheres indígenas do Nordeste e Leste, representando 44 povos indígenas, estiveram reunidas em Ribeirão das Neves, Minas Gerais (MG), com o objetivo de fomentar uma maior intervenção política em questões que atingiam seus povos, tais como o projeto de transposição do rio São Francisco.
Outro conflito que envolve o uso das águas e a transposição do São Francisco, e que revela fatos marcados por violações de direitos, deslocamentos compulsórios e desigualdades no acesso à água em estados do Nordeste, está disponível neste Mapa de Conflitos: https://shre.ink/jT7a.
Segundo publicação do Partido dos Trabalhadores (PT, 02/07/2026), a ideia de transpor as águas do São Francisco como solução para a seca remonta ao período do Império do Brasil (1822-1889). O primeiro estudo formal foi encomendado por D. Pedro II, em 1852.
Ao longo do século XX, vários presidentes promoveram estudos e debates, como Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), João Figueiredo, que integrou os partidos Aliança Renovadora Nacional (Arena), Partido Democrático Social (PDS) e o Partido Social Democrático (PSD) ao longo de sua trajetória política, Itamar Franco (PMDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Mas foi só no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que o plano saiu do papel. A publicação revela:
“Em seu segundo ano de governo, 2004, foram iniciados debates com a sociedade, e até 2006 foi elaborado o Plano Decenal de Recursos Hídricos e obtidas as licenças ambientais necessárias para dar início à construção, que foi efetivamente iniciada no primeiro ano do segundo governo Lula, 2007. O projeto foi incluído no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e desenhado não só para levar água, mas como um plano de segurança hídrica e desenvolvimento regional.” (PT, 2026)
Em 2008, foi publicado o “Relatório de denúncia: Povos indígenas do Nordeste impactados com a transposição do rio São Franscisco”, produzido por uma rede de instituições como a Apoinme, Associação de Advogados dos Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR), Núcleo de Estudos em Comunidades e Povos Tradicionais e Ações Socioambientais (Nectas), da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e Cimi.
O estudo teve apoio da Oxfam, do Projeto de Articulação Popular pela Revitalização do Rio São Francisco e do Projeto Nova Cartografia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil/Cartografia dos Povos e Comunidades Tradicionais do São Francisco (Ufam e Nectas/Uneb).
O relatório foi construído a partir de oficinas realizadas entre agosto e outubro de 2008, e os dados revelam os povos indígenas afetados pelo projeto de transposição: Anacé, Kambiwá, Kariri-Xocó, Pankararu, Pipipã, Tumbalalá, Tuxá, Truká, e Xocó, localizados nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe. Trecho da publicação esclarece:
“Em meio a uma série de outras políticas e déficits sociais, étnicos e ambientais que assolam os Povos Indígenas do Nordeste, o caso foi escolhido pela magnitude de seus impactos negativos sobre vários territórios indígenas da Bacia do São Francisco e por ameaçar a própria sobrevivência do rio, também conhecido como Rio Opará (rio-mar), que é um dos bens de maior valor simbólico e material na trajetória desses povos.” (Cimi, 2008, p.07)
O Relatório Denúncia encontra-se disponível aqui: https://shre.ink/jrsz.
Publicado em 2008 pelo canal Grilo Radio Frei Damião, na rede social YouTube, o documentário “Kambiwá – a questão da água parte 1” revela outra dimensão da questão: a falta de assistência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em relação à distribuição de água para as aldeias do território.
De acordo com depoimentos dos moradores, as dificuldades de fornecimento da água pela Funasa impediam o abastecimento das comunidades, um problema que se prolongou por anos, sem notícias sobre a situação de negligência no tocante à perfuração dos poços. Conforme salientou um membro kambiwá da comunidade no vídeo:
“Enganaram a gente, fizeram as composições de chafariz aqui no meio da população e lá no meio da encanação ficou faltando 1800 metros para emendar os canos e não concluíram a obra. Então queremos que ela seja concluída até o dia 10 de março, porque estamos passando sede, não temos condições de lavar uma roupa, tomar um banho. (…) Desde que a gente chegou pra cá, não conseguimos instalar a água de maneira nenhuma. Chega um tambor d’água para cada família de três em três dias. (…) No meu modo de ver, acho que é uma escravidão o que a Funasa está fazendo com o povo; (…) de retomada, estamos aqui nesta localidade como escravos, infelizmente é um órgão que tem a competência de cuidar e não estão cuidando…” (YouTube, 2008)
Assista ao vídeo aqui: https://shre.ink/jrBe.
Em 2010, o projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil publicou um fascículo sobre o Povo Indígena Kambiwá. Tendo como coordenadores Alfredo Wagner Berno de Almeida e Rosa Elisabeth Acevedo Marin, a publicação apresenta a identidade kambiwá, o território, as práticas culturais e educacionais, além de temas sobre impactos e conflitos socioambientais, tudo a partir das narrativas dos próprios indígenas.
Um trecho sobre o projeto de transposição do rio São Francisco e os impactos no território dos Kambiwá revela:
“O nosso território com a transposição vai ser impactado indiretamente, mas vai ser impactado. Porque o canal não vai passar por dentro do nosso território, mas vai passar por dentro do território Pipipã. Mas, também a gente sabe que o fluxo de gente vai passar por aqui por dentro e só Deus sabe o que vai acontecer. Envolvimento com droga, com prostituição, com bebida, porque a gente já tem experiência muito negativa com quem vem de fora pra aqui pra dentro. Temos que olhar a transposição com um olhar crítico. Enquanto o governo está gastando milhões com a transposição do rio que pode até ser bom para alguns, mas, tem comunidades que estão aí passando fome e sede e isso precisa ser visto e dito. É com esse olhar que a gente tem que ver a transposição. Nós temos comunidades aqui passando sede, enquanto o governo quer levar água não sei para onde…” (Cacique Zuca, Nova Cartografia Social, 2010)
A publicação divulga a Organização das Guerreiras Indígenas de Kambiwá (Ogik), movimento de mulheres que se organizaram na comunidade para lutar por direitos. Segundo Luciene Guerreira Kambiwá, a organização criou projetos de autossustentação, perfuração de poços artesianos, resgate da história da comunidade por meio da reformulação do material didático nas escolas e criação de animais da região para complementação do sustento (Nova Cartografia, 2010, p. 08).
A condição da saúde no território foi revelada a partir do depoimento do Cacique Zuca:
“Uma outra questão é a saúde. A gente tem um sistema de saúde deficiente. A gente tem hoje, em Kambiwá, aldeias que ainda passam sede, que não têm água, apesar de várias e várias reivindicações perante a FUNASA, que hoje é o órgão responsável pela questão da saúde. A gente vem há mais de cinco anos dependendo de que eles façam um sistema de abastecimento d’água, a exemplo dessa aldeia aqui, Aldeia Barracão. E não temos um transporte pra se acontecer de adoecer uma pessoa. Muitas vezes, ao longo do ano, falta medicamento, e às vezes passa três, quatro meses sem receber recurso pra fornecer medicamento pra comunidade. A gente sabe também que eles deveriam levar em consideração e apoiar mais a nossa medicina tradicional, né? E isso é coisa que não é feita, pelo menos aqui em Kambiwá. E essa é uma reivindicação da gente.” (Cacique Zuca Nova Cartografia, 2010, p. 10)
Por fim, a comunidade trouxe suas reivindicações sobre o rio São Francisco:
“E queremos pra o Rio São Francisco uma revitalização, com drenagem na calha, com reflorestamento do jeito que nós precisamos aqui. Com produtos orgânicos sem agrotóxico. Com saneamento básico. Basta equilibrar as águas. Nós temos água subterrânea aqui. Instale os poços direito e aí não precisa a gente ter transposição”.
A publicação está disponível aqui: https://shre.ink/jrI0.
De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 15/03/2010), a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Conselho Mundial de Igrejas receberam a delegação da “Campanha Opará – Povos Indígenas em defesa do rio São Francisco”, no Palácio Wilson, das Nações Unidas, em 1 de fevereiro de 2010. Na ocasião, todos receberam o relatório de denúncia “Povos Indígenas do Nordeste impactados com a Transposição do rio São Francisco”, e a OIT pediu esclarecimentos ao governo brasileiro sobre as violações da Convenção 169 pela obra da Transposição.
Na visão do sociólogo e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Ruben Siqueira, coordenador do Projeto São Francisco e membro da Articulação Popular para a Revitalização do São Francisco, que reúne diferentes segmentos sociais, povos e organizações na luta pelo rio – expressa em publicação da CPT (02/05/2011) –, diferente da propaganda oficial, “a transposição não significará solução para os pobres, ao contrário, lhes trará mais dificuldades”.
A publicação ressalta que a construção das barragens de Pedra Branca e Riacho Seco provocariam a inundação de partes das terras dos Tumbalalá e Truká, e o canal do trecho leste atravessaria as terras Kambiwá e Pipipã.
Segundo a publicação da CPT (02/05/2011), a obra iria beneficiar, principalmente, empresários da agricultura irrigada, da carcinicultura (produção de camarão), da construção civil, da exportação de frutas, das monoculturas para a produção de biocombustíveis e do polo siderúrgico-portuário do Pecém (Fortaleza – CE).
Um caso que envolve o povo indígena Anacé, pescadores, agricultores e outras comunidades tradicionais que lutam e resistem contra impactos negativos do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) está disponível neste Mapa de Conflitos: https://shre.ink/jfKg.
Na mesma época, ao analisar outra vertente dos conflitos no território dos Kambiwá, Josinês Barbosa Rabelo, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, publicou na revista Cadernos de Estudos Sociais, em 2011, o artigo “Conflitos ambientais gerados pelo racismo ambiental no processo de implantação do Conselho Gestor da Rebio Serra Negra em terras indígenas-PE”, no qual denuncia práticas de racismo ambiental nos conflitos ambientais envolvendo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e os povos indígenas Kambiwá e Pipipã.
O artigo analisa os conflitos ambientais no processo de implantação do Conselho Gestor da Rebio Serra Negra, bem como na elaboração do Plano de Manejo da unidade de conservação, investigando a condução do Ibama e de que forma os povos indígenas Kambiwá e Pipipã participaram dos espaços públicos de gestão ambiental. A pesquisadora utiliza como base o conceito de racismo ambiental para analisar as relações de poder desse caso.
“Como os conflitos existentes entre os povos indígenas de Serra Negra e o Ibama trazem à reflexão o Racismo Ambiental? Inicialmente é preciso destacar que existem práticas discriminatórias diretas e indiretas. De acordo com Arruti (2006), os impactos podem ser intencionais ou atingir por acaso determinado grupo. Isso implicaria, no caso em questão, no desconhecimento da existência de povos indígenas na região. Acontece que todos sabiam da existência das tribos [sic] Kambiwá e Pipipã. Só não foram considerados. Logo, é Racismo Ambiental configurado.” (Rabelo, 2011, p. 310)
O artigo sustenta que houve racismo institucional por parte do governo ao negar a importância da região da Serra Negra para as comunidades indígenas. A pesquisa encontra-se disponível aqui: https://shre.ink/jl61.
Na mesma direção, em 2013, Mendonça et al. publicam artigo resultado de um projeto de pesquisa e formação desenvolvido com as mulheres indígenas em Pernambuco, entre 2011 e 2012. A pesquisa buscou compreender os impactos das grandes obras, principalmente da transposição do rio São Francisco e obras anexas sobre os povos indígenas. Em especial, a pesquisa trouxe discussões tanto para a violação dos direitos indígena dos povos em Pernambuco quanto para os direitos humanos das mulheres destes povos.
Segundo a publicação, os povos indígenas da região consideram o “Velho Chico pai e mãe das nações indígenas”, e estão entre os principais defensores da revitalização do rio, bem como detentores de saberes e práticas milenares de convivência com o semiárido. Na visão dos autores:
“De fato, o problema não é necessariamente a falta de água no sertão, sendo ele o semiárido mais chuvoso do planeta (ASA, 2013) e tendo um lençol freático muito rico em água. O problema é o acesso à água, devido a concentração dela e da terra nas mãos de uma elite. A água, principalmente distribuída em carros-pipa, mesmo a poucos quilômetros do rio São Francisco, é usada com finalidades políticas e eleitoreiras, reproduzindo ainda hoje as dinâmicas da indústria da seca que caracterizaram o coronelismo assistencialista. As mulheres indígenas nos apontaram que as maiores prejudicadas com essa concentração da água são elas, afinal, assim como as demais mulheres do contexto rural, elas são as responsáveis pelos usos domésticos da água e percorrem longas distâncias para o abastecimento hídrico da família.” (Mendonça et al., 2013, p. 138)
É dentro desse complexo contexto que surgem as diversas denúncias das mulheres indígenas e de seus povos sobre os impactos das obras em seus territórios e em suas vidas, conforme publicado por Mendonça (et al., 2013).
A imagem a seguir retrata o projeto de transposição do rio São Francisco e as barragens com impactos nos territórios indígenas.

Conforme representado no mapa e registrado pelos pesquisadores, o Eixo Norte começa em Pernambuco, com seu ponto de captação em território Truká, e chega ao Ceará levando as águas até o CIPP, construído em território tradicional do povo Anacé. O Eixo Leste atravessa os territórios Kambiwá e Pipipã, passando a poucos quilômetros da Rebio da Serra Negra, de grande valor simbólico-ritual para os últimos.
As indígenas afetadas pelas grandes obras relataram aos pesquisadores os sérios impactos sociais gerados principalmente pelo deslocamento da massa de trabalhadores vindos com as promessas de emprego:
“A inserção do crack no tráfico de drogas, o aumento da violência de forma geral, o aumento dos estupros e da exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes, além do aumento do número de mães solteiras. A região, que já apresentava altos índices de violência gerados pelo plantio e o tráfico da maconha, vê-se ainda mais afetada pela inserção do crack e a utilização da droga principalmente pelos jovens. Se as bebidas alcoólicas foram apontadas como um dos agravantes da violência nas aldeias indígenas e da violência doméstica contra as mulheres, o crack tornou a questão ainda mais séria e preocupante. Nesse contexto é comum que também as mulheres indígenas se tornem dependentes da droga e o grau de vulnerabilidade social das famílias, desta forma, vai se agravando.” (Mendonça et al., 2013, p. 148)
A condição de vulnerabilização das mulheres indígenas impactadas por projetos em seus territórios parece ter sido, em certa medida, um elemento considerado por agentes estatais. De acordo com a publicação do Ministério da Integração Nacional (MI, 18/12/2014), em 2014, o povo Kambiwá foi uma das três comunidades assistidas pelo Programa de Apoio aos Povos Indígenas do Projeto São Francisco, estratégia socioambiental do Projeto de Integração do Rio São Francisco para compensar e minimizar os impactos provocados pela implantação e operação do empreendimento.
No contexto desse programa, o MI desenvolveu junto aos indígenas Kambiwá, Pipipã e Tumbalalá formações para organização social e gestão produtiva, com o objetivo de proporcionar condições para autonomia socioeconômica e ambiental. Sobre o povo Kambiwá, como resultado dessas ações, foi criada uma associação de mulheres com cerca de 30 participantes que visava fomentar a autonomia socioeconômica por meio do projeto para construção de uma cozinha comunitária para o beneficiamento de frutas nativas da Caatinga.
De acordo com a publicação (18/12/2014), com a cozinha comunitária, o povo Kambiwá esperava produzir compotas, geleias, polpas de frutas e outros produtos. Segundo depoimento da professora Romana Maria Bezerra Lima, indígena kambiwá da aldeia Nazário:
“A gente tinha vontade de fazer e não via caminhos. Por meio das oficinas, tivemos condições de organizar nossa associação de mulheres, coisa que antigamente era feita por outras pessoas. Hoje somos protagonistas” – disse ela, de acordo com a publicação do MI.
Em 2015, outra ação governamental buscou atender aos direitos e às necessidades de povos indígenas impactados pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF) – nome oficial do projeto de transposição do rio. Em dezembro de 2015, o Ministério da Saúde (MS) assinou com o MI um termo de cooperação para implantação de sistemas de abastecimento de água em 23 comunidades indígenas na Bahia e em Pernambuco.
Segundo a publicação do MS (22/12/2015), a execução dos sistemas ficaria a cargo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), visando beneficiar 4,4 mil integrantes dos povos Kambiwá, em Inajá; Pipipã, em Floresta; Truká, em Cabrobó – todas em Pernambuco -, e Tumbalalá, em Abaré, na Bahia. O investimento previsto na implantação dos sistemas era de R$ 20,7 milhões.
Para o ministro da Saúde na época, Marcelo Castro, do PMDB, os sistemas de abastecimento de água não eram apenas obras de saneamento: “Para o Brasil, essa estrutura significa prevenir doenças e endemias, além de melhorar a qualidade de vida da população” – ressaltou.
Enquanto o Estado brasileiro buscava medidas para compensar impactos do empreendimento e amenizar a insegurança hídrica das comunidades mais afetadas, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligados ao Instituto Aggeu Magalhães (IAM), em Recife (PE), analisavam os conflitos ambientais por água nos estados impactados pelo PISF; neste caso, os estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Na visão dos pesquisadores, o projeto no rio São Francisco se caracterizava pelo “endereçamento das águas para uso econômico, deixando em segundo plano o princípio ético da função essencial para o abastecimento humano e animal.” (Silva et al., 2015)
De acordo com Silva et al. (2015) no artigo “Conflitos ambientais e as águas do rio São Francisco”, publicado na revista Saúde e Sociedade, partindo de uma abordagem orientada pela determinação social da saúde envolvendo relações entre o uso de recursos naturais e os processos de injustiça ambiental, o estudo apontou que “o projeto de transposição das águas do São Francisco agudiza conflitos ambientais envolvendo populações indígenas e outros grupos vulnerados radicados nos territórios e que reivindicam o acesso e uso da água.” (Silva et al., 2015)
A exemplo, o artigo reforça que a transposição do rio afeta os Kambiwá, os Pipipã e os Truká, totalizando cerca de 7 mil pessoas afetadas (Brasil, 2004 apud Silva et al., 2015, p. 1214). E complementa:
“(…) os conflitos envolvendo territórios indígenas sinalizam a existência de um descompasso entre o PISF e os povos indígenas Pipipã e Kambiwá (Arcanjo, 2003). Os conflitos ambientais decorrentes da disputa entre os diferentes modelos de desenvolvimento envolvem não apenas movimentos sociais organizados, empresas agroexportadoras e indústrias transnacionais, mas instituições regulatórias e políticas públicas (Porto; Pacheco, 2009). Entender o processo saúde-doença e o próprio sentido de saúde no contexto de vulneração socioambiental, permeado por tais conflitos, permite resgatar o sentido da saúde coletiva no enfrentamento das desigualdades sociais e do papel histórico da saúde pública na construção de sociedades justas e democráticas” (Silva et al., 2015, p. 1213-1214).
Na visão dos pesquisadores, os conflitos ambientais analisados no estudo evidenciavam quais grupos populacionais seriam mais afetados pelo PISF, que, por sua vez, materializava processos ativos de discriminação e violência institucionalizados. O artigo na íntegra encontra-se disponível aqui: https://shre.ink/jB3q.
Em 2017, foi publicado o relatório de pesquisa “Mapeamento e análise espectro-temporal das Unidades de Conservação de Proteção Integral da Administração Federal no bioma Caatinga – Reserva Biológica Serra Negra”. A pesquisa contou com uma equipe da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e teve como coordenador Neison Cabral Ferreira Freire, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
No contexto desse estudo, é citada uma particularidade de proteção da Rebio Serra Negra: além de abrigar espécies endêmicas da flora e da fauna, a região se estabeleceu em área considerada sagrada pelas culturas indígenas dos povos Kambiwá e Pipipã. Neste local, segundo o relatório: “(…) são conferidas as características do sagrado pelos índios, onde são realizados seus rituais, destacando-se o ‘Ouricuri’. Estas características tornam a Rebio imensurável em valoração da paisagem natural e da cultura brasileira.” (Freire, 2017, p. 08)
Embora o estudo reconheça essa relevância, ele aponta para os desafios na gestão da UC e suas relações com os territórios indígenas, conforme destacado no trecho a seguir:
“A Rebio Serra Negra é a segunda menor UC da Região Nordeste, além de estar circunscrita aos territórios indígenas Kambiwá e Pipipã, havendo uma dualidade de interesses entre o Natural (representado pelo Estado através do órgão gestor ICMBio) e o Cultural (representado pela Funai). Contudo, nota-se uma disparidade de apropriação de território, gerando conflitos socioambientais pelo direito de acesso à área sagrada. Entretanto, constata-se que a Rebio, sendo uma categoria de UC de uso mais restrito, mantém-se em excelente estado de conservação de sua biodiversidade, graças, principalmente, a ser um território de ancestralidade e espiritualidade dos povos indígenas que ali habitam. (…) A Rebio ainda apresenta uma vulnerabilidade no reconhecimento territorial e ambiental no que concerne aos conflitos socioambientais, gerados por concepções antagônicas de apropriação territorial entre Terra Indígena versus Reserva Biológica.” (Freire, 2017, p. 24)
O relatório recomenda aos órgãos públicos não só uma melhor assistência aos povos indígenas, como também a adoção de práticas de recuperação ambiental de áreas degradadas, além de fiscalização para o combate ao desmatamento.
Em 2018, o projeto Narrativas Indígenas do Nordeste, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), coordenado pelo Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat/IAM/Fiocruz) e pelo Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes), da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), produziu um documentário sobre os indígenas Kambiwá, que “reafirmam sua existência e tentam afastar alguns preconceitos frequentemente atribuídos a eles”. A partir de depoimentos de mulheres dessa etnia, o documentário apresenta formas de resistência dos indígenas em seu território. Assista ao vídeo aqui: https://shre.ink/jT7N.
Mais uma vez o tema das mulheres indígenas entra em foco. “Mulheres Indígenas da Tradição” é um livro que apresenta a história de anciãs de 11 povos indígenas localizados em Pernambuco. Lançado em 8 de março de 2019, a proposta era dar visibilidade à trajetória de vida dessas mulheres e suas sabedorias da vida.
De acordo com a redação da Revista Educação (17/03/2019), a obra, escrita por mulheres indígenas, é uma parceria do Centro de Cultura Luiz Freire (CCFL), Cimi Regional Nordeste e do Movimento de Mulheres Indígenas de Pernambuco.
Em um dos trechos do livro, Dona Valdira, do povo Kambiwá , artesã, agricultora, mãe de 14 fihos, teve seu perfil escrito pela parente da mesma etnia, Edivanha Bezerra da Silva.

De acordo com a obra (Cimi, 2019, p. 34-35), Dona Valdira atua na luta do povo há anos. Acompanhou de perto muitas perseguições e muito preconceito contra os indígenas, tanto dos fazendeiros quanto da polícia. Muitas lideranças foram perseguidas, e seu marido Ivan chegou a ser preso e torturado na época da ditadura militar. Apesar da perseguição, Ivan foi um dos indígenas que acompanhou o movimento indígena na Assembleia Constituinte na década de 1980, em Brasília (DF).
“É urgente se posicionar a favor da terra, a favor dos nossos corpos vivos, somos a raiz e o coração desse país”. Esse é um trecho da fala da indígena Jaqueline Kambiwá, da aldeia Nazário, da TI Kambiwá, contra o projeto de lei (PL) 490/2007, que foi aprovado em 2021 pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, por 40 votos favoráveis a 21, seguindo para o Senado Federal.
De acordo com a publicação de Ayla Tapajós, colaboradora do Ecoa, Uol (02/07/2021), a luta de jovens indígenas, muitos deles reunidos nas manifestações em Brasília, é pela sobrevivência do seu povo, sua cultura e sua casa.
De forma resumida, o PL 490/2007, de autoria de Homero Pereira, do antigo Partido da República (PR) do Mato Grosso (MT) (Câmara dos Deputados, s.d), pretendia tornar legal a proposta da “Tese do Marco Temporal”. Segundo essa tese, os povos indígenas teriam direito de ocupar apenas as terras que ocupavam ou já disputavam na data de promulgação da Constituição de 1988.
Conhecida como a “Lei do Genocídio Indígena”, a tese busca impor o critério do marco temporal para a demarcação de terras indígenas no País, ao lado de outras disposições que afrontam a Constituição Federal e comprometem os direitos dos povos indígenas (Cimi, 29/12/2025).
Voltando à publicação de Ayla Tapajós, ela divulgou o posicionamento de diversos jovens sobre o PL 490/2007, tal como um trecho de Jaqueline Kambiwá, destacado a seguir:
“É urgente pressionar os nossos representantes pela manutenção desses direitos, que são essenciais para a preservação da nossa vida e da nossa mãe da natureza. Para nós a terra é sagrada, é lugar onde vivem os nossos antepassados, para nós a demarcação dos nossos territórios significa proteger as nossas vidas e também proteger o nosso sagrado, já tirá-las de nós significa o fim da nossa cultura, o fim das nossas tradições, o fim das nossas vidas. Esse projeto agride de forma extremamente cruel os nossos territórios, inviabilizando a demarcação de novas terras, além de colocar em risco a integridade de territórios que já estão demarcados. Permitindo assim a exploração de minérios, agronegócio, construção de hidrelétricas, entre outras ameaças, resumindo essa lei significa a continuidade do genocídio contra os povos originários dessa terra, exposição dos nossos corpos e derramamento de sangue. Derrubar essa PL genocida é questão de garantia de vida, é urgente se posicionar a favor da terra, a favor dos nossos corpos vivos, somos a raiz e o coração desse país e mesmo assim sofremos há mais de 500 anos.” (Jaqueline Kambiwá, Eco Uol, 2021)
Além das lutas por direitos territoriais, em março de 2022, problemas básicos nas escolas levaram lideranças indígenas a ocuparem a Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco (SEE-PE). De acordo com o blog Combate Racismo Ambiental (23/03/2022), representantes de 12 povos indígenas em Pernambuco ocuparam dependências da SEE-PE na tentativa de conseguir uma audiência com o secretário da época, Marcelo Andrade Barros. O objetivo era obter dos gestores públicos respostas para um extenso rol de reivindicações da Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco (Copipe).
Professores e lideranças dos povos Atikum, Fulni-ô, Kambiwá, Kapinawá, Pankará, Pankará Serrote dos Campos, Truká, Tuxá, Xukuru de Cimbres e Xukuru de Ororubá foram recebidos pelo gerente de Gestão de Pessoas, João Paulo Valença Correia, e pelo superintendente de Política Educacional Indígena, Caetano Bezerra Barboza Neto. Segundo a mesma publicação, a lista de reivindicações para o governo estadual era extensa:
“Definição de data para pagamento em dia do transporte escolar, reajuste do valor por quilômetro do transporte escolar, pagamento do PIS/PASEP dos profissionais de educação escolar indígena, contratação de auxiliar de serviços gerais, garantia de material de limpeza os povos que não têm auxiliares de serviços gerais contratados pelas empresas, terceirizadas, renovação de contratos de professores que acabam no dia 31 de março, criação da categoria de ‘professor indígena’, construção e reformas de escolas, e, finalmente, a reestruturação e regularização do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena.” (Combate Racismo Ambiental, 2022)
A Secretaria se comprometeu a resolver os problemas de ordem administrativa, como a entrega de material de limpeza e a definição de uma data de pagamento para os prestadores de serviço de transporte escolar. Entre os temas políticos, a secretaria convocaria uma assembleia que, segundo a lei, teria poderes para instaurar o Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena.
Outra publicação divulgada pelo Combate Racismo Ambiental (11/08/2022) trouxe um pronunciamento de Bia Pankararu. Ao problematizar a data de 9 de agosto (data comemorativa do Dia Internacional dos Povos Indígenas, criada em 1994 pela ONU), ela reconheceu um interesse crescente em parte da sociedade em relação aos povos indígenas, mas reforçou que seria pouco, diante de “séculos de histórias mal contadas e meias verdades”. Destaque para trecho de sua fala:
“Em Pernambuco, somos Pankararu, Pankararu Entre Serras, Atikum, Pankará, Pipipã, Kapinawá, Kambiwá, Truká, Tuxi, Tuxá, Fulni-ô, Pankaiwká, Xukuru, Xucuru de Cimbres e somos mais. Somos múltiplos e ainda não chegamos perto de termos um diálogo de entendimento diante de nossas diferenças e semelhanças. No campo das tradições, estamos conseguindo manter o que nossos antepassados deixaram, mas não estamos lidando bem com a herança colonial que permanece nos colocando às margens da cidadania plena de direitos. Assim como é difícil começar a entender a perspectiva indígena levando em consideração o processo de colonização, para nós, que vivemos essas questões diariamente, também é difícil e muito cansativo ainda precisar explicar que hoje se usa ‘indígena’ e não “índio”, que não andamos todos nus, que não falamos todos o tupi guarani, que não foi descobrimento, foi invasão. Ainda demora muito pra gente chegar nesse pé de entendimento, pra conseguirmos avançar em temas que nos são também urgentes. Saúde, educação, infraestrutura, saneamento básico, emprego, segurança alimentar, abastecimento de água, o médico e o postinho de saúde nos são urgentes. Violência contra mulher, fome, abuso sexual, alcoolismo, homofobia, machismo, adoecimento mental e emocional, vulnerabilidades mil em todos os territórios e o que ganhamos são homenagens à nossa resistência.” (Bia Pankararu, 11/08/2022)
Sua denúncia revelou que os conflitos em Pernambuco estavam cada vez mais violentos e as perseguições mais intensas, bem como o racismo religioso e a evangelização de indígenas que geravam conflitos e desentendimentos, segundo ela. Como ativista pelos direitos humanos e ambientais, Bia Pankararu citou casos de homofobia e de violência contra mulheres, crianças e adolescentes que eram negligenciadas, silenciadas e esquecidas.
Em 2023, foi divulgada publicação sobre o Projeto de Saneamento Rural de Pernambuco (Prosar/PE), da Secretaria de Recursos Hídricos e Saneamento do Estado de Pernambuco (SRHS-PE). O Prosar/PE previa um conjunto de princípios e diretrizes denominado Marco de Povos Indígenas, que se justificava na medida em que o Projeto teve os povos indígenas como beneficiários diretos de suas atividades.
Naquele período, ainda não fora divulgado precisamente quais comunidades indígenas seriam atendidas, pois a escolha das áreas deveria atender a critérios técnicos, especialmente de disponibilidade hídrica. Inicialmente foram identificadas 255 comunidades prioritárias, que passariam por estudos técnicos antes da definição das obras.
O Prosar/PE foi estruturado com investimentos de US$ 113.000.000,00 (cento e treze milhões de dólares), sendo US$ 90.000.000 (noventa milhões de dólares) aportados mediante empréstimo do Banco Mundial (BM), e US$ 23.000.000,00 (vinte e três milhões de dólares) de recursos pelo estado de Pernambuco.
Ao converter esses valores para reais, considerando a cotação do dólar na data da publicação (20/10/2023), chegamos aos seguintes valores aproximados: US$ 113.000.000,00 (cento e treze milhões de dólares) correspondiam a R$ 568.672.500,00 (quinhentos e sessenta e oito milhões, seiscentos e setenta e dois mil e quinhentos reais). No caso dos US$ 90.000.000 (noventa milhões de dólares) correspondiam, aproximadamente, a R$ 452.925.000,00 (quatrocentos e cinquenta e dois novecentos e vinte e cinco mil reais). Já o valor de US$ 23.000.000,00 (vinte e três milhões de dólares) correspondiam a cerca de R$ 115.747.500,00 (cento e quinze milhões, setecentos e quarenta e sete mil e quinhentos reais).
O documento na integra encontra-se disponível aqui: https://shre.ink/jQlJ.
Embora houvesse essa iniciativa do Prosar/PE, de acordo com o Instituto Trata Brasil (24/09/2024) e a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), que trabalha com projetos de saneamento básico em comunidades mais vulnerabilizadas, o “acesso à água evoluiu pouco nos últimos anos e população indígena é a mais afetada pela ausência do recurso” – segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE, 2022), disponíveis no Painel Saneamento Brasil.
De acordo com as análises feitas pelo Instituto Trata Brasil, com base em dados do IBGE de 2022, a população indígena é a mais afetada pela falta de água, com quase metade (48,9%) sem acesso ao recurso hídrico. Em seguida, as populações parda e preta estavam entre as mais prejudicadas pela ausência de água. Diante desses dados, o Instituto Trata Brasil concluiu:
“Além do impacto direto na saúde, na economia e no meio ambiente, a falta de água tratada agrava as desigualdades sociais no Brasil. A ausência de saneamento afeta o acesso à educação, contribuindo para a evasão escolar, e prejudica a produtividade dos trabalhadores, que adoecem devido a doenças de veiculação hídrica, comprometendo a renda familiar. Esses fatores influenciam diretamente o bem-estar dos cidadãos. Apesar de ser essencial para a vida, o saneamento ainda não é visto como um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável das cidades. Sem universalizar o acesso à água e ao esgotamento sanitário, será impossível construir um país mais justo e igualitário.” (Instituto Trata Brasil, 2024)
Outra questão que dialoga com esta é a crise climática, abordada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em novembro de 2025, em Belém, capital do Pará (PA). Na ocasião, 30 indígenas foram selecionados como “negociadores climáticos”, sendo uma delas Jaqueline Kambiwá, jovem indígena pernambucana. Segundo reportagem de Afonso Bezerra e Ana Carolina Vasconcelos, no Brasil de Fato (20/10/2025), a iniciativa “Kuntari Katu: líderes indígenas na política global” foi construída em parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI) e das Relações Exteriores (MRE).
Na visão da representante do povo Kambiwá, o projeto, que contou com mentorias sobre a linguagem da diplomacia e o funcionamento dos espaços de negociações, foi inédito para os povos indígenas:
“A gente sai de lá [das formações] sempre com a sensação de que, além da diplomacia indígena que nós já carregamos no território, porque já somos diplomatas indígenas, fomos buscar uma especialização, um espaço para diplomatas indígenas que jamais havia sido pensado para nós, principalmente enquanto juventude indígena”.
A publicação no Brasil de Fato (20/10/2025) traz uma entrevista com Jaqueline Kambiwá. Alguns trechos revelam estratégias da jovem para ampliar “as vozes” de seu território, utilizando, por exemplo, espaços políticos de decisão e meios de comunicação:
“Após o período da pandemia, eu retornei para Garanhuns e continuei as atividades dentro da universidade, onde a gente já está no 4º Encontro de Indígenas e Quilombolas. A gente usa esses espaços para desconstruir os pensamentos que ainda perpetuam, o romantismo dos povos indígenas. E, para além da universidade, eu venho nesse processo de comunicação indígena, onde eu uso as redes sociais para trabalhar diversos temas, fazer denúncias e, agora, principalmente, relacionado a todos os tipos de leis que ameaçam os nossos territórios. Uso esses meios para levar informação, principalmente para nossa comunidade, para os nossos anciãos, que às vezes não entendem muito bem como funcionam essas ameaças que vêm ferindo os nossos corpos-territórios. Eu uso desse meio para desmistificar e informar as pessoas que estão nesse círculo. Além disso, eu venho nessa atividade, nesse ativismo ambiental, participando de diversos espaços de formação para que a gente possa atuar na linha de frente dessas discussões, como o Kuntari Katu: Líderes Indígenas na Política Global.” (Jaqueline Kambiwá, Brasil de Fato – 20/10/2025).
A jovem kambiwá também destacou participação na chamada Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), espaço que tece um diálogo com mulheres indígenas de todos os biomas brasileiros: “as mulheres indígenas são as que mais sofrem diante das mudanças climáticas e elas precisam se adaptar para estar existindo nesses espaços”. (Brasil de Fato, -20/10/2025)
Em março de 2026, o Ministério Público Federal em Pernambuco (MPF/PE) instaurou um inquérito civil público (ICP) para apurar as circunstâncias da implantação do complexo de energia solar Complexo Energético Kambiwá dentro do território do povo Kambiwá. A abertura da investigação aconteceu depois de lideranças da comunidade procurarem a Defensoria Pública da União (DPU) para denunciar a ausência de consulta prévia à comunidade indígena local.
Segundo a Associação Nacional de Ação Indigenista (Anai, 18/03/2026), em entrevista ao Diário de Pernambuco, o cacique Zuca, liderança do povo Kambiwá desde 1998, afirmou não haver consenso coletivo sobre a obra, uma iniciativa da FPS Consultoria e Gestão Empresarial.
O inquérito foi instaurado em janeiro de 2026, depois que a comunidade indígena soube do projeto por meio de uma publicação nas redes sociais da empresa, no perfil “Falugio Energia”. Nas postagens, a empresa apresentava o projeto como “o maior complexo de energia solar da América Latina”, informando haver autorização da comunidade para ocupar cerca de 10% do território indígena (Anaí, 2026).
Segundo Zuca Kambiwá: “Eu, como cacique, nunca fui informado. O cidadão disse que já tinha tido consulta prévia, mas fomos nós que questionamos nas redes sociais. Não houve diálogo com o povo”.
Ele destacou os riscos que esse empreendimento causaria no território: “Nossa luta foi para retirar os posseiros. Agora, aparecem pessoas querendo negociar para trazê-los de volta para dentro do território através desses empreendimentos. É um retrocesso” – desabafou, conforme publicado pela Anaí (18/03/2026).
No âmbito do processo no MPF, obtido pelo Diário de Pernambuco e republicado pela Anaíi, o sócio administrador da FPS, Fábio Pinheiro Souza, respondeu ao pedido de posicionamento da reportagem. Em nota, ele declarou que o Complexo Energético Kambiwá se encontrava em fase preliminar de estudos técnicos e que não havia qualquer obra, supressão de vegetação ou intervenção no território indígena naquele momento.
A empresa disse ter protocolado, em 8 de março de 2026, um documento consolidado junto à DPU, à Funai e ao MPF detalhando a fundamentação jurídica e as contrapartidas do empreendimento. “Houve consulta a lideranças da comunidade Kambiwá, e um Termo de Autorização foi assinado por membros da comunidade autorizando estudos preliminares” – afirmou Fábio Pinheiro Souza.
Ele admitiu que “processo inicial pode não ter atendido integralmente às exigências da Convenção 169 da OIT quanto à consulta livre, prévia e informada”. Por esse motivo, o empresário sugeriu a realização de novas consultas aos indígenas Kambiwá.
Paralelamente ao debate sobre as ameaças associadas ao empreendimento de energia solar, na aldeia Baixa da Alexandra, indígenas do povo Kambiwá conquistaram cisternas de produção, crédito de fomento e participaram de um ciclo de intervenções de Assessoria Técnica e Extensão Rural (Ater), por meio do ‘Programa Uma Terra e Duas Águas: P1+2 Fomento Produtivo Rural’, desenvolvido pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).
De acordo com Amorim et al. (2026), que se propuseram a discutir as percepções das mulheres do povo Kambiwá sobre as transformações no território provocadas por esse Programa: “as transformações em curso compreendem a dimensão individual, circunscrita nos novos saberes aplicados nas hortas, nos pomares e na criação animal; e a dimensão colaborativa, materializada na produção, no consumo e na comercialização de alimentos na Feira das Mulheres”.
O resumo desse estudo produzido por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) foi publicado em 2026 nos Cadernos de Agroecologia, Anais do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), e encontra-se disponível aqui: https://shre.ink/jcwx.
A título de detalhamento, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), criado pela ASA no início dos anos 2000, busca garantir o acesso à água para o consumo humano. Com o intuito de ampliar o estoque de água das famílias, a ASA criou em 2007 o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2).
Nessa iniciativa, segundo informações do portal da Asa (s.d), as tecnologias de acesso à água são construídas para garantir sua estocagem para a produção, o plantio e a criação de animais:
“O nome do programa indica a estrutura mínima que as famílias precisam para produzir: a terra; o espaço de morada, plantio e criação animal; e a água, para cultivar e manter a vida das pessoas, das plantas e dos animais.” (Asa, s.d)
De acordo com Lucas Veloso, da Nonada Jornalismo, republicado em 13 de julho de 2026 no blog Combate Racismo Ambiental, alimentos como abóbora, mandioca e umbu preservam memórias e culturas do bioma da Caatinga. Para sustentar essa hipótese, Veloso disserta sobre as riquezas da Caatinga e de seus povos tradicionais e originários:
“Na Caatinga, a cultura alimentar começa muito antes do prato. Está nas sementes crioulas, nas roças, nos quintais produtivos, nas casas de farinha, nos frutos nativos e nos modos de preparo transmitidos entre gerações. Em territórios indígenas e quilombolas de Pernambuco, alimentos como umbu, mandioca e abóbora ajudam a contar uma história que passa pela memória, pelo cultivo, pela espiritualidade e pela adaptação ao clima.” (Veloso, 2026)
Trazendo como exemplo o povo Kambiwá, a publicação divulga o ponto de vista da liderança Jaqueline Kambiwá, que fala da Caatinga como parte da vida cotidiana, da espiritualidade e da memória de sua comunidade: “Para o meu povo, esse bioma é fonte de alimento, medicina tradicional, cultura, espiritualidade e resistência. Cada planta, fruto, nascente e espaço do território guarda conhecimentos transmitidos entre gerações” – segundo trecho da publicação no blog Combate Racismo Ambiental.
Na infância, Jaqueline via os quintais e as roças produzirem boa parte do que chegava à mesa; feijão, fava, batata-doce, beiju, fava, mandioca, mel misturado com farinha, e milho faziam parte do cotidiano: “Não eram apenas alimentos. Eram a expressão da nossa relação com a terra e da sabedoria dos nossos ancestrais” – relembra Jaqueline.
De acordo com Veloso, entre os alimentos que ajudam a contar a história dos povos indígenas do Sertão de Pernambuco, Jaqueline destaca o umbu, a farinha de murici e a farinha de mandioca. O umbu, conhecido como “árvore que dá de beber”, armazena água nas raízes e resiste a longos períodos de estiagem. É consumido fresco ou transformado em umbuzada, compotas, doces, geleias, licores e sucos.
Nesse contexto, na aldeia Nazário, “a associação de mulheres desenvolve produtos a partir de frutos como caju, murici e umbu. O trabalho gera renda, recupera práticas ancestrais, fortalece a autonomia das mulheres e incentiva a conservação da biodiversidade”. Ou seja, “a terra não é tratada apenas como lugar de moradia, mas como base de existência, laços familiares e resistência” – concluiu Lucas Veloso (2026).
Um projeto voltado à qualificação da educação escolar indígena em Pernambuco promoverá, entre junho e dezembro de 2026, a formação continuada de 80 professores dos povos Kambiwá, em Ibimirim; e Xukuru de Cimbres, em Pesqueira. Intitulada Ação Saberes Indígenas na Escola – Povos Kambiwá e Xukuru de Cimbres, a iniciativa é coordenada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), financiada pelo Ministério da Educação (MEC), e conta com apoio administrativo e financeiro da Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional (Fadurpe).
De acordo com Fátima Pereira, no Brasil de Fato (19/07/2026), o projeto nasceu da mobilização dos próprios educadores indígenas em defesa da formação continuada e da garantia de direitos:
“O projeto é resultado da busca incessante de professoras e professores indígenas por sua formação continuada e pela garantia de direitos para seus povos. A UFRPE se une a esse movimento, possibilitando articulação com a Secadi/MEC e a mediação institucional necessária. O curso é pensado em conjunto com lideranças consolidadas, como Francisca Kambiwá, e também com jovens estimulados a reforçar a Educação Escolar Indígena em Pernambuco, como Ney Xukuru de Cimbres” – ressaltou a coordenadora Mariana Albuquerque Dantas, professora da UFRPE.
Última atualização em agosto de 2026.
Cronologia
Início do século XIX – Os Kambiwá habitam a região das serras Negra e do Periquito, no sertão de Pernambuco. Nesse período, são perseguidos e dispersados pela ação dos chamados “coronéis” do Alto Sertão pernambucano.
1939 e1940 – Os Kambiwá fazem tentativas de reocupação da Serra Negra, mas são reprimidos. Os Kambiwá retornam à região conhecida como Baixa da Alexandra.
1954 – O então ministro da Agricultura, João Cleofas, determina a demarcação de terras dos Kambiwá.
08 de maio de 1967 – Lideranças kambiwá encaminham carta ao então Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e reivindicam o retorno à Serra Negra. O documento também registra que os Kambiwá descendem de antigos habitantes da Serra Negra, incluindo os Pipipã e os Umã.
1971 – É inaugurado o Posto Modelo da Funai na região, no contexto relacionado às reivindicações Kambiwá de acesso à Serra Negra.
1978 – Funai realiza a primeira demarcação física do território kambiwá, com aproximadamente 16.085 hectares.
1982 – Decreto nº 87.591, de 20 de setembro de 1982, assinado pelo presidente da República e ditador-militar, João Batista de Figueiredo, cria a Reserva Biológica (Rebio) de Serra Negra.
1992 – Funai retoma o processo de regularização da Terra Indígena (TI) Kambiwá por meio da Portaria nº 1.284/1992, constituindo grupo de trabalho para realizar a identificação, o levantamento fundiário e a delimitação do território.
17 de maio de 1996 – Ministério da Justiça (MJ) publica a Portaria nº 308, declarando os limites da TI Kambiwá, com superfície aproximada de 27.100 hectares.
1998 – TI Kambiwá é homologada por decreto de 11 de dezembro de 1998, publicado no Diário Oficial da União em 14 de dezembro, assinado pelo presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB).
19 de setembro de 2000 – Povo Kambiwá, organizado com a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), realiza a primeira retomada de seu território.
Abril de 2007 – Mais de 30 povos indígenas do Nordeste traçam estratégias durante atividades do ‘Abril Indígena’, para defender territórios e agir contra o projeto de transposição do rio São Francisco. Os povos Kambiwá, Pankararu e Pipipã, de Pernambuco, pretendem impedir o avanço das obras em seus territórios.
13 a 16 de agosto de 2007 – Mulheres indígenas kambiwá e representantes de mais 43 povos se manifestam por meio da Apoinme durante a 1ª Assembleia das Guerreiras Mulheres Indígenas do Leste e Nordeste. Os impactos da transposição do rio São Francisco são destaques.
2008 – Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e parceiros publicam o ‘Relatório de denúncia: Povos indígenas do Nordeste impactados com a transposição do rio São Franscisco’. Os povos Anacé, Kambiwá, Kariri-Xocó, Pankararu, Pipipã, Tumbalalá, Tuxá, Truká e Xocó, localizados nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe, são identificados como afetados pelo projeto.
2008 – Canal Grilo Radio Frei Damião, na rede social YouTube, publica o documentário ‘Kambiwá – a questão da água parte 1’, revelando a falta de assistência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em relação à distribuição de água para as aldeias.
2010 – Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil publica fascículo sobre o povo indígena Kambiwá.
Fevereiro de 2010 – Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Conselho Mundial de Igrejas (CMI) recebem a delegação da ‘Campanha Opará – Povos indígenas em defesa do rio São Francisco’, no Palácio Wilson, das Nações Unidas.
– OIT pede esclarecimentos ao governo brasileiro sobre violações da Convenção 169 pela obra da transposição.
2013 – Caroline Farias Leal Mendonça, Heloisa Eneida Cavalcante, Lara Erendira Almeida de Andrade e Manuela Schillaci, pesquisadoras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicam artigo na Revista Interfaces em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade sobre os impactos de grandes obras em Pernambuco na vida de mulheres indígenas, incluindo as do povo Kambiwá.
2014 – Povo Kambiwá recebe do Ministério da Integração Nacional (MI) recursos vinculados ao Programa de Apoio aos Povos Indígenas do Projeto São Francisco como forma de compensar e minimizar os impactos da implantação do Projeto de Integração do rio São Francisco (PISF). Nesse contexto, é criada uma associação de mulheres e cozinha comunitária para o beneficiamento de frutas nativas da Caatinga.
2015 – Ministério da Saúde (MS) assina com o MI um termo de cooperação para implantação de sistemas de abastecimento de água em 23 comunidades indígenas na Bahia e em Pernambuco. A execução dos sistemas fica a cargo da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e visa beneficiar indígenas Kambiwá, em Inajá; Pipipã, em Floresta; Truká, em Cabrobó – todas em Pernambuco -, e Tumbalalá, em Abaré, na Bahia.
2015 – Aline do Monte Gurgel, André Monteiro Costa, Idê Gomes Dantas Gurgel, José Marcos da Silva, Lia Giraldo da Silva Augusto e Mariana Olívia dos Santos, pesquisadores do Instituto Aggeu Magalhães (IAM), da unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Recife (PE), publicam artigo no periódico Saúde e Sociedade, da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP), sobre conflitos ambientais por água na região do PISF e citam impactos na saúde dos Kambiwá, Pipipã e Truká.
2017 – Relatório ‘Mapeamento e análise espectro-temporal das Unidades de Conservação de Proteção Integral da Administração Federal no bioma Caatinga – Reserva Biológica Serra Negra’, publicado por Alexandrina Saldanha Sobreira de Moura, Débora Coelho Moura, Janaína Barbosa da Silva e Neison Cabral Ferreira Freire, pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), problematiza conflitos envolvendo a sobreposição territorial de Unidades de Conservação aos territórios indígenas Kambiwá e Pipipã.
2018 – Projeto Narrativas Indígenas do Nordeste, coordenado pelo Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat/Fiocruz-PE) e pelo Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes), da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), produz documentário sobre os indígenas Kambiwá e suas práticas de resistência.
8 de março de 2019 – Centro de Cultura Luiz Freire (CCFL), Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste e Movimento de Mulheres Indígenas de Pernambuco lançam o livro ‘Mulheres Indígenas da Tradição’, apresentando a história de anciãs de 11 povos indígenas em Pernambuco.
2021 – Jovens indígenas manifestam repúdio ao projeto de lei (PL) 490/2007. Pronunciamento da indígena Jaqueline Kambiwá tem destaque na reportagem do Ecoa, da Agência UOL de notícias.
Março de 2022 – Problemas básicos nas escolas levam lideranças indígenas a ocuparem a Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco (SEE-PE). Representantes Kambiwá participam da ocupação.
Agosto de 2022 – Bia Pankararu denuncia casos de violência contra indígenas de Pernambuco no site Marco Zero, republicado no blog Combate Racismo Ambiental.
2023 – Secretaria de Recursos Hídricos e Saneamento do Governo de Pernambuco (SRHS-PE) divulga a versão preliminar do Projeto de Saneamento Rural de Pernambuco (Prosar/PE), que tem os povos indígenas como beneficiários diretos.
2024 – Instituto Trata Brasil, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), divulga dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e conclui que o acesso à água no País evoluiu pouco, sendo a população indígena a mais afetada.
Outubro de 2025 – Jaqueline Kambiwá, jovem liderança, representa indígenas na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, capital do Pará (PA).
Março de 2026 – Ministério Público Federal em Pernambuco (MPF/PE) instaura inquérito civil público (ICP) para apurar as circunstâncias da implantação de um complexo de energia solar dentro do território do povo Kambiwá. Lideranças indígenas alegam que a empresa FPS Consultoria e Gestão Empresarial não cumpriu com consulta prévia.
2026 – Anastácia Brandão de Melo, João Batista Barros de Amorim, Maria Gorete Nunes Barbosa e Pedro Selvino Neumann, pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), publicam trabalho em Anais do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) sobre a percepção das mulheres sobre o Programa Uma Terra e Duas Águas: P1+2 Fomento Produtivo Rural, desenvolvido no território Kambiwá pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).
Julho de 2026 – Projeto voltado à qualificação da educação escolar indígena em Pernambuco promove a formação continuada de 80 professores dos povos Kambiwá, em Ibimirim; e Xukuru de Cimbres, em Pesqueira.
Fontes
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