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Acampamento 8 de Março aguarda desapropriacão e status jurídico de assentamento rural enquanto enfrenta grilagem e impactos socioambientais relacionados ao uso intensivo de agrotóxicos e à degradação do Cerrado
UF: DF
Município Atingido: Brasília (DF)
Outros Municípios: Brasília (DF), Planaltina (GO)
População: Agricultores familiares, Trabalhadores rurais sem terra
Atividades Geradoras do Conflito: Agroindústria, Agrotóxicos, Atuação de entidades governamentais, Especulação imobiliária
Impactos Socioambientais: Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Assoreamento de recurso hídrico, Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas, Incêndios e/ou queimadas, Poluição atmosférica, Poluição de recurso hídrico
Danos à Saúde: Contaminação por agrotóxico, Doenças mentais ou sofrimento psíquico, Doenças não transmissíveis ou crônicas, Doenças respiratórias, Piora na qualidade de vida, Violência – ameaça, Violência – coação física, Violência psicológica
Síntese
O Acampamento 8 de Março, localizado na zona rural de Planaltina (DF), está inserido em um longo histórico de conflitos fundiários. Após 12 anos de luta e quatro ocupações na Fazenda Toca da Raposa, de cerca de 1.700 hectares, o acampamento ainda não foi desapropriado em prol da reforma agrária e não goza do status jurídico de assentamento rural (Vilela, 2022).
Localizada próxima à Estação Ecológica (Esec) de Águas Emendadas — área estratégica por abrigar nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas do país —, a fazenda tornou-se foco de disputas envolvendo a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Distrito Federal e Entorno (MST-DF/Entorno) e o pretenso proprietário Mario Zinato dos Santos (Quintino, 2022; Brasil, 2012b).
A primeira ocupação ocorreu em 25 de outubro de 2004, quando cerca de 350 famílias ocuparam aproximadamente 800 hectares da área, afirmando serem terras públicas griladas (Vasconcelos; Estrella, 2012). Essa ocupação resultou no despejo dos acampados após liminar de reintegração de posse concedida pelo juiz da Vara Cível de Planaltina, Jansen Fialho de Almeida, em favor do arrendatário da Fazenda Toca da Raposa, Francisco Zanotelli Bigolin.
Entre 2006 e 2007 ocorreram outras duas ocupações, com aproximadamente 550 e 600 famílias vínculadas ao MST, respectivamente, acampando na área (Melo, 2006; Feifel, 2023). Em 2007, foi comprovado que parte das terras da fazenda era de posse da Terracap. No entanto, a morosidade institucional na regularização da área e a indefinição fundiária prolongou o impasse e dificultou soluções efetivas, resultando no despejo das famílias logo após essas ocupações (Albuquerque, 2024).
Em 2012, um novo acampamento foi estabelecido — o Acampamento 8 de Março — reunindo cerca de 600 famílias, mas enfrentando rapidamente ações de reintegração de posse e episódios de violência, como ataques armados contra os acampados a mando do fazendeiro (Amado, 2012; Rodrigues, 2012a). No mesmo ano, a própria Terracap reconheceu ser legítima proprietária de parte da área, solicitando judicialmente a retirada tanto das famílias quanto de Zinato, evidenciando a complexidade jurídica e política da disputa (Rodrigues, 2012a).
Em 2014, por meio de acordo entre o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e a Terracap, foram concedidos três hectares de terras para a habitação dos acampados e 14 hectares de terra para a produção agrícola.
Nos anos recentes, o conflito passou a incorporar denúncias de impactos socioambientais, especialmente relacionados ao uso intensivo de agrotóxicos e à degradação do Cerrado. Em 2024, durante debate na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), foi destacado que a região enfrenta “um problema de contaminação” associado à grilagem e à atuação do latifúndio (Distrito Federal, 2024).
Em 2025, famílias do Acampamento 8 de Março relataram episódios de pulverização aérea de agrotóxicos nas proximidades, com efeitos diretos sobre a saúde dos moradores (Feifel, 2025). Apesar disso, o acampamento se consolidou como experiência de resistência. Atualmente, as cerca de 83 famílias que vivem no local desenvolvem práticas agroecológicas e fortalecem alternativas sustentáveis de produção (Quintino, 2025).
Contexto Ampliado
No Distrito Federal, os produtos orgânicos de acampamentos e assentamentos da reforma agrária se destacam na segurança alimentar. Na zona rural de Planaltina (DF), chamam atenção os assentamentos Pequeno William, em uma área de cerca de cinco hectares, e o Oziel Alves III– considerado o maior assentamento rural do DF –, no abastecimento de feiras e distribuição de cestas de produtos orgânicos para centenas de famílias vulnerabilizadas (Vilela, 2022).
Junto deles, o Acampamento 8 de Março, também na zona rural de Planaltina (DF), produz uma variedade de frutas, hortaliças e legumes orgânicos para a comercialização e envio de cestas solidárias, em campanha permanente do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) (Vilela, 2022). No entanto, o acampamento não compartilha do status legal de seus parceiros vizinhos.
No caso do Pequeno William e do Oziel Alves, a desapropriação e legalização da terra para reforma agrária junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) resultou no status jurídico de “assentamento rural”, promovendo maior segurança jurídica para as famílias, bem como melhores condições de habitação, geração de renda e produção agrícola. No entanto, após 12 anos de luta e quatro ocupações na Fazenda Toca da Raposa, o Acampamento 8 de Março ainda não foi desapropriado em prol da reforma agrária (Vilela, 2022).
Em 25 de outubro de 2004, cerca de 350 famílias vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra do DF e Entorno (MST – DF/Entorno) ocuparam aproximadamente 800 hectares da Fazenda Toca da Raposa, alegando que as terras eram griladas e pertenciam ao patrimônio da União (Vasconcelos; Estrella, 2012).
A Fazenda Toca da Raposa, em Planaltina (DF), tem 1.700 hectares e localiza-se às margens da rodovia federal BR-020, principal ligação entre o DF e a região Nordeste. Está próxima à Estação Ecológica (Esec) Águas Emendadas, um dos principais parques ambientais do País, de reservas aquíferas que alimentam a Bacia Amazônica, a Bacia do São Francisco e a Bacia do Paraná (Quintino, 2022).
A área ocupada estava arrendada pela Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) para Francisco Zanotelli Bigolin, mas o suposto proprietário, segundo o processo 2012.01.1.031198-2 da Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF, era Mario Zinato dos Santos, que alegou ser o proprietário de parcela da área e utilizava as terras para a criação de gado e produção de soja (Brasil, 2012b).
Zinato havia ainda afirmado ser proprietário da Fazenda Chapadinha, em Sobradinho (DF), destinada à reforma agrária após a União identificar tratar-se de terras públicas, o que, segundo requerimento da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM/CD), levanta suspeição no que tange à posse das demais terras registradas em nome dele (Brasil, 2012a).
Durante a ocupação, os acampados encontraram no imóvel mais de meia tonelada de agrotóxicos proibidos no Brasil e contrabandeados do Paraguai; além disso, o MST já havia denunciado trabalho análogo à escravidão na Fazenda (Brasil, 2012a). Diante disso, ainda em 25 de outubro de 2004, as Superintendências do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Incra visitaram a Fazenda Toca da Raposa para vistoriar o imóvel (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, 2004).
Segundo o MST, “foram identificados desmatamento irregular, degradação de áreas de nascentes, inclusive o desvio de algumas delas, além de indicativos de uso de agrotóxicos, o que pode ter contaminado todo o manancial” (MST, 2004). A vistoria resultou em apreensão dos agrotóxicos encontrados no local e na emissão de multa pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para Mario Zinato dos Santos (MST, 2004).
Em 26 de outubro de 2004, o arrendatário Francisco Zanotelli Bigolin entrou com pedido de reintegração de posse da área. Em concordância, o juiz da Vara Cível de Planaltina, Jansen Fialho de Almeida, concedeu a liminar de reintegração em 03 de novembro de 2004 (Distrito Federal, 2004). Contando com grande contingente da Polícia Militar (PMDF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF/DF), a Fazenda foi desocupada no mesmo dia, e as famílias foram expulsas para as margens da rodovia BR-020 (Brasil, 2004).
Em pronunciamento de 5 de novembro de 2004, o deputado federal Wasny de Roure (PT-DF, 2003-2007) afirmou que foi dolosa a inflexibilidade do juiz Jansen em ordenar a reintegração imediata das terras ocupadas. O deputado também denunciou a falta de percepção do juiz frente aos crimes ambientais cometidos por Mario Zinato dos Santos (Brasil, 2004).
A segunda ocupação da Fazenda Toca da Raposa ocorreu em 8 de março de 2006, contando com aproximadamente 550 famílias vinculadas ao MST, ao Movimento Passe Livre (MPL) e ao Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) (Feifel, 2023). Essa ocupação envolveu cerca de 400 hectares e 150 famílias (Melo, 2006).
Em 5 de maio de 2006, famílias vinculadas ao MST ocuparam os dois sentidos da rodovia BR-020, no km 44, para protestar pela regularização de assentamentos no Distrito Federal. Diante das manifestações, o então secretário de Agricultura do Distrito Federal (Seagri-DF), Wilmar Luiz da Silva, se reuniu em 10 de maio com a direção do MST, na sede do Incra, para discutir as reivindicações ligadas aos assentamentos na Fazenda Toca da Raposa e na região do Piripau (Melo, 2006). No entanto, essas famílias foram novamente despejadas (Albuquerque, 2024).
Em 29 de janeiro de 2007, cerca de 600 famílias vinculadas ao MST ocupam pela terceira vez a Fazenda Toca da Raposa exigindo a aceleração das desapropriações de terras para a reforma agrária no DF (MST, 2007a). De acordo com o MST, Mario Zinato dos Santos havia tentado comprovar a posse de parte da Fazenda, mas sua documentação foi considerada inválida pelos institutos responsáveis pelo levantamento da documentação. Segundo a investigação, a outra parte da Fazenda pertenceria à Terracap, que ainda não havia se manifestado sobre o conflito (MST, 2007a).
De acordo com Albuquerque (2024), a solução do impasse sobre a desapropriação das terras dependia de um estudo da Terracap que averiguasse a quem pertenciam, de fato, os 1.700 hectares. No entanto, a morosidade da Terracap em realizar os estudos e verificar a autenticidade dos documentos apresentados por Mario Zinato dos Santos resultava na demora da resolução do conflito.
Augusto Lima, então coordenador do MST no Distrito Federal, afirmou em entrevista à Agência Brasil (2007) que já estava comprovado que 400 hectares da área total eram do governo do DF, o que permitiria o início do processo de assentamentos. Além disso, o advogado do MST, Ribamar Araújo, afirmou:
“Ela [a Terracap] tem que informar que vai repassar a área para a União para fins da reforma agrária. Se for passar, a SPU [Secretaria de Patrimônio da União] vai consultar o Incra se tem interesse de fazer um projeto de assentamento no local (…). Então, temos que aguardar primeiro essa sequência. A Terracap, em identificando aquela área é dela, ela vai dizer se a União quer receber a área para o Incra; por sua vez, o Incra dizer se quer ou não fazer um projeto de colonização lá”. (Richard, 2007)
O MST solicitou audiência com o então governador do DF, José Roberto Arruda (DEM, 2007-2010), para discutir a criação do assentamento de trabalhadores rurais, pois cerca de 80 famílias estavam acampadas às margens da rodovia, na frente da Fazenda, por dois anos. Sem respostas, os sem-terra interditaram, em 31 de janeiro de 2007, um trecho da rodovia BR-020, na altura do km 30 (MST, 2007b). A ausência de resolução resultou, novamente, no despejo das famílias acampadas (Albuquerque, 2024).
Em 08 de março de 2012, cerca de 600 famílias de trabalhadores rurais do MST montaram novo acampamento na Fazenda Toca da Raposa, denominando-o 8 de Março para marcar o Dia Internacional de Luta das Mulheres, integrando a Jornada Nacional das Mulheres Camponesas de 2012 (Amado, 2012). Pouco mais de 24 horas depois da ocupação, em 09 de março de 2012, foi emitido mandato de reintegração de posse no âmbito do processo nº 2012.01.1.031198-2 da Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF, assinado pelo juiz Carlos Divino Vieira Rodrigues.
Diante disso, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM/CD), representada pelos deputados federais Domingos Dutra (PT–MA, 2011-2015), Érika Kokay (PT–DF, 2010 – 2026) e Marcon (PT-RS, 2011-2027), apresentou um requerimento visando à garantia das condições satisfatórias de segurança e vida para as famílias do acampamento 8 de Março. Segundo o requerimento, as famílias ocuparam a área improdutiva buscando assegurar o direito constitucional à função social da propriedade. Além disso, o requerimento denuncia a presença de homens armados e a cavalos invadindo o acampamento e ameaçando as famílias (Brasil, 2012b).
Segundo Rodrigues (2012a), logo após a ocupação, os sem-terra se reuniram com representantes da Ouvidoria Agrária Nacional (OAN), vinculada ao então Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do governo do Distrito Federal. Na ocasião, ficou acordado que em 45 dias a Terracap deveria entrar com uma ação reivindicando a devolução da área indevidamente ocupada pelo fazendeiro. Mas, passado o prazo, a Terracap ainda não havia entrado com a ação.
Em 21 e 22 de abril de 2012, pistoleiros armados invadiram o acampamento e atiraram contra as famílias. Segundo Viviane Moreira, integrante do MST, os ”jagunços” já haviam tentado intimidar os sem-terra disparando para cima, mas agora atiravam diretamente contra o local (MST, 2012). O aumento da violência representou uma escalada no conflito e na preocupação das famílias no local.
Segundo Rodrigues (2012a), em 19 de julho de 2012, a Terracap garantiu ser a legítima dona de parte da área da Fazenda Toca da Raposa, anunciando ter ingressado com uma ação de nulidade de título contra Mario Zinato dos Santos. Ao mesmo tempo, aproveitou a ação de reintegração de posse de Zinato contra o MST para pedir à Justiça que, além das quase 600 famílias, o próprio fazendeiro fosse retirado das terras. Essa solicitação havia sido acordada, em reunião, com a OAN e o MST (Rodrigues, 2012a).
Uma ação de desocupação do acampamento, promovida pela PMDF também foi agendada para 19 de julho de 2012. No entanto, a Justiça Federal permitiu o adiamento da operação, resultando na retirada da PMDF da área. De acordo com o tenente-coronel Alves Leitão, responsável pelo policiamento de Planaltina, era desnecessário manter qualquer tipo de segurança, pois “as famílias já estão na área há um bom tempo sem que qualquer problema tenha sido registrado. Elas são ordeiras e não estão depredando nada, de maneira que consideramos desnecessário manter viaturas no local” (Rodrigues, 2012b).
No entanto, segundo Rodrigues (2012b), a tensão na área era grande, pois um ônibus, com homens supostamente a mando do dono da propriedade vizinha, e tratores chegaram no local após a saída dos policiais. Além da questão da violência, Lopes (2012) relatou que a falta de água era um dos principais problemas enfrentados pelas famílias. A produção de alimentos tampouco era suficiente para atender a elas.
Segundo Feifel (2023), em 2014, após acordo firmado com o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), a Terracap permitiu que os acampados ocupassem uma área de três hectares para moradia e outros 14 hectares para fins de produção de frutas, hortaliças e legumes orgânicos.
Em 13 de agosto de 2014, o Acampamento 8 de Março, na Fazenda Toca da Raposa, e o seu vizinho, Acampamento Keno, na Fazenda Santa Isabel, foram incendiados. De acordo com Lucimar Nascimento, integrante da direção distrital do MST, os incêndio fariam parte de uma ação criminosa contra os trabalhadores sem-terra (Vermelho, 2014).
Em 19 de março de 2022, foi realizada uma comemoração de uma década do Acampamento 8 de Março, com participação de acampados e assentados de outros territórios do MST, representantes de movimentos sociais e parlamentares como a deputada federal Erika Kokay (PT – DF, 2010–2026). Também compareceram representantes da Central dos Movimentos Populares (CMP), da Central Única dos Trabalhadores do DF (CUT-DF), da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (Renap) e outros apoiadores (Quintino, 2022).
Na abertura do evento, a sem-terra Edideide Rocha afirmou que o 8 de Março é “território de amor e produção. A enxada é nosso arado, que acaricia o chão. A terra é de quem nela trabalha”, reforçando a luta das famílias pela terra na Fazenda Toca da Raposa (Quintino, 2022).
Em 11 de novembro de 2022, Mario Zinato dos Santos realizou doações de carnes, provenientes da Fazenda Toca da Raposa, e empréstimos de caminhões e ônibus para a realização de manifestações bolsonaristas em Brasília contra os resultados oficiais das eleições presidenciais vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) (Hora do Povo, 2022).
No ano seguinte, em 17 de outubro de 2023, Mario Zinato dos Santos foi citado, junto a 167 pessoas, como financiador em relatório apresentado na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre os autores dos atentados realizados em Brasília em 08 de janeiro de 2023, que vandalizaram os prédios dos três poderes e pretendiam legitimar um golpe de Estado (fracassado) em benefício do candidato derrotado Jair Bolsonaro (Brito, 2023).
Em 05 de julho de 2024, os pesquisadores André Fenner e Cristina Maia, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília, e os alunos de pós-graduação do Diplomado Internacional en Agroecología para La Sustentabilidad, vinculado a Fiocruz e a Universidad Autónoma de Querétaro (UAQ), organizaram uma saída de campo com agroecólogas e ambientalistas do Projeto Margaridas do Cerrado e do Curso Dias. O encontro foi organizado no Acampamento 8 de Março e teve como objetivo capacitar as famílias para o desenvolvimento de quintais agroecológicos (Chagas, 2024).
Em 8 de agosto de 2024, na 61ª Sessão Ordinária da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), foi debatida a proteção da Estação Ecológica (Esec) de Águas Emendadas e a situação do Acampamento 8 de Março. A Sessão, transformada em Comissão Geral para debater o tema, foi presidida pelo deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF, 2023-2027).
Foram convidados para compor a mesa Adonilton Rodrigues, representando o MST; Gesisleu Darc Jacinto, administrador da estação do Instituto Brasília Ambiental (Ibram); José Bernardi, professor e doutor em Geociências e Meio Ambiente; Lucinha Mendes, representando o Fórum de Defesa das Águas do DF; Marcelo Benini, representando os Guardiões das Águas Emendadas; e Muna Ahmad Yousef, representando o coletivo Águas Emendadas (Distrito Federal, 2024).
Durante a Comissão, Gabriel Magno (PT-DF, 2023-2027) apresentou o contexto de Águas Emendadas e da Fazenda Toca da Raposa:
“Em Águas Emendadas, nós temos um conflito latente. O Adonilton vai falar também sobre isso. Nós temos um problema de contaminação, inclusive, porque temos uma agenda do latifúndio, da grilagem de terra nessa cidade, histórica. É uma ocupação que hoje não só desmata e ameaça a integridade ambiental do território, como pulveriza agrotóxico por via aérea, contaminando a água, contaminando lençóis, contaminando uma série de outras pessoas e agentes da construção coletiva da cidade e do território. Esse é um diagnóstico que já está incorporado no debate, para podermos pensar em políticas públicas.” (Distrito Federal, 2024)
Adonilton Rodrigues, do MST, reforçou a importância ambiental da Estação Ecológica de Águas Emendadas ressaltando que a região é nascente de importantes bacias hidrográficas, como a Bacia do Tocantins/Araguaia e a Bacia Platina. Ele denunciou a degradação causada pelo latifúndio, com uso intensivo de agrotóxicos, monoculturas e desmatamento no entorno, especialmente na área da Fazenda Toca da Raposa, onde está o Acampamento 8 de Março (Distrito Federal, 2024).
Em contraposição, ele defendeu o projeto do acampamento baseado na reforma agrária e na agroecologia, com produção de alimentos saudáveis e recuperação ambiental, apesar das dificuldades impostas pela falta de apoio governamental e entraves legais. Também criticou a ausência de fiscalização, a irregularidade fundiária da área e os impactos do agronegócio, defendendo a continuidade da luta por um assentamento que sirva de modelo sustentável, além de incentivo à produção de alimentos diante do cenário de fome no País, a necessidade de planejamento territorial e de proteção ambiental (Distrito Federal, 2024).
Em sua fala, o grupo Guardiões de Águas Emendadas denunciou a falta de ações efetivas do poder público para proteger a região e apresentou dez medidas prioritárias para sua preservação, incluindo a ampliação da educação ambiental; a criação de uma área de proteção de mananciais; a criação de um grupo técnico para avaliar os impactos ambientais e a qualidade da água; o combate ao parcelamento irregular de terras; o controle de animais domésticos; o incentivo à agroecologia e atividades sustentáveis; a interrupção de obras rodoviárias que aumentassem a poluição; a melhoria da sinalização e da proteção da fauna; a proibição de monoculturas e agrotóxicos no entorno; e o reconhecimento da área como patrimônio mundial, destacando sua importância ecológica, hídrica e simbólica para o Brasil e a América do Sul (Distrito Federal, 2024).
Bruno Leandro Oliveira Maciel, coordenador regional do MST-DF, denunciou a contaminação ambiental na região da Estação Ecológica de Águas Emendadas, especialmente associada à propriedade de Mario Zinato, afirmando que estudos realizados identificavam alta concentração de mercúrio e outros contaminantes “justamente em frente à área onde está localizada a propriedade do Mário Zinato” (Distrito Federal, 2024).
Ele criticou a omissão de órgãos públicos, destacando que há fiscalização rigorosa sobre os territórios do MST, enquanto “a Adasa [Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal] não vai à propriedade do Zinato”, apesar das evidências de degradação, como a drenagem irregular e o uso intensivo da terra. Ele reforçou a necessidade de responsabilização e investigação, sugerindo explicitamente “que se abrisse uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a Toca da Raposa” para apurar o “processo de destruição” e contaminação da área.
Em contraponto, destacou experiências de recuperação ambiental e produção agroecológica em assentamentos, defendendo a continuidade das denúncias e a urgência de uma apuração institucional séria, proposta que foi acolhida como encaminhamento pelo deputado Gabriel Magno, com a indicação de articulação junto a órgãos de controle e a possibilidade de instauração de uma CPI.
Em 03 de janeiro de 2025, as famílias do Acampamento 8 de Março foram expostas à pulverização aérea de agrotóxicos na Fazenda Toca da Raposa. Segundo relatos, essa prática comum havia sido denunciada pelos acampados várias vezes, mas a situação se agravou com o registro da pulverização aérea em vídeos, sendo realizada durante a noite e a poucos metros do acampamento.
No vídeo, a gestante Alessandra Farias afirma: “Acabei de presenciar mais um episódio de envenenamento por parte do Mario Zinato. Eu estou aqui morrendo de dor de cabeça. Ele está envenenando nosso Acampamento.” (Feifel, 2025)
Na ocasião, Adonilton Rodrigues afirmou que a pulverização no período da noite foi uma estratégia de Zinato após denúncias anteriores. Segundo ele, seria uma tentativa de enfraquecer a resistência do coletivo:
“Antes ele [Zinato] inibia com pistoleiros, com jagunços passando armados, e agora com a aproximação do veneno. (…) Nós estamos fixos no local e falamos muito para o mundo sobre a questão da agroecologia. O Acampamento é todo arborizado. Nós transformamos essa área. Ele [Zinato] busca prejudicar não só a nossa resistência, mas o próprio modelo agroecológico que estamos criando no território.” (Feifel, 2025)
Diante da denúncia, Gabriel Magno (PT-DF, 2023-2027), líder da Frente Parlamentar em Defesa da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar na Câmara Legislativa do DF (CLDF), e a deputada federal Erika Kokay (PT-DF, 2010-2026) acionaram o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) solicitando procedimentos cautelares para a suspensão imediata da pulverização de agrotóxicos contra os acampados (Feifel, 2025). No ofício, destacaram os impactos na saúde pública e no meio ambiente, com possível descumprimento das normativas ambientais vigentes. (Feifel, 2025).
Em 15 de fevereiro de 2025, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, em parceria com o MST, organizou uma oficina de Vigilância Popular em Saúde no Acampamento 8 de Março. A proposta da oficina era discutir os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e orientar os assentados sobre como formalizar denúncias relacionadas às violações do agronegócio (Quintino, 2025).
Durante o evento, os acampados relataram sintomas e doenças típicas da intoxicação por agrotóxicos, como doenças de pele, dores de cabeça constantes, transtornos neurológicos e, inclusive, aumento de casos de câncer. Diante disso, a advogada popular e integrante do Coletivo Jurídico da Campanha Zé Maria do Tomé, Iara Sánchez, explicou que a comunidade deveria documentar os diversos sinais de intoxicação em seus corpos e na natureza para fortalecer as denúncias.
Segundo ela, “quando há intoxicação, o primeiro passo é observar o que está sendo afetado: nosso corpo, os animais que adoecem ou morrem, as plantas que murcham ou deixam de produzir, e até as abelhas, que são vitais para a polinização.” (Quintino, 2025)
A advogada também reforçou a importância de notificar os casos de intoxicação aos serviços de saúde e buscar apoio coletivo, pois os profissionais são obrigados a notificar esses casos. Ela afirmou ser essencial que a comunidade se mobilizassee, fizesse exames, registrasse boletins de ocorrência e buscasse parcerias para fortalecer as denúncias (Quintino, 2025).
Em 13 de março de 2025, durante a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, foram organizados no Acampamento 8 de Março um café da manhã agroecológico e uma “roçada pela vida”, atividade que consistia no plantio de árvores do Cerrado. Durante o evento, a história de luta dos acampados – já haviam morado cerca de 700 famílias no local, mas eram apenas 83, então – e o recente caso de pulverização aérea de agrotóxicos foram relembrados.
A roçada pela vida, organizada pelas mulheres do MST-DF/Entorno, visava afastar a plantação de milho transgênico, que ficava a apenas um metro de distância das casas do acampamento, e proteger de forma simbólica a integridade e a saúde das famílias acampadas. Além do plantio das árvores do Cerrado, as mulheres realizaram o trancamento de trecho da BR-020 para a distribuição de cestas agroecológicas produzidas pelo acampamento (Feifel, 2025).
Esteve presente a deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG, 2023-2026), que reforçou em sua fala a importância da agroecologia no enfrentamento às mudanças climáticas, além de criticar a redução de impostos sobre agrotóxicos na Reforma Tributária (Feifel, 2025). As mulheres do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) também participaram. Sua diretora nacional, Denilya Araújo, defendeu que são as mãos das camponesas que asseguram “mais de 70% do alimento diverso e agroecológico que chega à mesa do povo brasileiro” (Feifel, 2025).
Em sua crítica, a deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG, 2023-2026) se referiu ao debate sobre a Reforma Tributária e à redução de 60% nas alíquotas do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para os agrotóxicos, aprovada em dezembro do mesmo ano por meio da Lei Complementar nº 215/2025 (Andrade, 2025).
Em 07 de março de 2026, o Acampamento 8 de Março sediou o lançamento do Sonário da Terra, biblioteca sonora criada pela cineasta Camila Machado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do DF e Entorno (MST-DF) e da Comuna Panteras Negras, espaço de agroecologia, cultura e resistência localizado no Assentamento Pequeno William, em Planaltina (DF).
A biblioteca sonora representa sons cotidianos que revelam a diversidade sociocultural de comunidades rurais do DF e foi criada a partir de oficinas de som com os jovens do Acampamento 8 de Março e do Assentamento Pequeno William (Radar Digital Brasília, 2026).
Cronologia
25 de outubro de 2004 – Cerca de 350 famílias vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores sem Terra do DF e Entorno (MST – DF/Entorno) ocuparam aproximadamente 800 hectares da Fazenda Toca da Raposa, alegando que as terras eram griladas e pertenciam ao patrimônio da União.
– As Superintendências do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) visitaram a Fazenda Toca da Raposa para realizar vistoria no imóvel e apreenderam meia tonelada de agrotóxicos proibidos no Brasil.
26 de outubro de 2004 – Francisco Zanotelli Bigolin entrou com pedido de reintegração de posse da área.
03 de novembro de 2004 – Juiz Jansen Fialho de Almeida, juiz da Vara Cível de Planaltina, concedeu limin
ar de reintegração de posse, resultando no despejo das famílias. As famílias se instalaram em acampamento provisório às margens da rodovia BR-020.
08 de março de 2006 – Aproximadamente 500 trabalhadoras rurais vinculadas ao MST, ao Movimento Passe Livre (MPL) e ao Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) ocupam a Fazenda Toca da Raposa.
05 de maio de 2006 – Trabalhadores acampados ocupam os dois sentidos da rodovia BR-020, na altura do km 44, para pressionar o processo de desapropriação da Fazenda Toca da Raposa.
10 de outubro de 2006 – Secretário de Agricultura do Distrito Federal, Wilmar Luiz da Silva, se reúne com a direção do MST–DF na sede do Incra para discutir as reivindicações do Movimento.
2006 – Famílias acampadas são novamente despejadas.
29 de janeiro de 2007 – Cerca de 600 famílias vinculadas ao MST ocupam novamente a Fazenda Toca da Raposa exigindo a aceleração das desapropriações de terras para a reforma agrária no DF. É a terceira ocupação da fazenda em três anos.
30 de janeiro de 2007 – Advogado do MST, Ribamar Araújo, afirma em entrevista já estar comprovado que 400 hectares da área total são da Terracap, e que a companhia deveria se pronunciar sobre repassar a área para a União para fins da reforma agrária.
31 de janeiro de 2007 – Sem-terra interditam trecho da rodovia BR-020, na altura do km 30, solicitando audiência com o então governador do DF, José Roberto Arruda (DEM, 2007-2010).
S/D – Despejo das 600 famílias acampadas na Fazenda Toca da Raposa.
08 de março de 2012 – Cerca de 600 trabalhadores rurais do MST montam novo acampamento na Fazenda Toca da Raposa, denominado 8 de Março. A ocupação marca o Dia Internacional de Luta das Mulheres, integrando a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Camponesas de 2012.
09 de março de 2012 – É emitido mandato de reintegração de posse em favor de Mario Zinato dos Santos, no âmbito do processo nº 2012.01.1.031198-2 da Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF.
Março de 2012 – Requerimento na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, assinado pelos deputados federais Domingos Dutra (PT–MA, 2011-2015), Érika Kokay (PT–DF, 2010 – 2026) e Marcon (PT-RS, 2011-2027), visa a garantia de condições satisfatórias de segurança e vida para as famílias do Acampamento 8 de Março.
21 e 22 de abril de 2012 – Acampamento 8 de Março é novamente invadido por pistoleiros armados, e tiros são disparados contra o acampamento.
19 de julho de 2012 – Terracap reconhece ser a legítima proprietária da área ocupada pelo Acampamento 8 de Março e solicita o despejo dos trabalhadores acampados e do fazendeiro.
– O despejo dos acampados, marcado para 19 de julho, é adiado por questões operacionais. Após a saída da PMDF da área, um ônibus com homens, supostamente a mando do dono da propriedade vizinha, e tratores chegam no local.
2014 – Acordo da Terracap com o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) permite que as famílias acampadas ocupem área de três hectares para moradia e 14 hectares para produção agrícola.
13 de agosto de 2014 – Incêndio criminoso no acampamento Keno, na fazenda Santa Isabel, e no acampamento 8 de março, na Fazenda Toca da Raposa, ambos em Planaltina.
19 de março de 2022 – Comemoração de uma década do acampamento 8 de Março, com participação de acampados e assentados de outros territórios do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), representantes de movimentos sociais e parlamentares, como a deputada federal Erika Kokay (PT–DF, 2010 – 2026).
11 de novembro de 2022 – Mario Zinato Santos realiza doação de carnes, provenientes da fazenda Toca da Raposa, e empréstimos de caminhões e ônibus para a realização de manifestações bolsonaristas em Brasília.
17 de outubro de 2023 – Mário Zinato é citado como financiador em relatório apresentado na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de 08 de janeiro para ser indiciado e investigado, junto a 167 pessoas, pelos atos de vandalismo nos prédios dos Três Poderes.
05 de julho de 2024 – Encontro dos pesquisadores André Fenner e Cristina Maia, do Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Brasília, e alunos do curso de pós-graduação Diplomado Internacional en Agroecología para La Sustentabilidad com agroecólogas e ambientalistas do Projeto Margaridas do Cerrado e do Curso Dias no Acampamento 8 de março.
08 de agosto de 2024 – 61ª Sessão Ordinária da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), presidida pelo deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF, 2023-2027), é transformada em Comissão Geral para debater a proteção da Estação Ecológica de Águas Emendada.
03 de janeiro de 2025 – Pulverização aérea de agrotóxicos na Fazenda Toca da Raposa expõe famílias do Acampamento 8 de março ao risco de intoxicação e contaminação das lavouras.
15 de fevereiro de 2025 – Oficina de Vigilância Popular em Saúde no Acampamento 8 de Março é organizada pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
13 de março de 2025 – Café agroecológico e “roçada pela vida”, com plantio de árvores do cerrado, é organizado no Acampamento 8 de Março durante a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra de 2025.
07 de março de 2026 – Acampamento 8 de Março sedia lançamento do Sonário da Terra, biblioteca sonora criada pela cineasta Camila Machado, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) e apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-DF) e da Comuna Panteras Negras.
Fontes
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